Na ânsia de mostrar trabalho, Guerra pode causar problemas

Apesar de algumas boas iniciativas, o novo prefeito pode começar 2017 com dificuldades

Daniel Guerra pode enfrentar mais problemas (Diogo Sallaberry/Agência RBS)

Tendo sido eleito com ampla maioria dos votos em final de outubro, Daniel Guerra (PRB) assumiu a Prefeitura com a possibilidade de realizar uma gestão inigualável. São poucos os políticos que dispõem de tão alta aprovação já início de um governo. Isso demonstra a confiança que as pessoas tem nas decisões que surgiram e estão por vir por parte do novo mandatário caxiense. Porém existem diversos fatores que podem tirar o sono de Guerra nos próximos meses, sendo fatos que mudam rapidamente a popularidade de qualquer político.

Um dos fatos ocorreu semana passada. A truculência da abordagem da Guarda Municipal para impedir o comércio de produtos por índios caingangues foi o primeiro teste de fogo do secretário da Segurança Pública e Proteção Social, José Francisco Mallmann. Apesar das críticas por parte de diversos setores da sociedade e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores, Rodrigo Beltrão (PT), Mallmann foi irredutível. Disse a imprensa que a abordagem foi necessária. Além disso, as blitz ocorridas no largo da Estação Férrea, que deveriam coibir o crime na região atrapalham a vida de jovens que querem um pouco de diversão. Segundo relatos que se espalham nas redes sociais, os crimes continuam ocorrendo, mas agora algumas quadras do coração da vida boêmia da cidade.

Reunião com MPF, FAS, Urbanismo e Segurança Pública para tratar da questão dos índios. (Divulgação/PMCS)

Não é tão somente a segurança pública que causará dor de cabeça. Um fator que interfere e muito na vida das pessoas pode sofrer um baque terrível: a saúde pública. Ocorre que o secretário da Saúde, Darcy Ribeiro Pinto Filho, obrigou os médicos de Unidades Básicas de Saúde (UBS) e do Centro de Especialidades em Saúde (CES) a baterem cartão ponto. Isso vai no sentido contrário do presidente do sindicato da categoria, Marlonei dos Santos, que reitera que poderão ocorrer pedidos de demissão ou paralisação dos serviços.

Essa queda de braço não é nova. Desde o governo de José Ivo Sartori (PMDB) existia a questão de fazerem os médicos cumprirem a carga horária. Em 2008 ocorreu a maior greve da categoria na cidade, estendendo-se por 8 meses. Na época isso não foi sentido por grande parte da população, com a economia caminhando bem as pessoas recorriam aos planos de saúde. Hoje a situação é outra, houve um acréscimo significativo nos atendimentos pelo SUS em Caxias. Acontece que as demissões acarretaram uma diminuição no uso de planos de saúde, obrigando as pessoas a procurar o sistema público.

PA 24 Horas, conhecido como Postão. (Kamila Mendes)

Uma situação de greve por parte de médicos poderia levar o caos ao já combalido sistema de saúde, fazendo com que filas intermináveis ocorram em postos de saúde e principalmente no PA24h, o Postão. De acordo com dados da Secretaria da Saúde, fornecidos pela assessoria de imprensa da Prefeitura, diariamente são realizadas uma média 420 consultas, ou seja, aproximadamente 12.600 consultas por mês no Postão. Se sabe que apesar de medidas contingenciais terem sido anunciadas caso ocorrão problemas com o atendimento, ainda assim paira no ar a dúvida se este ficará como está ou irá piorar.

Existem novos problemas

Mas não são somente a segurança e a saúde problemas para Guerra, ainda existe o transporte público. Tema de campanha, o transporte público urbano hoje sendo exercido pela Visate passa por situações complicadas. No final do ano passado a empresa divulgou um prejuízo na ordem de R$ 4 milhões de reais, dizendo que este é fruto de linhas com poucos ou nenhum passageiros. É de praxe que ocorra reajuste nas passagens de ônibus no início do ano, mas este ano pode ser maior que os outros. Acontece que com a elevação do preço do diesel e com o custo de manutenção de frota aumentados graças a inflação, a Visate não pode arcar com mais prejuízos.

Visate poderá sugerir aumento das passagens (Google)

Não existe ainda uma planilha com valores que poderão ser aplicados, mas para a empresa o reajuste pode ser maior. Com base em cálculos divulgados para a imprensa, se observa um aumento no custo do transporte. Na outra ponta estão os usuários do transporte público, que dependem dele para se locomover. Devido a crescente diminuição de postos de trabalho, se diminuiu também os passageiros. Muitos que utilizavam o transporte diariamente passaram a usar somente em dias específicos ou mesmo utilizar outros meios de transporte como táxis ou Uber.

Outra situação que pode deixar os servidores municipais com a pulga atrás da orelha é o provável fechamento das farmácias do Ipam. As lojas do Instituto de Previdência e Assistência Municipal são uma válvula de escape para os servidores aos crescentes aumentos nos medicamentos. Por parcelar alguns medicamentos, dar descontos de até 25% e ainda debitar o valor em folha de pagamento era uma das vantagens do funcionalismo municipal.

Farmácia do Ipam pode fechar as portas (Sem créditos/Agência RBS)

Porém um inquérito civil do Ministério Público (MP) determinou que a farmácia deveria mudar seu regime jurídico, hoje de limitada, para sociedade anônima. Essa mudança iria acarretar um prejuízo enorme para a farmácia, diante do volume de lucro que a mesma aufere a cada exercício. Conforme declarou o presidente do Ipam, André Francisco Wiethaus para o jornal Pioneiro, esse não é um dos maiores problemas, visto que a empresa não vende tantos medicamentos assim. Além disso, comenta que os salários dos funcionários da farmácia são demasiadamente altos se comparados com o restante dos servidores públicos.

Um possível fechamento da farmácia do Ipam pode modificar até o mesmo o atendimento da Farmácia Popular do Brasil, que é administrada pela entidade em um convênio entre a União e a Prefeitura. Dessa forma quem deverá assumir a Farmácia Popular deverá ser o Município, no qual já dispõem de problemas com relação ao fornecimento de medicamentos a no SUS. Se não fosse somente o atendimento prejudicado, com o fechamento das farmácias poderão ocasionar demissões, sendo que hoje trabalham 80 pessoas nelas.

Social também pode ser dor de cabeça

Apesar de menor tamanho existe ainda a questão social na cidade merecedora de atenção. Alguns recicladores impediram a saída de caminhões da Codeca — responsável pela coleta de lixo — cobrando do prefeito uma posição com relação ao coordenador desse tema na Secretaria do Meio Ambiente. O antigo coordenador que tinha bom relacionamento com estes trabalhadores foi deslocado para outra função, deixando assim a sensação de abandono por parte do poder municipal. Os recicladores não sabem a quem recorrer e muito menos onde atuar, visto que sua autorização encerrou em dezembro de 2016. O prefeito recebeu os recicladores após a manifestação.

Crise empurrou imigrantes para as ruas, mas agora vão para onde? (Roni Rigon/Agência RBS)

Tal problema é similar com os imigrantes senegaleses e haitianos em Caxias: não sabem a quem recorrer. Conhecimento comum que muitos deles vieram para a cidade em busca de empregos, não obtendo esses passaram a vender produtos contrabandeados nas ruas. Com a operação Centro Legal muitos destes pararam de vender estes produtos, podendo cairem na criminalidade para sobreviver. Outros ainda se arriscam nas calçadas de forma discreta para não serem vistos pelas autoridades envolvidas na operação.

Estes problemas podem vir a culminar em menor popularidade ao prefeito Guerra, pois a população agora não está mais inerte as questões de políticas públicas. Ciente das promessas de campanha espera que o prefeito assuma esses compromissos de forma a não atrair mais problemas para os diversos grupos da sociedade caxiense.