Ayotzinapa Vive

Hoje o México está de luto. Há um ano, durante a noite de 26 de setembro e a madrugada de 27, policiais federais e municipais de Iguala perseguiram e atacaram estudantes da Escola Normal Rural de Ayotzinapa. Deixaram um saldo macabro de pelo menos nove pessoas mortas, 41 estudantres desaparecidos e 27 feridos. Nossa repórter Isabella Lanave estava no México quando os fatos ocorreram. Seu relato:

Texto e fotos por Isabella Lanave (R.U.A Foto Coletivo), para os Jornalistas Livres


As tardes em Guadalajara eram sempre longas; o café da manhã era às 11h e o “almuerzo” ficava pra depois das duas. Moravam eu, Lulu, Cauan, Francieska e Laura na Kasa Mezquitan, a mais bonita do bairro. Paredes vermelhas, flores e folhas verdes pelo ambiente e uma arquitetura tradicionalmente mexicana. O sol batia forte perto do meio dia e, quando chovia, era preciso correr para não se molhar entre o caminho quarto-cozinha.

Não me recordo o dia da semana, quando cheguei em casa para a primeira refeição do dia e a dona da casa, Lulu, contou sem muitos detalhes sobre um desaparecimento de 43 estudantes em alguma cidade mexicana — até então desconhecida para mim.

“Como somem 43 estudantes e ninguém tem uma resposta?”, eu mal imaginava que essa pergunta estaria sem resposta até hoje, um ano depois do desaparecimento.

Nesse momento senti falta de uma televisão na casa que eu vivia. Queria muito ver como a televisão ia mostrar o caso. Mas eu só encontrei televisão, dias depois, na casa do Don Rami. Um lugar simples, caseiro e com o melhor taco com frijoles de Zapopan. Nem na casa dos amigos, nem na universidade, nem nos bares que eu frequentava eu encontrava tv — o que na verdade não me fez falta.

No outro dia todos só falavam dos estudantes. Eu nem bem tinha passado pelo portão do Centro de Artes, Arquitetura e Design da Universidade de Guadalajara, onde eu estudei durante 6 meses em 2014, quando uma colega de classe me perguntou se eu já estava sabendo do caso dos alunos da escola de Ayotiznapa, em Guerrero. Eu disse que sim, mas perguntei se ela não poderia me explicar de novo. Fiz isso várias vezes. Sempre dizia, “sim, eu vi que os estudantes desapareceram! Mas você sabe o que aconteceu?”.

Apesar de sites pelo mundo todo começarem a noticiar o desaparecimento dos estudantes, eu sentia como se ninguém quisesse falar em voz alta do motivo de tudo isso. Professores citavam, amigos indagavam, mas as conversas eram no canto dos corredores ou em voz baixa pela rua. Só era diferente nas manifestações.

A primeira que eu acompanhei — e uma das primeiras em Guadalajara — foi no dia 8 de outubro. A Lulu, dona da casa onde eu morava, recebeu o convite pelo Facebook e me avisou mesmo que com um certo receio, pois ela sabia que estrangeiros não podiam frequentar protestos. Vesti minha saia mexicana, soltei meu cabelo escuro e encaracolado, peguei minha câmera e fui. As alemãs que moravam comigo foram até o ponto da saída do protesto e decidiram voltar — realmente, se essa história de estrangeiro fosse levada a sério, era melhor elas não estarem por ali.

A rua estava tomada. Famílias, homens, mulheres, crianças e idosos cuparam a Calzada da Independencia no centro da cidade, uma das ruas mais movimentadas de Guadalajara. Os rostos dos estudantes também estavam ali, nas camisetas dos manifestantes, em forma de cartazes, pedidos de justiça e palavras de ordem (“vivos se los llevaron, vivos los queremos” e “ayotzinapa vive, la lucha sigue”). Conforme a noite ia caindo, milhares de velas refletiam os rostos de cada um que levava o seu copo iluminado.

Chegamos até a Plaza de la Liberación, onde todos deixaram suas velas e escutavam o que os líderes de movimentos falavam. A cena era como de um filme triste. Minutos de silêncio pelos estudantes, gritos pela aparição imediata, lágrimas que caíam entre gritos de justiça. Não era a primeira vez. Todos que estavam ali sabiam que não era um caso isolado.

Entretanto, a visibilidade que se deu ao caso dos estudantes se deve, principalmente, ao fato de não terem sido dois, seis ou 15 desaparecidos. Foram 43! No México, desde 2006, mais de 22 mil casos de pessoas desaparecidas foram registradas pela Procuradoria-Geral da República (PGR), sem contar os que não foram denunciados.

Depois do dia 26 de setembro, pelo menos duas vezes por mês as ruas de Guadalajara eram tomadas por alguma ação por Ayotzinapa. Ninguém aceitava o que estava acontecendo e, muito menos, as respostas oficiais do governo. Alguns dos primeiros boatos foram de que os ônibus dos estudantes que seguiam em direção à cidade de Iguala foram barrados, numa tentativa de evitar uma manifestação durante o comício de Maria Los Angeles Pineda, mulher do ex-prefeito da cidade.

Porém, a versão oficial do Governo diz que os jovens foram pegos por policiais corruptos e entregues à facção “Guerreros Unidos”, que mataram e queimaram os estudantes em um lixão, acreditando que eles fossem membros de uma facção rival, “Los Rojos”.

E, mais recentemente, no relatório finalizado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), se comprovou a impossibilidade da queima dos jovens nesse lixão, pois, entre outros motivos, não existem restos mortais e tampouco qualquer resquício que evidencie a versão oficial. Uma outra versão soltada pela imprensa seria de que drogas foram colocadas em um dos ônibus, o que teria sido o motivo para serem parados. Mas nada justifica o que ocorreu.

Entretanto…

Lembro de quando fui tomar um chocolate — não tomo café — com um jornalista que conheci nas marchas. Ele sempre estava lá, com sua caneta e caderno escuro, olhava para mim com um olhar curioso e nós nunca nos falávamos. Até que certo dia, por ter conhecido o fotógrafo que trabalhava com ele, nos falamos, e, desde então, as marchas se tornaram mais divertidas.

E além disso, foi ele quem me ajudou a compreender que o verdadeiro motivo do ataque aos estudantes é o medo. As Escolas Normalistas no México foram criadas em 1926. A estrutura é simples, os alunos são internos e dividem seus quartos e refeitórios. A Escola de Ayotzinapa, que teve Lucio Cabañas — revolucionário e fundador do grupo armado Partido dos Pobres, que lutava contra despejos forçados e a desigualdade principalmente de camponeses — como aluno e professor, assim como diversas outras escolas rurais do país, tem a fama de “formar guerrilheiros”.

As escolas foram criadas para formar professores que pudessem atuar como líderes comunitários nas áreas mais precárias do país. Quase todos os alunos são de famílias indígenas, camponesas ou moradoras de bairros pobres.

Fabian Soares Lopes, estudante da Escola Rural Normal de Ayotzinapa, com o qual pude conversar numa manifestação em Guadalajara, confessa, em voz baixa e me permitindo fotografa-lo apenas sem mostrar o rosto — “não quero ser o 44” — como é degradante o estado da escola. “A estrutura e as salas estão em péssimas condições. Às vezes, nem o colchão onde dormimos serve, está bem destruído”.

Após uma mudança do governo mexicano em relação às regras do financiamento escolar, as escolas têm que sobreviver quase que totalmente de doações arrecadadas pelos próprios estudantes. Das 36 escolas rurais formadas no início do século passado no México, hoje só existem 17. Casos de mortes e desaparecimentos são comuns ao longo do tempo de existência das Escolas.

Em Ayotzinapa, dois alunos foram assassinatos em 2011. Os seus estudantes têm uma presença importante na vida política e pública no estado de Guerrero, participam em manifestações e possuem relações com organizações civis, polícias comunitárias, professores e camponeses. Além de terem realizado diversos posicionamentos públicos e políticos sobre assassinatos de ativistas e prisões de líderes da região, em um constante protesto contra o modelo econômico do país.

Guerrero

Antes de eu voltar pro Brasil, saiu uma edição especial da Revista Proceso sobre o caso dos estudantes. Um emaranhado de reportagens sobre o caso que já haviam saído na revista junto com novas descobertas. Lembro que eram meus últimos dias no México e eu estava naquela pressa para conseguir encontrar uma lembrancinha para meus amigos mais próximos, quando passei por uma banca e vi “Una historia de corrupción, barbarie e impunidad”.

El gobierno sabía, Complicidades y mentiras, Los que no existen, Heridas nacional… O estado de Guerrero é tomado pelo narcotráfico, sendo algumas regiões proibida a entrada de representantes do governo. O secretário de comissões legislativas de Assuntos Indígenas, Agraria e Turismo afirma que diante da incapacidade do governo do estado para enfrentar a violência, “criaram-se polícias comunitárias em diversas cidades”. E foram os integrantes desses grupos, que se desenvolveram na União dos Povos e Organizações do Estado de Guerrero (UPOEG), que descobriram fossas com corpos enterrados durante a busca pelos estudantes.

Os representantes estudantis da escola de Ayotzinapa também compartilham da opinião de que não existe apenas um culpado. “Não culpamos o narcotráfico, porque eles e o governo são a mesma coisa”.

Marchas e Protestos

Devido principalmente à falta de respostas, uma caravana com os familiares dos estudantes desaparecidos, o Comitê Estudantil de Ayotzinapa e as organizações de direitos humanos que estão acompanhando o caso, passaram, em novembro de 2014, pelas principais cidades do país buscando repassar a verdadeira informação sobre o caso. Guadalajara foi uma delas.

Era uma terça-feira de sol, como geralmente eram as tardes por lá. Os pais chegariam perto das 14h e o encontro seria na Universidade de Guadalajara (UDG). Antes, uma coletiva de imprensa. Depois, um momento para pais e estudantes compartilharem os fatos.

Foi difícil segurar as lágrimas. O ônibus chegou perto do horário marcado e, pouco a pouco, a tristeza tomou cara, braços e pernas. Já não eram mais os estudantes lá de Guerrero desaparecidos. Era como se aqueles, estampados nas camisetas de cada família, estivessem ali. Era por eles que mães e pais criaram forças para andar pelo país e passar a verdadeira história de Ayotzinapa. Eram pais que transformaram suas lágrimas em voz.

“Nos fazem mais fortes quando vemos que todos vocês estão junto com a gente e querem que tudo isso se resolva. Nossa prioridade agora é que nossos filhos regressem com vida”, afirma J., pai de um dos estudantes.

No fim do dia a caravana seguia para a Cidade do México, para se encontrar com as outras caravanas espalhadas pelo país, na grande marcha nacional no dia 20 de novembro do ano passado.

Um ano

Hoje, 26 de setembro, as ruas do México vão estar tomadas em busca de uma resposta concreta pelo caso, que ainda não tem uma versão que se possa confirmar ou tão pouco compreender.

Até agora, três corpos foram identificados e um dos ativistas responsáveis pela investigação do crime, integrante da polícia comunitária de Guerrero, foi encontrado morto com um tiro na cabeça dentro de um táxi. Toda as provas estão sendo anuladas, escondidas ou modificadas.

E a razão disso é simples: Ayotzinapa foi um crime de estado. O que reflete numa crise intensa do sistema de justiça mexicano, que já conta com uma violação permanente dos direitos humanos.É muito importante que falemos sobre o que ocorreu. Principalmente em um país como o México, onde na última década foram registrados 1183 agressões a jornalistas que documentam movimentos sociais, além de 130 mortos e 38 desaparecidos, não podemos ficar calados.

É preciso que todos saibam o que acontece na nossa América Latina. Nenhuma mãe precisa passar pelo sofrimento de vestir uma camiseta com o rosto de seu filho desaparecido. “Nin uno más”!

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