Vista assim do alto, mais parece o céu no chão

Multidão de 25 mil pessoas recorda massacre no Paraná

Por Gibran Mendes com fotos de Leandro Taques, especial para os Jornalistas Livres

Vista assim do alto, mais parece o céu no chão. O verso emblemático refere-se, originalmente, à escola de samba da Mangueira. Mas poderia muito bem ser aplicado para a multidão de 25 mil pessoas que marchava pelas ruas de Curitiba nesta sexta-feira (29). Do alto do caminhão de som, mesmo políticos e lideranças dos movimentos sociais mais experientes, olhavam com admiração para a massa que participava de um ato em memória ao dia 29 de abril de 2015. Nesta data centenas de pessoas ficaram feridas, a maior parte servidores públicos do Paraná que protestavam contra um projeto de lei que era votado na Assembleia Legislativa cujo objetivo era o confisco de suas aposentadorias.

O cenário era composto por uma grande névoa branca que espalhou-se pela região. O tom branco e esfumaçado do centro Cívico naquela tarde tinha origem nas bombas de gás lacrimogênio. Elas caiam do céu, vindas de um helicóptero do Governo do Estado ou eram atiradas por armas do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Paraná. O ataque ainda era composto por outros instrumentos de repressão popular, como balas de borracha, cacetetes e cães ferozes que atacaram até mesmo um cinegrafista.

Este conjunto de instrumentos de repressão montaram a paisagem de um dos maiores massacres urbanos da história recente do Paraná. Enquanto isso, do outro lado da praça e separados pelas forças de repressão, deputados votavam tranquilamente o projeto que retirava dos servidores públicos a sua poupança previdenciária acumulada ao longo de anos.

“Muitos (parlamentares) sabiam o que estava acontecendo e preferiram continuar sentados, tomando água, café e votando como se estivéssemos em um hotel de luxo. Como se nada estivesse acontecendo lá fora”, relata do deputado estadual Tadeu Veneri (PT). Para ele, a imagem que retrata sua experiência naquele dia é a omissão de parte dos 54 deputados que compõem o legislativo paranaense.

Mas, distante deste cenário de um ano atrás, o dia 29 de abril de 2016 foi de emoção e renovação da esperança em dias melhores. Até por isso mesmo as lideranças do alto do caminhão de som pareciam anestesiadas. Ao invés de olharem para baixo, como quem está em uma posição fisicamente superior, eram eles que pareciam olhar para o céu para vislumbrar a multidão que estava no chão.

E foi dali mesmo que ouviram, do deputado estadual Professor Lemos (PT), uma liderança da categoria, um relato de como anos de acúmulos de suas aposentadorias parecem escapar por entre os dedos. “Somente no ano passado o Governo retirou R$ 1.7 bilhão da previdência dos servidores. Era R$ 8.2 bilhões e agora está perto de R$ 6 bilhões. Quando terminar o mandato estará em menos de R$ 4 bilhões e esta poupança vai acabando, mas e a hora que acabar? O Paraná vai se tornar ingovernável como acontece no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro onde nem o servidores da ativa e nem os aposentados conseguem receber salário em dia”, projetou.

Mas se a resistência daqueles dias de janeiro, fevereiro, março e abril de 2015 não puderam evitar o confisco de suas aposentadorias, preservaram outros direitos conquistados que também estavam ameaçados, mas acima de tudo, conservaram a dignidade de cada um. O mesmo não pode ser dito do governador Beto Richa (PSDB), do seu então secretário de segurança, Fernando Franscischini (SD) e da bancada do camburão, como ficou conhecido o grupo de deputados que precisou entrar na Assembleia Legislativa dentro de um carro do batalhão de choque, dias antes, para uma tentativa frustrada de votar no restaurante do legislativo paranaense os projetos de interesse do poder executivo. O local estava tomado por manifestantes, inclusive o próprio plenário da casa.

O presidente da APP-Sindicato, entidade que defende os interesses dos profissionais em educação das escolas públicas do Paraná, Hermes Leão, disse que a entidade tem acompanhado de perto o andamento das investigações que até o momento não apontaram culpados. Na quinta-feira (28) ele e outros dirigentes participaram de uma reunião no Ministério Publico do Paraná para monitorar o andamento das investigações do “uso de violência que só se vê em ditaduras mundo a fora e não em um estado democrático de direito”, segundo suas próprias palavras. “Não dá para suportar a impunidade que tem sido comum no Brasil nestes tipos de crime que envolvem o poder político”, completou.

Todas estas lembranças eram frequentemente ouvidas nas ruas. Na medida em que a marcha aproximava-se do local do massacre, era comum ouvir pessoas contando onde estava, o que fizeram, como tentaram se proteger e o que lhes aconteceu naquele dia. As lamentações davam lugar para uma sensação de empoderamento, disposição e decência.

O Prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel

Sensação que só aumentou com o passar do tempo e que, talvez, tenha atingido seu auge às 14h40, horário exato em que show de horrores teve início no ano passado. Foi neste horário que o convidado mais ilustre apareceu. O Prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, surgiu para deixar a sua solidariedade às vítimas do dia 29 de abril de 2015. Ele reforçou a importância da resistência no atual cenário politico da América Latina. “Quero dar a todos vocês um abraço solidário, desejar-lhes muita força e muita esperança. Não baixem o braço nunca. Vocês sabem que a democracia não se ganha, se constrói. Não basta colocar o voto em uma urna para dizermos que vivemos em uma democracia, isso não é certo. Democracia para nós são direitos e igualdade para todos e todas”, falou o Nobel para na sequência ser ovacionado pela multidão.

Quem arriscava desgrudar os olhos daquele simpático senhor de 84 anos e olhava para os lados observava pessoas emocionadas. Não era possível saber se sua simples presença causava a comoção, se eram as lembranças do passado ou a projeção do futuro. Quem sabe a soma destes fatores. Mas fato é que todos carregarão aqueles palavras para suas vidas, provavelmente acima dos traumas do massacre. Afinal, ouvir alguém consagrado e que com mais de 80 anos mostrava com vigor e serenidade que a verdadeira resistência e solidariedade é para poucos.

Se há um ano todos viram de perto o inferno, hoje pareciam estar no céu. Mesmo que fosse ali, no chão do Centro Cívico, na Praça Nossa Senhora de Salete, rebatizada pela população de Praça 29 de abril.