O tempo da travessia

Por Oscar Neto, especial para os Jornalistas Livres


Evento dedicado e produzido por refugiados em São Paulo abre novo momento para a convivência entre brasileiros e estrangeiros

Dominicanos, colombianos, haitianos, angolanos, congoleses e, claro, brasileiros, foram alguns dos que compareceram à festa Das bandas do Oficina, na noite deste sábado (4), que cumpriu o seu objetivo fundamental: misturar gente diferente. E foi de um jeito natural, como se ninguém soubesse que o encontro era dedicado e, em partes, produzido por estrangeiros (clique aqui e conheça o projeto).

Sobre os andaimes fixos do Teatro Oficina — que formam a plateia –, roupas, bolsas, tecidos e acessórios africanos eram procurados e vendidos. No fundo do galpão, caldo verde e fufu (um tipo de polenta de fubá de milho acompanhada de couve) ajudavam a esquentar uma das noites mais frias do ano. Pra adoçar, doce de banana-da-terra com amendoim. Tudo típico.

Foto: Marcia Zoet

Pra todos os lados, mulheres e homens, crianças e adultos, gays e heterossexuais, negros e brancos se encontravam e interagiam ao som de música eletrônica ritmada com batuques e batidas incomuns no Brasil.

O clima era bom e tranquilo, mas não despretensioso. As provocações teatrais dos atores do grupo artístico Performatron traziam os sentimentos daqueles que se expõem ao desconhecido de uma mudança de país. Uma transição de realidades encenada e, também, manifestada em palavras:

“Atingido pelas guerras, pelo sangue que corre,

Vou de preto pelas ruas cinzentas.

Perseguido e cercado,

Deixo marcas no rosto, nas costas, no peito,

e nos gritos, que se espalham pelos céus e tocam o tempo.

Estampado na cara,

Preso a roupa que visto,

um pedaço que sobra,

Desintegrado.

É o tempo da travessia.”

Foto: Helio Carlos Mello

Os atores andavam, literalmente, sobre pedras, na ponta dos pés, carregando grandes malas nos braços. Mostravam o sacrifício de pisar numa terra nova, estranha e tortuosa.

O drama deu espaço a dois shows musicais: o primeiro da banda Satelite Musique, formada por quase dez haitianos, e o segundo dos angolanos e congoleses da Afreeka. Ambos fizeram todos os convidados dançarem, pularem e cantarem. Boa parte das pessoas não fazia ideia da letra, mas era como se todos entoassem a mesma língua, na mesma sintonia. Era como se não houvesse diferenças. Tudo era harmonia.

Foto: Marcia Zoet

Entre as apresentações, as centenas de convidados assistiram e ovacionaram o minidocumentário dos Jornalistas Livres, que integra uma reportagem especial sobre aqueles que procuram no Brasil uma chance de viver sem a sombra de uma guerra, do terrorismo ou da destruição causada por um terremoto.

O fim da festa foi de redenção, de sorrisos sinceros e da alegria natural que os humanos de um país sentem quando conhecem e se divertem com humanos de outros mundos e culturas. Uma mistura de humildade e respeito de todas as partes, duas simples qualidades que são capazes de gerar afeto em qualquer um, seja qual for a situação.

Fotos: Helio Carlos Mello
Foto: Paulo Ermantino

Que assim sejam os próximos capítulos das nossas relações. Que as novidades e distinções não sejam obstáculos para aceitarmos uns aos outros. Que as fronteiras mencionadas no manifesto encenado nesta noite pelo grupo teatral não mais fechem, esmaguem, afoguem e matem a esperança daquele que foge. Que a palavra refugiado seja uma como qualquer outra, pois, filosoficamente falando, a indiferença — que não é o mesmo que desdém e nem representa ignorar a realidade de outrem — é a melhor forma de respeitar as diferenças e conviver em harmonia diariamente. Da mesma forma como este texto, que mesmo se referindo a esta condição social desde o começo, só a mencionou no último parágrafo.

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