Foto: Márcia Zoet

♥ O coração é vermelho ♥

por Tatiana Pansanato, para os Jornalistas Livres

Dia 12 de abril, no coração da Avenida Paulista, decidimos realizar uma intervenção artística em pleno território inimigo. Caracterizadas como manifestantes e paramentadas com a camisa da CBF, nosso objetivo era entregar corações vermelhos para os participantes daquilo que parecia uma micareta, Nosso propósito? Saber se a turma verde-amarela ficaria chocada com a cor do coração.

Foto: Márcia Zoet

Nossa ação basicamente era abordar os passantes enquanto se manifestavam e pedir licença para colar corações vermelhos do lado esquerdo do peito. Vermelho?

Começamos pelo bloco da Intervenção Militar. Ali estava concentrada a terceira idade, saudosa dos anos em que os governos dos milicos fizeram calar milhares — e pararam, de verdade, alguns corações na tortura. Conseguimos colar corações nas senhoras, que ficaram orgulhosas da nossa atitude e diziam que somente os jovens poderiam mudar esse país. Onde estavam os jovens? Aqueles que na ditadura foram perseguidos, torturados e mortos? Aí foi a primeira grande contradição que ouvimos, e foi assim que nos demos conta do que nos esperava.

Foto: Márcia Zoet

Seguimos com nossa intervenção pela Paulista, rumo à Consolação, provocando com nossos corações e começou a negação à cor vermelha. Quando abordávamos as pessoas, dizíamos que era uma intervenção por uma manifestação sem hostilidade e, por isso, estávamos nessa função de entregar tais adesivos de coração. A pergunta que não conseguia ficar presa na garganta da grande maioria era: “E por que vermelho?” É realmente interessante essa aversão que as pessoas da micareta verde-amarela têm pela cor do sangue, pela cor que representa o amor, a paixão. Nossa resposta era simples: “Mas o coração é vermelho, não é?” Como respostas ouvimos de tudo: “meu coração é verde-amarelo”, “até aceito esse coração vermelho, mas meu coração fica na direita”; uns diziam que isso era coisa do PT e por aí seguia a imaginação.

Foto: Márcia Zoet

Uma parte que recebia nossos corações de peito aberto, geralmente famílias com seus filhos, tomando sorvete e comendo pipoca, como se estivessem na saída da matinê do carnaval do interior. Entregamos muito para “os marias vai com as outras” que viam que estávamos distribuindo corações e se aglomeravam para conseguir um, mas quando viam que era vermelho entravam em conflito, mas acabavam aceitando, claro, uma vez que esses “maria vai com as outras” são sem opinião. Nesse momento chegamos ao maior bloco de todos os carnavais, digo, de todas as manifestações, o bloco Vem pra Rua. Estava cheio de patricinha e mauricinho (como diz meu pai) e para esses que vinham com o abadá completo foi impossível a missão de entregar corações. Paramos próximo ao trio elétrico e ouvimos por uns instantes o que determinado representante da OAB pronunciava e tivemos que sair às pressas porque esquecemos que estávamos na terra do inimigo e começamos a gritar palavras contrárias as que todos estavam repetindo. Gostaria de ressaltar que nesse momento a companheira Maira teve seu celular roubado e a fotógrafa Márcia que acompanhava nossa intervenção ficou sem sua lente, detalhe importante é que as duas estavam com seus objetos dentro da bolsa.

Foto: Márcia Zoet

A partir desse momento ficamos indignadas e, mesmo assim, seguimos por uma Paulista já dispersa. Diante dos carros de som, já não se aglomerava quase ninguém e os que o faziam já não se expressavam. Era tamanha a desorganização, tanta gente falando, que imagino que as pessoas perderam suas referências, já não sabiam se estavam ali pelo fora Dilma e/ou se estavam para festejar o dia nacional da coxinha. Terminamos com os corações entregues e os nossos próprios corações partidos, por ver parte dos cidadãos e cidadãs gerando ódio e tornando-se cada vez mais fascistas sem saber e manipulados sem querer.


Assista o vídeo realizado pelos Jornalistas livres

Atrizes— Maira Natassia,e Tati Pansanato. Câmera — Marcia Zoet Edição— Rodrigo Machado

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