Camelô negro vai à Paulista faturar um extra, mas defende o PT

por Laura Capriglione, Léo Moreira Sá e Maria Carolina Trevisan, com fotos Adolfo Garroux e Ennio Brauns, e edição de vídeo de Alex Demian especial para os JornalistasLivres

Foto: Adolfo Garroux

Fernando de Lima, 31 anos, casado, negro, é pai de duas meninas e é camelô. Ele foi à avenida Paulista nesse domingo, dia da manifestação chamada pelo ‘Movimento Brasil Livre’ e ‘Vem pra rua’, para vender cerveja (3 por R$ 10 no fim do ato) e água (R$ 5). Só por isso. Na verdade, Fernando discorda de quase tudo o que ouviu durante a manifestação:

“O protesto está muito desigual. Eles estão falando pela minoria da população. Então, eles tinham de ouvir o povo em geral antes de formar uma convicção. Mas eles falam apenas por eles, pela burguesia, pela gente do dinheiro.”

Confira o vídeo da entrevista produzido pelos Jornalistas Livres

O camelô mora na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo. Depois de um dia inteiro de contato com os participantes do protesto ele quantifica: “Aqui, nem 10% é da periferia. A maioria é do centro, pessoal mais do dinheiro.”

Segundo ele, os manifestantes “sentem ódio do PT porque não vivem o que a gente vive nas comunidades”. E sentencia: “Se eles vivessem ao menos um pouquinho do que vivenciamos em nosso cotidiano, eles poderiam repensar seus conceitos”.

Fernando não perdoa a corrupção envolvendo nomes do PT. “A gente não dá ponto para o erro”. Mas ressalta: “A periferia teve bastante benefício nos governos do PT, como os programas sociais. Foram muitas coisas que ajudaram bastante. E hoje, graças a Deus eu tenho uma casa para morar e posso agradecer primeiramente a Deus e ao PT. Por isso é que eu estou aí, na luta.”

Sobre a chacina que ocorreu em Osasco e Barueri na última quinta-feira, matando 18 pessoas, Fernando acha que “a polícia, em vez de fazer o trabalho dela, está correndo atrás de gente inocente”.

“Essas pessoas pedem a volta da intervenção militar, mas quem iria perder com isso seríamos nós, a periferia. Nós periféricos é que sofreríamos com essa intervenção militar”.

Jornalistas Livres perguntam ao camelô: “A vida de um jovem branco vale a mesma coisa que a de um negro para as pessoas que participaram dessa manifestação?”

“Certamente que não. São décadas e décadas. A desigualdade ainda é muito grande entre brancos e pretos."

"O Brasil é um país racista. Eu vejo isso no dia-a-dia. As pessoas ricas ainda olham para o negro de uma forma diferente, mudam de direção se a gente está no caminho delas. Este é o país, infelizmente, em que a gente vive.”

A verdade é que a maioria dos negros que participaram da manifestação contra Dilma fizeram-no trabalhando. A população negra e pobre de São Paulo não estava curtindo o domingão na Paulista, tomado por um mar de pessoas brancas vestidas de verde e amarelo, aquelas que ocupam o topo da pirâmide socio-econômica brasileira. Com tanta gente de alto poder aquisitivo reunida, a avenida era o local exato para quem quisesse ganhar um trocado extra comercializando churrasquinho, água de coco, milho cozido, água e cerveja.

Foto: Ennio Brauns

E lá estavam eles, debaixo do sol, ralando para completar a renda, enquanto os manifestantes passeavam com seus cachorros, entre selfies e sorrisos.

Segundo a pesquisa “A inserção dos negros no mercado de trabalho”, de 2012, realizada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), negr@s representam 48,2% dos trabalhadores das grandes cidades, e recebem pouco mais da metade do que é pago para os não-negros. É uma disputa desigual. Em relação ao grau de escolaridade da população negra inserida no mercado formal de trabalho, 27,3% não haviam concluído o ensino fundamental e apenas 11,8% tinham o diploma do ensino superior.

Foto: Ennio Brauns

A desigualdade racial ficou evidente na avenida Paulista. Para quem conseguir enxergar.