Incêndio na Chapada registrado em 2008. Foto: Rafael Lage

Mais um incêndio consome a Chapada Diamantina

Brigadistas voluntários e comunidades se unem para barrar as chamas que engolem a região. Leia relato de um jornalista morador do Vale do Capão e brigadista na batalha para conter a fúria do fogo.

Por Marcelo Issa, para os Jornalistas Livres

O Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA) arde em chamas há pelo menos 20 dias. Os principais focos são nos municípios de Ibicoara, na região do “Mucugêzinho”, entre os municípios de Lençóis e Palmeiras, onde também atingiu o famoso Morro do Pai Inácio, e o Vale do Capão, no município de Palmeiras.

Um problema recorrente que os órgãos responsáveis insistem em tentar remediar (quando já é muito tarde) do que prevenir. Há décadas a Chapada Diamantina sofre com as queimadas e a ausência de um planejamento estratégico de prevenção ao fogo, somado a um número muito baixo de efetivo de brigadistas contratados, resulta no visível fracasso que se vê hoje: a BR 242 interditada devido à fumaça, municípios encobertos pela neblina, comunidades em risco.

Muitas casas ficam próximas das montanhas em chamas, milhares de hectares de florestas estão queimadas, inúmeros animais de diversas espécies ja estão mortos…

Mas dessa situação extrema surge algo bom: moradores que se unem aos heróis das brigadas voluntárias, como a do Vale do Capão, por exemplo. A comunidade ajuda como pode a Associação de Condutores de Visitantes do Vale do Capão (ACV-VC), que é composta por voluntários que se envolvem em diversas questões ambientais, uma delas é o combate ao fogo. Essa brigada não tem nenhum tipo de remuneração e trabalha em condições precárias. O que sobra é a raça e a força de vontade de guerrear contra as chamas que teimam em varrer nossa riqueza natural.

Foto: Iago Aquino
Foto: Marcelo Issa
Foto: Iago Aquino
Foto: Iago Aquino

Por dias e noites acompanho esses brigadistas no combate ao fogo no Morro Branco, no Vale do Capão, tanto como jornalista, no intuito de registrar a realidade bem de perto, como morador local, tentando colaborar com a manutenção desse paraíso. São locais de acesso complexo, onde brigadistas e moradores enfrentam, muitas vezes, risco de morte. Os locais íngremes, com fendas enormes onde não se pode dar um passo em falso. Isso tudo com 20L de água (20Kg) nas costas e equipamento defasado para combater chamas com cinco, seis metros de altura.

Queimada na região fotografada em 2008 por Rafael Lage.

Só nos últimos três ou quatro dias que algumas aeronaves começaram a ajudar na logística de jogar água nos focos de incêndio e transportar alguns brigadistas às regiões mais complexas — apesar da ajuda chegar tarde e ser pequena, perto da necessidade. Quando ações para apagar ou controlar totalmente o fogo não têm êxito, ao menos impedem que as chamas sigam destruindo outros locais, nascentes de rios e provoque ainda mais mortes de animais silvestres. Lembrando que a alimentação, as roupas especiais para combater altas temperaturas, abafadores, bombas de água, materiais como lanternas, pilhas, etc, tudo vem de doações de empresas parceiras ou da própria comunidade, afinal, por serem voluntários e não contratados pelo governo, são praticamente esquecidos à própria vontade e sorte.

Foto: Iago Aquino

///