Foto: Brunno Covello

“Precisamos de mais mulheres trans em cima dos palcos e menos nos caixões”

Por Camila Machado e Eriksson Denk, especial para o Jornalistas Livres, com fotos de Amanda Souza, Brunno Covello e Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo

O Largo da Ordem, em Curitiba, parecia dividido em dois. O primeiro lado ecoava risadas em tom de deboche, assobios maldosos, cantadas baratas e olhares curiosos. O segundo, bem mais interessante, estava preenchido com gargalhadas, batuques de salto alto, purpurina, cílios postiços e orgulho. Ali, a tristeza não teve vez.

Foto: Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo

“Nasci menino, mas sempre me senti mulher”, foi o que ouvimos logo na entrada do camarim. Um dia para entrar para a história da “cidade mais transfóbica do país”. Dia de Miss Curitiba Trans.

O evento foi todo delas. Comunidades trans de Curitiba, Ponta Grossa, do litoral paranaense, Santa Catarina e Rio Grande do Sul marcaram presença. Noite de gala, trajes de corte fino e “I’m Alive”, de Céline Dion, rufando nas caixas de som. Passarela, tapete vermelho e os holofotes das câmeras fotográficas. Discursos de aceitação, gritos pelo fim da exclusão e uma oportunidade rara para as candidatas exporem suas ideias, para construírem um legado que envolva mais protagonismo das pessoas trans.

Fotos: Brunno Covello e Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo

“A minha maior dificuldade é entender a origem do preconceito. A bancada evangélica, por exemplo, tem me exigido horas de paciência. Eu não consigo compreender como alguém usa da sua crença pessoal para decidir a vida de milhares de pessoas. Religião é uma coisa, trabalho é outra. O Estado é laico”, explicou Ana Paula Barreto, presidente da ONG de Transexuais e Travestis de Balneário Camboriú e Região, que veio à Curitiba para prestigiar evento. Ela continuou: “Estou falando de amor, de luta por reconhecimento. Ser transex é o meu caso e de várias outras que têm a identidade gênero-feminina 24 horas por dia. Eu me deito e me levanto mulher. Buscamos uma transformação, mudamos o nosso corpo com cirurgias plásticas, hormônios femininos. Operamos, mudamos de sexo. Somos mulheres de verdade”.

Fotos: Brunno Covello

A dona da faixa

Foto: Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo

Patrícia Veiga, ou Paty Veiga, foi eleita a Miss Curitiba Trans 2015 e é dona da faixa da sexta edição do evento. Ela foi coroada hoje de madrugada no Espaço Cult, no coração do Largo da Ordem, em uma festa de arromba que reuniu apoiadores, familiares, amigos e a sociedade civil. Recebeu o título das mãos de Sabrina Mab Taborda, Miss Curitiba Trans 2010, data da última edição desse grito. Emocionada, Sabrina, que costurou seu próprio vestido para a festa, parabenizou a nova estrela do universo trans.

Nallanda Bioche ficou com a faixa de 1ª Princesa e Alícia Krüguer com a de 2ª Princesa. Natalia Wolkan ganhou o prêmio de Melhor Traje de Gala da noite e Lana de Cássia foi eleita a Miss Simpatia Trans 2015.

Natalia Wolkan e Lana de Cássia. Fotos: Brunno Covello e Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo

Dezesseis candidatas postularam o título. Mulheres que divaram (e muito) em três desfiles: o de apresentação, com trajes de banho e por último o dos vestidos de gala. Elas também responderam a perguntas do corpo de jurados, composto por artistas, intelectuais e militantes dos Direitos Humanos. Deena Love, cantora que participou do programa “The Voice Brasil 2014”, da Rede Globo, participou do júri, apresentou-se no palco e deixou uma mensagem motivacional para as candidatas. Igo Martini, coordenador da Assessoria de Direitos Humanos da Prefeitura de Curitiba, e Fabiana Mesquita, consultora da UNAIDS, programa conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS, também votaram.

Fabi Mesquita é jornalista e trabalha no projeto de Jovens Lideranças das Populações-Chave Visando o Controle Social do Sistema Único de Saúde. Ela se disse honrada pelo convite e presidiu o júri. “Tudo o que essas mulheres precisam é desse sentimento de divas, maravilhosas, fortalecidas. Elas sofrem discriminações diárias de todos os tipos e aqui (no Miss) elas são quem realmente são, mulheres fortes, mulheres sonhadoras.”

Foto: Brunno Covello

“E se você pudesse mudar alguma coisa do passado, o que faria?”, perguntou um jurado a Maria Fernanda Ramos, uma das concorrentes. “Não mudaria nada. Acho que não precisamos mudar nada. Eu gostaria de mudar os outros, mudar a vontade das pessoas em ir atrás da compreensão de que somos mulheres”. Alícia Krüguer, 1ª Princesa, ao falar sobre sua influência como liderança e os frutos da visibilidade, disse que o Miss Curitiba Trans é um concurso que não olha apenas para a beleza das candidatas. “O que precisamos é deixar um legado, lutar por essa população que é estigmatizada. Curitiba é a cidade que mais procura diversão sexual com transexuais e também a que mais mata, a capital que mais mata transexuais no país. Temos que usar essa visibilidade para diminuir o preconceito e a criminalidade. Precisamos de mais mulheres trans em cima dos palcos e menos nos caixões”.

“Curitiba é uma cidade violenta, conservadora e hipócrita. Isso porque é a capital do Sul do Brasil que mais mata transexuais, e também é a que melhor paga pelo programa com pessoas trans, o que significa que temos mercado aqui”, disse Rafaelle Wiest em uma reunião na Comissão de Direitos Humanos, Defesa da Cidadania e Segurança Pública na Câmara Municipal de Curitiba, em maio desse ano.

Fotos: Brunno Covello
Fotos: Amanda Souza
Foto: Brunno Covello
Fotos: Amanda Souza

Antes de dar início à cerimônia, Carla Amaral, organizadora do Miss Trans e diretora do Transgrupo Marcela Prado, lembrou a morte trágica de uma colega vitimada pela pressão do isolamento social. Fabi Mesquita, pouco antes da cerimônia, sofreu preconceito ao tentar pegar um táxi com as meninas em Curitiba. “Todos os dez taxistas que estavam estacionados em um ponto se recusaram a nos levar até o evento”. Nas cercanias do Largo da Ordem, pouco antes de começar a cerimônia, um homem assediava mulheres que passavam por ele com beijos. Mesmo as acompanhadas.

Exemplos recorrentes em qualquer lugar, realidade extremamente difícil, mas da porta para fora. Por quase cinco horas de evento, todas as candidatas e a comunidade se sentiram representadas, ouvidas, protagonistas. Famílias, coros e torcida. Dividiram histórias emocionantes, como a da candidata trans que teve todo o amor do mundo de um homem trans, sua mãe. Ou da candidata que teve que sair de casa aos 14 anos por que os pais não aceitaram sua escolha. Dificuldades que o concurso abraçou e eliminou. Histórias que as meninas compartilharam durante os meses que antecederam o Miss Curitiba Trans 2015 e durante toda essa noite de glória.

Patrícia Veiga. Foto: Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo

Ontem elas foram tudo. Revolucionárias.

“Você não precisa passar por cima dos outros, tudo tem que ser de coração”, falou Patrícia Veiga, a Miss Curitiba Trans 2015. Ela é a voz desse grupo pelo próximo ano.

Foto: Brunno Covello
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