Não acabou. Tem que acabar!

O fim formal das ditaduras latino-americanas não encerrou a prática estatal de tortura, morte e desaparecimentos forçados. A principal diferença é que os alvos principais não são mais os esquerdistas, mas os pobres e periféricos

Jornalistas Livres
Jun 10, 2015 · 7 min read

Por Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá, da –www.mediaquatro.com-, especial para os Jornalistas Livres

Irmã de um desaparecido pela ditadura civil-militar brasileira (oficialmente entre 1964 e 1985) e mãe de um jovem assassinado pela polícia em 2006 (na resposta brutal e indiscriminada contra os pobres na chamada Guerra do PCC, em maio de 2006), Débora Maria Silva é a síntese do terrorismo de estado que assola a América Latina há décadas, independente dos governos serem considerados democráticos ou não. Filhas legítimas da política colonialista alimentada pelo genocídio das populações nativas e azeitada pelas engrenagens da escravidão, as elites governantes atuais seguem aprofundando o abismo social em que pouquíssimos têm muito e muitos não têm nada. E para garantirem o status quo, precisam manter pretos, pobres e indígenas nas periferias econômicas e da justiça. E se for necessário matar, torturar ou desaparecer com algumas centenas ou milhares dessas não-pessoas, bem, faz parte dos negócios.

Foi para denunciar esse estado de coisas e pedir solidariedade e pressão das sociedades que a Caravana 43 Ayotzinapa, formada por familiares e testemunhas do massacre de seis estudantes e sequestro de 43 outros no México em 26 de setembro de 2014, se encontrou na última quarta-feira, 2 de junho, no centro de São Paulo (veja outras reportagens a respeito aqui , aqui e aqui), com o Movimento Mães de Maio, formado por parentes de vítimas das polícias brasileiras.

“Não são só 43. São mais de 30 mil desaparecidos sob um governo de estreitas relações com o narcotráfico”

A agenda da Caravana 43, que já passou por Argentina e Uruguai e vai passar ainda por Rio de Janeiro e Porto Alegre, é extensa, assim como são extensos os crimes denunciados. “Não são só 43. São mais de 30 mil desaparecidos sob um governo de estreitas relações com o narcotráfico”, diz Mário César González, pai de César Manuel González Hernández, um dos sequestrados pela polícia municipal de Iguala, no estado mexicano de Guerrero. “A única diferença entre o governo atual (do presidente Enrique Peña Nieto) e o do (anterior, Felipe) Calderón, é que agora se tortura e se desaparece com ainda mais gente”, completa Francisco Sánchez Nava, sobrevivente e testemunha dos acontecimentos de 26 de setembro.

Em São Paulo, a Caravana 43 começou a jornada com uma coletiva de imprensa na Kiwi Companhia de Teatro onde estiverem presentes jornalistas da mídia hegemônica (como O Globo), estatal (EBC), alternativa (Jornalistas Livres, Ponte, Passa Palavra, CMI, Rede Brasil Atual e vários coletivos) e latino-americana (Telesur). Outros veículos, como Folha de S.Paulo e Estadão pediram conversas exclusivas. A repercussão, no entanto, foi pequena. Pequena até demais para a tragédia que os fatos representam. “Estou aqui com uma grande responsabilidade porque tenho 512 estudantes (da escola rural normal) de Ayotzinapa atrás de mim”, explicou Nava. “Não queremos ver outro 26 de setembro, outro 12 de dezembro, outro Chaco… E assim vai ser se não nos organizarmos e não pressionarmos o governo que está apenas jogando conosco”.

“Temos seis ou sete estados em que têm havido mais mortes e nada acontece, não há uma resposta”

A situação realmente é terrível. Enquanto os parentes e colegas dos estudantes seguem buscando-os vivos há mais de oito meses, o governo assegura que foram mortos por um cartel de traficantes de drogas. As investigações, contudo, não são conclusivas e diante da contratação de especialistas argentinos para revisar as provas, o governo vem bloqueando o acesso aos dados já coletados e proibindo a investigação dos possíveis responsáveis militares e policiais. “O governo está escondendo muitas coisas que não sabemos quais são”, afirma Hilda Legideño Vargas, mãe de António Tizapa Legideño. “Sempre dissemos, por exemplo, que deveriam investigar o ex-governador e não sabemos o motivo porque não está sendo investigado, de modo que achamos que possa haver outras coisas maiores por trás, como o envolvimento do governo federal”. “Temos seis ou sete estados em que têm havido mais mortes e nada acontece, não há uma resposta”, declara Mario González. “Ao invés disso ficam pressionando os familiares”.

Às 18:00, a Caravana seguiu para a Praça da Sé, onde, já junto com as Mães de Maio, assistiram uma intervenção do grupo de teatro Coletivo de Galochas. Nela, os atores vestidos com macacões de cor laranja, que remetem tanto aos garis brasileiros quanto aos prisioneiros estadunidenses do campo de Guantánamo em Cuba, recriaram cenas do cotidiano das grandes cidades. O tema era o embate entre os trabalhadores e o “Esquema” que controla nossas vidas, seja por meio da violência policial, seja pela via econômica, política ou midiática, que no fundo são quase a mesma coisa.

Na peça, que teve participações espontâneas de moradores de rua e a utilização de uma bandeira vermelha e preta de algum antifascista que assistia, o povo vence o “Esquema” e se torna livre. Em seguida, todos caminham em cortejo ao som da Fanfarra do MAL, que acompanhou diversas manifestações do Movimento Passe Livre em junho e julho de 2013, até a Quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo.

“Nós estamos falando de um estado genocida, de um estado que a política de segurança pública é matar, com o aval do Ministério Público que tinha o dever do controle externo da polícia militar e não o faz”

As mais de 300 pessoas presentes não chegaram a lotar o espaço, usado tradicionalmente para eventos sindicais e políticos do Partido dos Trabalhadores. Na mesa, oito mães e um pai de mortos e desaparecidos pela polícia brasileira contaram suas histórias e se solidarizaram com três duas mães, um pai e um colega dos 43 sequestrados no México.

“Essa é a realidade brasileira. Se mata muito, se encarcera muito, se tortura muito e nada acontece pra ninguém. Existe essa cultura, essa cultura velada nas periferias e o Movimento Mães de Maio segue sangrando. É uma rosa que sangra. O símbolo das Mães de Maio é uma rosa que sangra, que sangra, que sangra, que sangra porque cada um que cai é como se caísse nossos filhos outras vezes. E a gente tem no Brasil, especialmente em São Paulo, um judiciário que é a ‘bancada da caneta assassina’, porque eles matam nossos filhos dez vezes com pedidos de arquivamento”, explica Débora Silva.

A luta é dura, é globalizada, é latino-americana. Mas os movimentos não se intimidam. Enfrentam os governos porque já não tem mais nada a perder. Unem-se para lutar e se fortalecer. Ainda assim, não é fácil. “Quando a gente coloca uma audiência pública no cemitério que mais enterra jovens na América Latina, o Cemitério São Luiz, no Capão Redondo, a gente não vê mães. A gente vê o cenário político fascista e repudiamos. Quem tinha que estar lá falando pelos seus mortos eram as mães. Essas mães que não têm colo. As mães brasileiras não têm colo. As Mães de Maio tem que se virar pra estar de estado em estado ensinando o que é a luta. E quando os estudantes foram para as ruas pedir democracia verdadeira, isso aconteceu. Onde está o movimento estudantil do nosso Brasil? Onde estão as lutas, divididas em editais?”, questiona Débora.

“Quando acabarmos com isso vamos conseguir a união. Não a união do quadrado, mas a união das ruas dizendo BASTA de extermínio da juventude negra, pobre e periférica. É desse edital que eu tô falando, que só presta um desserviço à população e presta um bom serviço para a Casa Grande. Continuamos escravos de notas fiscais o ano inteiro. Mas as Mães de Maio sabem muito bem ensinar esse caminho. Porque as Mães de Maio não se contaminam. E jamais se contaminarão, porque a rosa que sangra vem dos becos, das vielas, da senzala que é a nossa periferia. Ela sangra, sangra, sangra dentro do peito de cada uma dessas mães que estão sentadas aqui. E não é diferente lá no México. A gente fala, a gente clama, porque muitas vezes nós vamos pra rua sozinhas. E cadê os filhos? É muito legal a gente ter uma farta quantidade de filhos desse exército nas redes sociais. Mas nós temos de exigir desses filhos que saiam do Facebook e tenham coragem de enfrentar esse estado terrorista brasileiro!”, conclui Débora sob aplausos antes de se levantar para abraçar os companheiros de dor vindos da América do Norte.


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