Cidades (IN)Visíveis

por Amanda Coutinho e Fellipe Mello, especial para os Jornalistas Livres


Segundo o IBGE (2010) e a Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, há mais imóveis vazios do que famílias sem moradia na capital. O número de domicílios vagos seria suficiente para resolver a atual insuficiência de moradia. E ainda sobraria mais do dobro de vagas. São 290 mil imóveis não habitados para 130 mil famílias que não têm onde morar.

Na maior parte dos casos, os prédios abandonados e sem função social somam dívidas tributárias milionárias. O ensaio fotográfico “Cidades (In)Visíveis” foi realizado em julho de 2015, a partir da imersão em dois dos principais símbolos de resistência da Frente de Luta por Moradia (FLM) do centro de São Paulo: Ocupação Mauá e Ocupação Prestes Maia.

O prédio onde funcionou o antigo Hotel Santos Dumont, na Rua Mauá, 340, estava vazio havia 20 anos quando foi ocupado, em 25 de março de 2007. Quatro dias antes de completar cinco anos da Ocupação, os donos do imóvel, a família Snifer, solicitou a reintegração de posse, o que frustrou as expectativas dos moradores, que iam pedir o reconhecimento do usucapião do prédio, conforme prevê a Constituição brasileira.

Com muita resistência da FLM, o processo de desapropriação foi iniciado em junho de 2013, quando a prefeitura de São Paulo decretou o imóvel como área de interesse social. O depósito judicial para compra do prédio foi realizado em abril de 2014, no total de R$ 11 milhões. As famílias aguardam o prazo de manifestação dos proprietários quanto ao valor ofertado.

Na maior ocupação vertical da América Latina, a ocupação Prestes Maia, a situação é diferente. Também considerada área de interesse social pela prefeitura, a desapropriação ainda está em fase pericial para elaboração da avaliação judicial e posterior depósito da oferta inicial. Antiga Companhia Nacional de Tecidos, o prédio Prestes Maia estava vazio havia 18 anos, quando teve seus 21 andares ocupados, em 3 de novembro de 2002.

Os valores pagos na desapropriação são geralmente balizados pelo mercado e se elevam ainda mais quando a ocupação ganha visibilidade. No Edifício Prestes Maia, mesmo com laudos dos bombeiros apontando uma série de falhas estruturais e de segurança do edifício, os proprietários, empresários Jorge Hamuche e Eduardo Amorim, pedem cerca de R$ 40 milhões à prefeitura para a venda do imóvel.

Mais de 400 famílias ocupam os prédios Mauá e Prestes Maia. Mulheres, crianças, trabalhadores(as) precarizados(as), desempregados(as), autônomos(as), informais, negros(as), nordestinos(as) e imigrantes são partes representativas da escultura social dos edifícios. Nas fotos, foram usadas lentes manuais e a edição de cores tentou preservar as luzes e sombras das ocupações. A ênfase visual nas crianças, o título do Ensaio e o comprometimento da FLM na implementação de políticas habitacionais convergem para a observação de Ítalo Calvino, cuja paráfrase indica que de uma cidade podemos aproveitar também os espaços que dão repostas às nossas perguntas, ou os espaços que colocam as perguntas que somos obrigados a responder.

Confira abaixo o ensaio completo: