Mateus Ribeirete
Jun 7, 2018 · 4 min read

[Este texto seria improvisadamente publicado no Jornal RelevO — junho/18, o que não foi necessário.]

1.

Esta é a nossa seção de ombudsman. No mês passado, Ricardo Lísias cedeu sua última contribuição. A partir do próximo mês, Gisele Barão assumirá a pancada. Enquanto isso não acontece, sugeri aproveitar o palco montado para descrever algumas das mudanças recentes do Jornal RelevO, ano VIII. Você também me encontrará na página 20, o que é egocêntrico de minha parte (e nas centrais, mas isso é segredo).

Estamos passando por uma reestruturação. Como nunca tivemos estrutura, o termo mais preciso seria estruturação. Nos referimos a esse processo como desvarzeamento. Pouco a pouco, o RelevO vai perdendo seus elementos de várzea. Isso não quer dizer que passamos a nos levar muito a sério — (1) este veículo não tem chance alguma de tentar melhorar o mundo; (2) o sucesso não é feito de papel-jornal.

Entendemos um elemento de várzea como tudo aquilo que poderia ter sido resolvido, melhorado ou adaptado com um pouco de organização, incluindo aí comunicação. Na edição passada, por exemplo, erramos o nome de uma autora. Na edição anterior, a mesma coisa. Não é engraçado, espontâneo ou despretensioso — é apenas várzea.

Nos últimos meses, no entanto, progredimos em vários aspectos. Vocês provavelmente não sabem como é manter um jornal[¹] literário[²] impresso[³] gratuito[⁴], o quadrado mágico da falência. Com isso, não estou inserindo carga no “não sabem”, em tom choroso, como em “vocês precisam nos ajudar”. Sustentamos o quadrado mágico da falência justamente porque queremos, oras, e felizmente ninguém, muito menos o Estado, tem obrigação de nos ajudar.

Sob o risco de o tema ser remotamente interessante aos leitores, e quem sabe até útil a demais participantes dessa picadilha, relato parte do progresso.

2.

Em fevereiro, passamos a centralizar nosso planejamento segundo o método Kanban, com cartões de sinalização para cada tarefa. Essa mera reorganização, dispondo de uma visão geral do que foi feito e do que deve ser feito, acarretou uma enorme mudança para o RelevO, cujas decisões, ideias e conversas ficavam espalhadas e, portanto, muito mais propensas a serem perdidas ou simplesmente esquecidas.

Por sua vez, isso naturalmente levou à manutenção de um cronograma. Agora temos um modelo de divisão de tarefas e de entrega de prazos para cada coluna, seção ou avaliação de inéditos. Assim, estamos fechando o jornal por volta do dia 25 de cada mês e enviando os malotes com antecedência aos assinantes e aos pontos de distribuição do Brasil. Por que não tínhamos um cronograma fixo até agora? Várzea. E dinheiro.

Porque começamos a remunerar, mesmo que modestamente, o editor-assistente (eu), a projetista gráfica, o revisor (dinheiro jogado fora) e o designer do RelevO. Esse é o começo de um processo que, além de assegurar compromissos mais sólidos — cobrar prazos sem pagar é uma atitude um tanto cretina –, ruma em direção ao pagamento a colaboradores. Aliás, o publisher cabeludo sonha em se remunerar.

Na esfera digital, removemos nosso maior calo: criamos um site [jornalrelevo.com], o que significa finalmente disponibilizar um ponto de partida ao leitor e, principalmente, ao leitor em potencial. Embalados, reativamos a Enclave [jornalrelevo.com/enclave], nossa newsletter de periodicidade flutuante. Com todo o processo de organização interna, convencionamos soltá-la uma vez por mês. Acrescentamos o PayPal como método de pagamento, o que permitiu receber assinaturas por meio de cartão de crédito.

Também repensamos a distribuição local. Até poucos meses atrás, o editor perdia de três a cinco madrugadas por mês com a distribuição solitária a pontos mais próximos, em Curitiba e em Araucária. É o tipo de atestado de demência que move apenas alguém obstinado pelo que faz, ou pela mais pura idiotia. O custo da contratação de motoboys é baixo perto das horas de sono dormidas ou reservadas a atividades mais úteis, como acompanhar o Operário de Ponta Grossa na terceira divisão do Brasileiro. Da mesma forma, na tentativa de desafogar o editor, assumi o primeiro filtro de material enviado ao jornal.

Quanto à expansão, ampliamos os estados em que o RelevO chega via distribuição gratuita. Hoje, ainda não chegamos em Roraima, no Acre, em Rondônia, no Amapá, em Tocantins e no Rio Grande do Norte. Queremos chegar em todos os estados até dezembro. Mandamos o jornal gratuitamente para mais de 100 bibliotecas do Brasil, principalmente do Paraná. Queremos melhorar isso. Dispomos de 800 assinantes espalhados por todos os estados. Sabemos que vamos chegar em mil. São eles que custeiam todo o nosso movimento de levar os jornais para mais lugares. (Como bem observou a Marceli, há um ano eram 350: um crescimento digno de esquema de pirâmide!)

3.

Ninguém precisa assinar o RelevO para lê-lo — o produto é gratuito; o conteúdo está a poucos cliques daqui; o pagamento de outros assinantes te ajuda a encontrá-lo gratuitamente. Por que, então, alguém assina este periódico?

Há mais de uma opção, e pena pode ser uma delas. Mas além de desconforto emocional, acreditamos que o RelevO oferece uma pessoalidade e, conforme já afirmamos, acreditamos ser o veículo literário nacional com mais senso de humor (o que não é muito difícil, porque nossa produção literária se assemelha ao Código de Trânsito). Enfim, fornecemos aquele tiquinho de várzea inofensiva, que, somado à nossa independência de facto, permite conduzir um nó de carinho e outro de foda-se. Definir-se como despretensioso talvez formule uma autoanulação (das pretensiosas!), mas é bem verdade que o RelevO não seria conduzido se tivesse que carregar qualquer ilusão de importância.

Até que ponto conseguimos crescer sem nos tornarmos um jornal impessoal? Queremos seguir na empreitada de fazer um periódico literário que provoque sua comunidade, irrite saudavelmente seus leitores e não seja acomodado em seu palanque de propósitos. Para tanto, precisamos melhorar em setores nos quais ainda somos notoriamente deficitários. Alicerçados pelo delírio inicial de um jornalista que já foi jornaleiro, o fato é que crescemos cada vez mais. Não é resistência, não é grito, não é manifesto: simplesmente é. O que constitui um mérito e tanto.

JornalRelevo

lado B do jornal literário mais lido em algum recorte demográfico tendencioso

Mateus Ribeirete

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