Superpop é anti-T

Luciana Gimenez edita fala de militante e ativista dos direitos das pessoas travestis e transexuais para atingir seu propósito de ridicularizar tod@s aquel@s que não se enquadram nos modelos de comportamento socialmente aceitos

Por Leo Moreira Sá, especial para os Jornalistas Livres


Fui convidado para participar do programa SuperPop, da apresentadora Luciana Gimenez, que foi ao ar nesta quarta feira, 1º de julho. Por estar ocupado num projeto, acabei não assistindo e um amigo me enviou um link da minha participação.

Fiquei atônito com o que vi, sem reação… Eu sabia que, por ser um programa sensacionalista, essa seria a tônica. Mas o que vi estava bem além da minha imaginação. O material não era só panfletário, mas ofensivo, degradante, preconceituoso e transfóbico.

De tudo o que foi dito e esclarecido sobre a questão da transexualidade, tema que busco sempre levar ao grande público como ativista em defesa dos direitos das pessoas Ts, o que foi usado foi um recorte, em que citei meu casamento com a travesti Gabriela para tentar explicar que gênero não tem nada a ver com orientação sexual.

Mas, como eu declarei que havia sido passivo com a Gabriela, parece que essa informação me desautorizou aos olhos dela como “homem” e em toda a matéria fui chamado pelo feminino: “Ela é mulher” dizia o narrador ao aparecer uma foto minha atual, com evidente aparência completamente masculina.

Além de tudo, foram usadas imagens de outras entrevistas, fotos do meu passado e imagens aleatórias para traçar uma trajetória deformada, desrespeitosa e antiética. No debate, ficou nítida a intenção de armar um circo.

Minhas falas foram todas recortadas e, numa nova gravação, Luciana introduziu um outro texto que tentava desqualificar e ridicularizar todo o meu discurso.

A fórmula do programa SuperPop é há muitos anos levar para um público insone casos inusitados e personagens que não fazem parte do seu mundo ou do seu cotidiano: Travestis, transexuais, prostitutas, garotas e garotos de programa, e tod@s aquel@s que não se enquadram nos modelos de comportamento socialmente aceitos.

São usados para compor o elenco, explorados e depois descartados.

Nesse filão, Luciana consolidou sua carreira, assessorada por uma equipe treinada para encontrar pessoas com histórias que possam ser usadas de forma sensacionalista. Uma vez gravado o programa, o material vai pra edição e sai de lá fragmentado e com uma narrativa reconstruída de forma degradante, desrespeitosa e preconceituosa.

Luciana Gimenez se acha “super-refinada”. Vem de uma família de famosos (filha de Vera Gimenez e enteada de Jece Valadão). Teve um relacionamento com o famoso Mick Jagger. Teve um filho dele e recebe 20 mil dólares mensais de pensão. Um biógrafo do cantor conta numa passagem do livro “Mick: a vida louca e o gênio selvagem de Jagger”, que a primeira transa da Luciana com o cantor dos Rolling Stones foi no canil da casa onde rolava a festa em que se conheceram: “Eu não fiquei grávida de Mick em uma casa de cachorro… Você consegue imaginar ele, dento de um canil, eu em cima dele e o pessoal da festa assistindo tudo? Sou super-refinada e nunca faria isso”, disse Luciana Gimenez.

Pois a “super-refinada” Luciana Gimenez já protagonizou situações entre trágicas e simplesmente deselegantes com a comunidade T, como quando teve um bate-boca ao vivo com a transexual Rebekah Shelton, que fez várias críticas à apresentadora. Luciana havia prometido dar a Rebekah um emprego de repórter na RedeTV! e não cumpriu a promessa. Questionada por Rebekah ao vivo, Luciana respondeu: “Apesar de eu ter dito ‘não’ a um trabalho, não chamei você aqui por chacota. Quero que você entenda que, apesar de ser casada com o Marcelo de Carvalho (vice-presidente da RedeTV!), não sou dona dessa emissora. Mas, se você quiser trabalhar na minha casa…”.

Em 2005, a travesti Camila de Castro de 23 anos, morreu após cair do prédio em que morava na praça Roosevelt no centro de São Paulo. Ela participava de um quadro do SuperPop chamado “Camila quer casar”. Amigos diziam que ela estava deprimida porque não conseguiu nenhum namorado no programa.


Convido a tod@s a assitirem ao meu espetáculo autobiográfico Lou&Leo sem edição escrota, com direção do Nelson Baskerville, amanhã, 04, 21hs, no Teatro João Caetano — rua Borges Lagoa 650 Vila Clementino — SP

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