Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil

Cenas lamentáveis

Por Manoel Ramires, especial para os Jornalistas Livres

Dia desses, o governo da Nicarágua nomeou René Nuñez, fiel aliado do presidente Daniel Ortega, para o comando da Assembleia Nacional do país. Contudo, René já estava morto há dez dias. Mesmo assim, compareceu a sua posse, vestido de ataúde marrom e meio mudo, acompanhado de agentes em traje de gala, quadro com seu rosto e coroa de flores vermelhas. Foi uma jogada para aprovar canal interoceânico privatizado e reformas no Código Militar.

Esse episódio sugere cenas incríveis de seres humanos que fazem de tudo para atingir seus desejos. Haja escrúpulo. Certa vez, um homem já morto e também no caixão, teve seu velório invadido por outro bandido que disparou contra o seu peito, matando-o pela segunda vez. Ao justificar o assassinato do morto, o homicida de cadáver alegou que “aquela morte o pertencia”.

Mas falemos de histórias incríveis de vivos. Da busca implacável pelo poder e aniquilamento do inimigo. Conta a história que o imperador da China foi promovido ao poder aos nove anos após a morte de seu pai e para frear a ascensão do chanceler Jia Sidao. Em seguida, na guerra com os mongóis, foi capturado e, diante do rei Kublai Khan, implorou pela sua vida. Recebeu um abraço fraternal tão forte que se concluiu com o esmagamento de seus ossos.

Ih, parece que tratamos de morte novamente. Melhor falar de outras cenas em que a tomada — ou manutenção — do poder também ocorreram precocemente. É o caso de Dom Pedro II. Ele se tornou imperador do Brasil aos cinco anos. Logo após Dom Pedro I, aquele que proclamou independência da coroa portuguesa para seguir no poder, abdicar do trono. Dom Pedro II viu os escravos serem jogados aos “leões da sociedade” em 1888 na canetada da Princesa Isabel e, mais tarde, foi vítima de golpe de estado na Proclamação da República. São cenas desse Brasil de independência sem morte, ordem e retrocesso, trabalhe e não descanse, de golpes que são celebrados como revoluções e de condenações sem crime de responsabilidade.

Fotos: Leandro Taques/Jornalistas Livres

Aliás, o Brasil não é a Colômbia do Realismo Fantástico, mas também não fica atrás do país de Pablo Escobar quando encontramos helicópteros abarrotados de cocaína de propriedade de senador da República e abafamos o caso. Nosso país é, de fato, a nação do Realismo Trágico. Território de cenas lamentáveis. Mais uma delas ocorreu em 22 de agosto, no hospital Albert Einstein: o cientista disse que tudo é relativo enquanto nós inovamos provando que tudo pode ser seletivo, até a indignação. Pois bem, neste hospital, meses atrás, um senhor, ex-ministro da economia, foi hostilizado por outras pessoas que estavam no ambiente enquanto acompanhava a esposa em tratamento de câncer. Isso demonstra que no Brasil não há mais territórios neutros. Não há regras na guerra, tampouco compaixão. Aqui, se ainda não se esmaga criança prodígio, se comemora perda de visão de jovem atingida por bala da polícia militar, se comemora bombas e tiros contra professores dentro de palácios, se defende linchamento. Aqui, nesta ex-nação de pessoas cordiais, cada vez mais nos identificamos com a barbaridade. Vamos às redes sociais comemorar a prisão desse mesmo ex-ministro na porta do mesmo hospital quando esse acompanhava sua esposa na cirurgia de câncer. Depois pedimos vênias nos autos. Afinal, não basta apenas prender. Virou regra aniquilar.

Mas quem sabe, como em toda novela brasileira, essas cenas drásticas não tenham uma reviravolta espetacular e as pessoas despertem da letargia cívica. Neste caso, as pessoas passarão a lamentar e a protestar quando delegados que “combatem” a corrupção escolhem não acolher provas contra corruptos que eles protegem de investigações, como no caso de Eike Batista e tantas outras delações direcionadas. Temos que ter fé. Ou não.

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