Em Munhoz Júnior, Osasco, a manifestação não teve cerveja

por Oscar Neto, dos Jornalistas Livres, com imagens da UJS Osasco


Uma marcha silenciosa e triste pedia segurança e justiça pela noite violenta que levou 18 vidas em poucos minutos, na maior chacina do estado desde o Massacre do Carandiru. As mulheres das periferias paulistas não param de velar seus jovens.


No mesmo dia em que uma multidão lotou a avenida Paulista para um protesto animado e regado a muita cerveja contra o Governo Federal, cerca de 150 pessoas se reuniram no bairro Munhoz Júnior, periferia de Osasco, em um ato triste de solidariedade pelas mortes ocorridas na chacina que assustou o Brasil na noite da última quinta-feira — mas que parece não ter causado comoção em uma determinada parcela da população.

Foto: UJS Osasco

A execução de oito pessoas em um bar na rua Antônio Benedito Ferreira, que foi seguida por uma série de assassinatos em Osasco e em Barueri mobilizou o ato de luto, organizado pela UEO (União dos Estudantes de Osasco), com a participação de outros movimentos de estudantes e sociais. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, o envolvimento de policiais na chacina não está descartado.

“Acreditamos na união dos movimentos sociais para denunciar a opressão da PM. Mesmo que essa autoria não seja confirmada, sabemos dessa realidade contra a população pobre, preta e periférica”, explica Igor Gonçalves, presidente da UEO.

Clima pesado

O bar onde ocorreu a matança estava obviamente fechado. Em frente ao portão, velas, flores, fotos de outros jovens que foram vítimas da violência, além de faixas e bandeiras como a do movimento Mães de Maio. Algumas crianças que participavam da atividade cantavam em coro dizeres como “Justiça, justiça…”. O Coro de Carcarás, grupo de agitação cultural, empunhou suas baquetas e tocou até se fazer escutar.

Foto: UJS Osasco

Os moradores da região ouviram, saíram de suas casas e assistiram à marcha da calçada. Alguns participaram e apoiaram a tese sobre a vingança de policiais. “Vejo o fato como uma omissão do Estado. O governo é policialesco e não trata a população simples como deveria. Se ele não traz para cá políticas públicas acaba gerando violência. A polícia trata a gente de forma diferente por aqui”, alerta Luiz, 57 anos, morador do bairro há 42.

Para Luana Bezerra, representante da Coordenadoria da Mulher e Promoção da Igualdade Racial e Diversidade Sexual da Prefeitura de Osasco, o tratamento “diferenciado” é evidente. Ela aproveitou a ocasião para clamar por reação. “Nós, jovens da periferia, devemos buscar os nossos direitos, saber o que são os autos de resistência, fruto da ditadura militar no Brasil. Enquanto não cobrarmos isso da prefeitura, do governo federal e estadual, eles não virão aqui com pires na mão oferecer equipamento de cultura”, afirmou.

Munhoz Júnior é um bairro humilde de Osasco. Para alguns, esse é o motivo da truculência frequente dos agentes da lei contra a população local. “Eles são folgados”, disse um dos jovens residentes na região. No entanto, boa parte das pessoas preferia não opinar sobre os responsáveis. Era o medo. O medo que cala as pessoas, que sufoca o sentimento de injustiça e aperta a garganta de quem protesta em luto.

Foto: UJS Osasco

“Moro há 47 anos aqui e nunca vi isso. Não tem o que falar, foi uma tragédia. Não posso falar que foi polícia, quem sou eu pra dizer. Mas quem morreu foi gente muito inocente, gente boa que eu conhecia desde pequeno. É triste. Já vi muita coisa aqui, mas não da forma como aconteceu”, conta Neide Braga, que apesar da insegurança se juntou à manifestação em nome do bairro. “Temos que tomar conta do que é nosso. Não podemos ter medo”.

Sandra, 28 anos, estava descendo uma rua adjacente em direção ao local do crime no momento do tiroteio e voltou correndo pra casa ao ouvir os tiros. Ela conta que o clima da vizinhança mudou. “Está péssimo, à noite não fica ninguém na rua. Esse bairro é sempre tranquilo, todo mundo fica na rua até tarde, mas agora…” É o silêncio macabro que acompanha as ruas do bairro depois das 22h.

A moradora conhecia as pessoas que morreram, reforça a inocência de alguns e concorda com os demais entrevistados quando o assunto é a atuação policial. “Tinha gente que estava de uniforme, chegando do serviço, que só parou para tomar uma cerveja. A relação com a polícia não é legal. Quando encostam é encrenca. Já vi vários abusos policiais aqui”, ressalta.

Os comerciantes do local também estão preocupados. Sergio, dono de um dos estabelecimentos vizinhos lembrou as cenas de terror. “Tinha freguês aqui, eles correram para dentro. Tudo durou uns três minutos”, relembra. Quando questionado sobre como se sentia ao ter que continuar trabalhando no local, a resposta veio de esposa, Rosa: “tente você se colocar no lugar dele por um minuto para entender”.

Mais uma mãe sem filho

Um dos momentos mais emocionantes do encontro foi quando dona Zilda, mãe de Fernando Luiz de Paula (conhecido pelo apelido de Abuse), falou com os jornalistas presentes. Visivelmente abalada e com os olhos cheios de água, ela estava em casa quando avisaram que o filho havia sido baleado. “Bandido não foi, traficante não foi, pois eles cobram direto de quem está devendo, não ficam matando pai de família”, diz.

Foto: UJS Osasco

E como vai ser a vida da dona Zilda agora? Mãe de um único filho assassinado? “Não sei né… sei lá… tem muita… ainda não caiu a ficha. Ele era pintor… as coisas dele estão lá ainda, como deixou”, tentou concluir. Mesmo tomada pela dor, ela ainda teve forças de convocar uma missa, que deverá ser realizada na quarta (19/8) ou quinta-feira (20/8).

Outros moradores pretendem realizar mais um ato de solidariedade e protesto no próximo fim de semana, que deverá ser definido nos próximos dias e informado pelos Jornalistas Livres.

*A reportagem não identificou o nome completo das pessoas para preservar a segurança dos entrevistados

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