Fragmentos da terra da água

Texto e imagens por Helio Carlos Mello, especial para o Jornalistas Livres

Era muito cedo ainda para o dia, mas a noite já não escurecia tanto. Pegamos as vacinas, o médico cubano , a enfermeira, técnicos e agentes indígenas de saúde, nossa grande equipe conta 10 pessoas e dois barcos e um só rumo: vacinar e identificar todos os índios em todas as diversas aldeias e suas etnias. Agora, estamos nas antigas terras dos índios Kalapalo, território esse evacuado as pressas por eles no século passado, contam em histórias tristes que as mulheres e as crianças, seus velhos também, iam morrendo pelo caminho padecidos de sarampo. Hoje voltam para as terras em pequenas novas aldeias, lugares sagrados e miscigenados com Matipu, Nafukuá, Kuikuro.

Foto: Hélio Carlos Mello

Estamos abrigados no Culuene, uma aldeia ponto de apoio e vigilância com o limite sul do PIX, a membrana de contato com o território dos povos da terra do Alto Xingu.

Os muitos dias intensos de trabalho já realizado são recortados pelo radical silêncio das noites, pois todos dormem cedo em suas redes. Do sono que perco nas madrugadas percebo que há hoje um certo trânsito de barcos naquele trecho de rio, algo incomum nas terras indígenas.

Na manhã seguinte vejo onde de fato estou, pois alta noite se fazia quando aportamos a água limpa dos rios que navegávamos cede aqui espaço a imensas manchas de espuma marrom rodeando os cantos do rio Culuene. Ao longo do dia vou entendendo a enorme pressão que se faz no limite do parque com a sociedade envolvente, no caso moradores, fazendeiros e turistas que frequentam intensamente as pousadas de pescarias que se contituem nas margens do rio no município de Gaúcha do Norte e com estradas de acesso as cidades de Canarana e Querência.

Foto: Hélio Carlos Mello

Passei a transitar esse trecho com meus amigos indígenas, a apreender os limites da área e toda a voracidade, ainda insipiente, dos investimentos no setor hoteleiro que tendem a se intensificar com o poder do apelo do turismo da pesca. Nosso achado foi a antiga placa da FUNAI, que anuncia o limite da Terra Indígena soterrada no leito do rio, entre a mata. Bravamente houve o desterro da placa pelos Waurá, Kuikuro e Kamaiurá que me acompanham. Colocamos a placa toda enferrujada no local, mesmo sabendo que cabe a FUNAI anunciar e zelar pelos limites das terras indígenas, bem como mediar conflitos nas zonas de pressão. Fica evidente que o município de Gaúcha do Norte tem que criar um legislação ambiental para a ocupação das margens do Culuene. Ao IBAMA cabe fiscalizar o resguardo dos recursos naturais.

Foto: Hélio Carlos Mello

A poluição das águas vinda pelo turismo e a invasão de pescadores é apenas uma das ameaças que começam a interagir com as aldeias e as etnias e seus clãs. Hoje os jovens estão animados com a grande pescaria em rede, e a rede é o wi-fi que seduz a todos. As motos passaram a ser fundamentais também, facilitando o trabalho nos caminhos de roça e no percurso do rio. Grandes TVs também encontraram seu lugar na grande casa ovalada em sapé habitada por muitos. A mercantilização das grandes festas e rituais também salta aos olhos.

Foto: Hélio Carlos Mello

O incrível mundo novo da tecnologia passa a se mostrar como uma eficiente arma inventada pelo homem branco, cabendo apenas aos índios decidirem que caminho tomar para preservar a cultura originária da sedução das parafernálias que o mercado renova a cada dia.


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