A Conspiração Barretto

Bolívar Escobar
Aug 18, 2017 · 5 min read

Inevitável ecletismo: graças à internet, eu diria que essas duas palavras definem a experiência que temos hoje quando o assunto é música. Usando a mim mesmo como exemplo, eu me rendi e parei de tentar definir meu gosto musical usando as palavras-chave do last.fm, como “alternativo” ou “rockeiro” ou “hipster anos 00”. Agora eu me sinto mais como uma espécie de clusterfuck de influências oriundas tanto dos remixes de funk que pipocam pelo youtube a cada trinta minutos quanto do volume alto dos carros forrados de caixas de som que param no semáforo próximo à minha casa [1].

Por isso, em pleno 2017 é complicado descrever nosso gosto musical como restrito a um ou dois estilos apenas. Eu não me considero um metaleiro, devoto do “Deus Metal” nem nada, mas gosto muito do Mastodon. Não diria que o pagode está entre minhas preferências, mas com certeza eu saberia cantar no karaokê duas ou três músicas do Raça Negra [2]. Nunca fui de escutar sertanejo, mas achei sensacional algumas revelações contemporâneas dos frutos do agronegócio nacional, como o Wesley Safadão ou a Naiara Azevedo e seus 50 reais.

Ou como a dupla Bruno & Barretto.

Tudo começou na inocência de clicar em um desses artigos do Buzzfeed que entrelaçam parágrafos sinceros de análise de fenômenos midiáticos com gifs de reações a eles. Esse, em específico, trata-se de um chamado de alerta do Rafael Capanema para o fato do Bruno & Barretto terem feito uma apresentação vergonhosa no Encontro com Fátima Bernardes [3].

A música cantada pela dupla é sofrível principalmente pela anasalada e pouco compreensível voz do Barretto, detalhe que imediatamente despertou meu interesse na banda. Eu sou um grande fã do filme This is Spinal Täp, um mockumentary dedicado a satirizar as bandas de heavy metal que se levam muito a sério e acabam se tornando paródias de si mesmas. Esse é um fato contra o qual é difícil de argumentar se você se depara com, por exemplo, alguma foto do Manowar:

Polainas: uma tendência entre os povos saxões do século VI.

Você deve ter percebido onde eu quero chegar: a apresentação da dupla sertaneja no Encontro pareceu um trecho de um Spinal Täp nacional que estava sendo tramado pela Globo. OK, talvez isso tenha sido um exagero, mas eu não pude deixar de imaginar que o Bruno e Barretto poderiam muito bem ser uma dupla de comediantes infiltrados no mundo da música sertaneja fazendo shows irônicos e tirando sarro dos fãs que levam a sério a iconografia da coisa toda. A banda Ghost [4] faz isso muito bem no mundo do metal e do satanismo, nada impede que já exista algo assim no mundo sertanejo.

Aliás, talvez seja justamente algo assim que esteja faltando no sertanejo. Em um ímpeto investigativo, mergulhei no mundo da dupla Bruno e Barretto para descobrir qual seria o verdadeiro mote de sua expressividade artística. Minha decepção não poderia ser maior: a origem da dupla parece repousar na honesta dedicação de Barretto ao sertanejo, conforme demonstrado por alguns vídeos antigos ainda avaliáveis no Youtube.

Churrasco com a galera, camiseta pendurada no ombro e garfo de dois dentes na mão (possível indicativo de que Barretto estava comandando a grelha), o litrão de guaraná aberto e a presença polêmica do violão: a síntese da sinceridade artística de quem escolheu se envolver com o mundo do Sertanejo Universitário.

Existe até um documentário da Record que revela que Barretto, antes de cantor, era classificador de grãos e cereais [5]. Meu palpite sobre a dupla não poderia estar mais equivocado: trata-se, de fato, de mais um sucesso sertanejo que abraça com orgulho a vida rural, a farra de quermesse, a estética bovina, a dor de corno e todos os outros elementos que categorizam o lirismo desse estilo musical brasileiro.

A Record não se preocupou muito em conferir quantos “T” o nome artístico de André Luiz Evaristo Tavares tem, mas eu me preocupei. Porque eu RESPEITO o sertanejo.

Encerro aqui, portanto, o meu causo. Precipitei-me em considerar que a figura do “elemento infiltrado” estaria encarnado na dupla Bruno & Barretto no cenário do sertanejo universitário. Não tenho culpa: em 2017 temos Alexandre Frota infiltrado como influenciador político, youtubers infiltrados nos destaques das livrarias e o próprio capeta infiltrado na presidência do país. Não é possível que eu seja o único cultivando essas paranóias.

Notas

  1. Eu juro que, certa vez, passei por um carro que estava estourando no volumão alto as Bachianas, do Villa-Lobos, parado em um semáforo nas proximidades do Centro de Curitiba. Provavelmente devia ser algum fã da rádio e-Paraná, conhecida por incluir clássicos e artistas alternativos na programação. Minha emoção só não foi maior do que quando o carro forrado de som ocasional está tocando alguma do Dire Straits.
  2. Isso é apenas um dos sintomas identificáveis na geração anos 90, juntamente a relatos de projetos arquitetônicos no The Sims e um curioso momento aleatório da vida dedicado a leituras sobre ocultismo.
  3. O principal ponto positivo do Encontro com Fátima Bernardes é o quão intuitivo o nome desse programa consegue ser. Muito mais que o “Programa do Ratinho” (o que é um programa? Por que o apelido dele é Ratinho?) ou o “Domingo Legal” (não há a menor possibilidade de um domingo na frente da televisão ser legal), o Encontro com Fátima Bernardes é justamente isso: algumas pessoas vão até o PROJAC e se encontram com a Fátima Bernardes. Vem a calhar que tem uma câmera ligada registrando o momento.
  4. Eu amo Ghost. Eu fiquei maravilhado quando eles vieram para o Rock in Rio 2015 e foram vaiados no show por pessoas que queriam “metal de verdade” tocando no palco. A imprensa chegou a noticiar que o visual deles era uma “provocação à igreja” — tenho lá minhas dúvidas se esse é o real intuito da banda, mas nunca se sabe, já que pelo visto agora até falar que a Terra não é plana parece ser uma provocação.
  5. Essa é especial pros veganos: talvez essa torta salgada multigrãos que você fez para impressionar o pessoal do grupo de receitas no facebook só tenha acontecido graças ao Barretto.

JornalRelevo

lado B do jornal literário mais lido em algum recorte demográfico tendencioso

Bolívar Escobar

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Só vim dar uma olhada, já vou embora (textos sobre séries e filmes contém spoilers).

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