Com um vestido da minha mãe

Foto de Laís Albuquerque

Precisava pensar em algo que eu nunca tinha feito para estrear em uma reportagem. Só escrever para uma revista já seria, em si, uma estréia. Mas pensei que poderia usar vestido pela primeira vez.

Maquiado, de vestido e botas de salto. Nunca havia me imaginado assim, mas lá estava eu na frente do espelho.

Quando pensávamos sobre as pautas em sala da aula, minha cabeça estava completamente vazia de ideias. Fazer algo pela primeira vez. “Ok, não pode ser tão difícil pensar numa ideia.” Enquanto os colegas já acertavam seus objetivos e os fotógrafos já ajustavam seus focos, eu pensei “vou colocar umas roupas de mulher e ver como é”. Empolgado com a ideia, compartilhei o quanto antes com a turma, e assim ficou decidido qual seria a minha estreia.
Minha intenção aqui não é me sentir mulher. Resolvi usar roupas que nunca usei antes. Roupas que são encontradas na sessão feminina das lojas. Sapato com salto, vestido, meia calça, modelador, além de maquiagem e produtos nos cabelos. Quero descobrir as sensações e impressões que terei quando produzido.
Então vamos a minha estreia. O primeiro passo foi achar alguém empolgado o suficiente para me acompanhar. Gustavo Walbrohel Marques topou me ajudar a entrar nesse universo de unhas pintadas e meia calça. Com alguma experiência em brincar de se transformar, ele diz que não leva tão a sério e que, por isso, não investe material para se produzir. É bom entender que não levar a sério não significa não dar importância pra todas as pessoas que se produzem, mas sim que, pra ele, não é algo que exija materiais e produtos profissionais, até porque perucas são realmente muito caras, e encontrar um sapato de salto tamanho 43 é bastante difícil. Enquanto esperávamos a fotógrafa chegar, assisti com ele algumas performances de um programa televisivo de drag queens dos Estados Unidos, o RuPaul Drag Race. Foi assistindo esse programa que ele começou a se interessar pelo assunto. Com uma amiga eles se montaram e foram passar a noite na festa Priscila, na Casa de Teatro em Porto Alegre. “Só não usei salto porque não tinha” conta ele descrevendo a roupa que usou nesse dia. Ele disse que sentiu um pouco de vergonha de sair na rua, mas que o personagem te dá forças para encarar a situação. E depois, chegando na festa, “a gente se sente meio em casa” diz ele por conta de que, lá, todos estão montados.

A produção

Primeiro pintamos as unhas, processo que se revelou mais tarde um tanto precipitado. Acho que deixei uma amiga pintar uma única unha minha, e apenas uma vez, mas de esmalte transparente. Então, recebi tinta azul nos dedos. Sentei numa sala na casa do Gu, algo parecido com um escritório, nos olhamos e ele me pergunta: — Vamos colocar a roupa agora então? Pra poder fazer o cabelo. — Vamos. — respondi eu, nervoso. Acordei nervoso, na verdade. Com muita expectativa.
Fechamos um acordo de que eu só me olharia no espelho depois de todo o processo completo e eu concordei. Primeiro, eu tirei meus tênis, com as pontas dos dedos, para não estragar a pintura das unhas. Foi difícil, precisei da ajuda da fotógrafa para conseguir dar cabo dessa simples tarefa. Depois tirei a bermuda jeans e acabei de cueca. Não previ uma calcinha.
O mais próximo de uma meia calça que eu já havia usado foi uma ceroula no inverno. Mas a sensação é diferente. Primeiro que o cuidado de colocar a meia é inexistente na ceroula. Segundo que a ceroula, em hipótese alguma, é tão confortável ou quentinha. Tá certo que a meia calça não é de algodão, o que num primeiro momento, denota que esta seria menos confortável. Mas não. Me senti aquecido e muito bem dentro das meias. Inesperado. Depois ouvi de algumas pessoas que passado algum tempo com a meia, ela se torna incômoda, mas não cheguei a sentir esse desconforto.

Em seguida, a cinta modeladora. Essa foi sofrida. E me atrapalhava até pra respirar. A partir dali não me sentia mais tão a vontade. Me sentia pressionado e em estágio avançado na montagem, parecia que estava valendo de verdade. Agora o sutiã, que eu nem consegui fechar. Pedi ajuda, e depois recebi da Laís, a fotógrafa, uma dica: — Tem que vestir ao contrário!

Nunca teria pensado nisso. Jamais, nem em mil vidas. E então, coloquei o vestido. Vestido da minha mãe. Internamente fico repetindo “Tá muito doido isso.” Alguns amigos já tinha me falado que usar saia é bom demais, mas realmente, agora, posso dizer que, com segurança, é bom demais. “Imagina sem cueca” diz o Gustavo.

Me coloquei confortavelmente na poltrona para receber a maquiagem. Era como se a minha cara fosse uma tela e estivesse recebendo cores pelas mãos do maquiador e essa sensação é reforçada pelos quadros que decoram a sala e foram pintados pelo próprio Gustavo. Para minhas sobrancelhas, passamos cola bastão para apagá-las e maquiagem para deixar a região no tom da minha pele. Logo depois, recebi desenhos de sobrancelhas mais delicadas. Depois do trabalho feito, me senti com uma expressão fixa na cara. Engessado. E o batom é incomodo na boca, prefiro estar com a boca limpa certamente. Prefiro sentir minha boca sem isso.

Vídeo e finalização de Laís Albuquerque

Coloquei então o sapato alto. Um trambolho de mais ou menos uns 10 centímetros. É difícil se equilibrar, mas nem tanto. Como é semelhante a uma bota, com um salto que não é fino, consigo não cair. Para o cabelo, um pouco de spray fixador e um chapéu.

Então chegou o momento de encarar o espelho. Caminho ansiosamente, e não consigo parar de rir quando me olho. Estou absurdamente diferente. Minhas sobrancelhas estão apagadas, e onde elas estavam surgiram novas bem desenhadas. Minha cor de pele está diferente, e os mil sinais que marcavam meu rosto não o habitam mais. Em cima do meu decote, peitos foram desenhados pelo Gustavo, dando uma sensação maior de volume. Continuo perplexo por alguns minutos. Achei sensacional tudo isso.

Foto e finalização de Laís Albuquerque

Saída de campo

Para experimentar as sensações de andar na rua de salto, eu, o Gustavo e a fotógrafa resolvemos dar um passeio pelas redondezas. Meu coração acelerou um pouco, nada que me mataria, mas também não diria que estava tranquilo.

Saímos do prédio e comecei a andar pela rua tentando me manter natural na situação e até arriscando andar menos duro em cima daqueles saltos. Quando passamos pela banca de revistas, o dono comentou com uma senhora que estava sentada no muro em frente, “Olha ali, tão tirando fotos dela”.

“Acho que tu tá enganando bem”, disse o Gustavo.

Apesar de ter atraído alguns olhares, não pareci estar chamando muita atenção. Pelo vestido de festa, maquiagem e fotógrafa me seguindo à média distância, podia-se dizer que eu estava sendo fotografado para um álbum de 15 anos ou algo do tipo. Passamos por uma escola em horário de saída de alunos do Ensino Fundamental. Ali algumas crianças me olharam com curiosidade, alguns pais com um olhar mais questionador, mais curioso. Na esquina movimentada da Avenida Protásio Alves com a Rua Montenegro, cruzamos com um Engenheiro do Hawaii que nos sorriu. Mais abaixo na avenida não me senti à vontade passando por um bar com muitos homens, e nem quando passei em frente a uma barbearia. Vi risadas e me senti um pouco desconfortável, afinal, não sabia o que estavam comentando e nem o por que de estarem rindo.
Resolvi então ir no mercado. No balcão da padaria a atendente indecisa tascou um “hmm moça?”. No caixa a indiferença geral de quem está mecanicamente em horário de pico atendendo, mas quando ia saindo fui guardar o cartão do banco no sutiã e quando minha visão voltou a mirar o horizonte me deparei com uma senhora com expressão desagradável. Não sei se espanto, não sei se desgosto. De qualquer forma ela não pareceu gostar do que viu.
Mesmo sem uma motivação política inicial, o saldo da experiência é bastante reflexivo. Porque algumas pessoas olharam pra mim com uma expressão tão negativa? Eu até fiquei bem bonito todo preparado. Caminhamos de volta para o apartamento e eu já comecei a me sentir um pouquinho desconfortável por conta da cinta modeladora e dos olhares que os últimos momentos tinham me proporcionado. Os homens na barbearia e no bar, a senhora inquisidora na saída do supermercado. Tirei toda a roupa e fui pro banheiro lavar o rosto. Comecei a pensar então que tinha acabado de fazer um exercício muito interessante. Me submetendo a algumas pequenas coisas, tive um vislumbre de estar numa posição que até agora eu nunca havia pensando em estar, e só nutria conceitos generalistas sobre. Maquiagem é algo difícil de tirar. Difícil de tirar também é essa experiência toda da minha cabeça.

Foto e finalização de Laís Albuquerque

Esse texto pertence ao conteúdo online da disciplina de Narrativas Jornalísticas e Planejamento Editorial do curso de Jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos — Campus Porto Alegre

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