Sequestraram a Ação Popular! Liberdade para a AP!

Por Vinicius Souza (www.mediaquatro.com) e Laura Capriglione, especial para os Jornalistas Livres

Atenção, atenção! Circularam pela avenida Paulista no último domingo, no ato em que também desfilaram defensores do impeachment, da “Intervenção Militar Já!”, da monarquia, de Eduardo Cunha, de Sarney, da tortura etc., cerca de 10 jovens dizendo-se militantes da Ação Popular. Epa! Epa!

Para quem não sabe, a AP, como era chamada, foi uma das principais correntes políticas a lutar contra a Ditadura Militar nos anos 1960 e 1970. Em dado momento de sua vida, a AP chegou a se chamar APML — o sufixo ML queria dizer “marxista-leninista”.

Na fundação, via o socialismo como uma espécie de humanismo cristão, ao qual caberia a crítica da alienação capitalista e sua superação. O humanismo cristão vinha das origens da AP na Juventude Católica. A dureza daqueles tempos custou a prisão e a tortura, quando não a morte, a vários militantes da AP, como o estudante de Geologia Honestino Guimarães, assassinado em 1973 sob tortura quando estava sob custódia do Estado brasileiro.

No final dos anos 1970, a AP foi fundamental para a reorganização do Movimento Estudantil, depois dos anos da repressão mais feroz. Dirigiu a reconstrução do Diretório Central dos Estudantes da USP, em 1976. Com militantes como Geraldo Siqueira e Vera Paiva, entre outros, a AP entusiasmou e encheu de coragem milhares de jovens que enfrentaram a tropa de choque, a cavalaria e as bombas de gás e de efeito moral do coronel Erasmo Dias, o então chefe da Segurança Pública de São Paulo.

Pois aquela AP sofreu um sequestro simbólico. A atual AP, na fala de seu porta-voz, Rafael Auad, “tem uma linha um pouco diferente, porque os tempos são diferentes”.

Em vez do horizonte utópico do socialismo, conforme defendia Honestino, Rafael Auad agora diz: “Reconhecemos que a economia de mercado é como o mundo funciona e precisamos trabalhar nesse sentido.”

A Ação Popular na versão morta-viva “é uma corrente de jovens que busca desconstruir o que está sendo feito no movimento estudantil e nos movimentos sociais”, explica Auad. Em vez das grandes lutas pela liberdade e pela construção de um país mais justo, a atual AP discute “um dos principais temas da agenda paulistana”. Qual é?

Engana-se quem pensa que seja o genocídio da população preta, pobre e periférica, ou a falta de moradia, ou as obras paradas do Metrô, ou…

Segundo a página da Ação Popular no Facebook, trata-se do aplicativo Uber (em que mundo esses caras vivem?). O debate, que aconteceu no dia 16 de julho, “contou com a participação de mais de uma centena de pessoas entre jovens, simpatizantes do Uber, taxistas, jovens tucanos e membros de diversas organizações e movimentos sociais.”

Dizem eles: “Nossa juventude Ação Popular chegou para ficar. Seremos o elo do partido com a sociedade, resgataremos a sensibilidade do partido com o pulsar das ruas.”

Ah, tá!

Libertem a Ação Popular. Não merece ser humilhada assim uma sigla com tão importante histórico de lutas, com tantas lembranças da resistência mais heroica ao arbítrio e à opressão.

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