A bicicleta em jogo


Cada pedalada é um ato político

O desafio começa na sala de casa. Não há vagas espaçosas, delimitadas por linhas amarelas na garagem do prédio. As bicicletas precisam dividir espaço com os habitantes do apartamento localizado no terceiro andar de um prédio da Rua São Manoel. Local de onde Pedro Rheinheimer, locatário do apartamento e 19º colocado na corrida Criterium, e eu (provavelmente último colocado), saímos em direção a Avenida Ipiranga.

Foto: Luis Felipe Matos

Criterium é o nome dado a uma corrida de bicicletas realizada nas ruas da cidade, tendo um circuito a ser percorrido. A versão de Porto Alegre, entretanto, aconteceu de forma diferente. O trajeto foi feito em uma única e extensa avenida. E, diferente de eventos organizados pelas autoridades responsáveis, o trânsito não foi redirecionado. Setenta ciclistas percorreram os dez quilômetros de asfalto entre carros, motos e ônibus.

Colocar duas bicicletas no elevador é complicado, mas mais complicado é quando um vizinho aperta e vê que o elevador tá cheio porque tem uma bicicleta. Eles acham que nosso meio de transporte é algo horrendo, pela cara que fazem. “Uma senhora daqui até já me questionou”, conta Pedro, “se eu sabia que elevador não é lugar de bicicleta”. Pergunto o que ele respondeu e ele diz que só falou um OK. “E subi de escada, dessa vez.”

Depois que começamos a pedalar, tudo fica mais tranquilo. Os faróis dos carros no sentido contrário ao que estamos pedalando na ciclovia de quase 2.4km da Avenida Ipiranga iluminam a via em que vai acontecer a corrida.

“Quem quer correr, correu porque quis” — era a terceira vez que alguém frisava isso. E um táxi que para na sinaleira ali perto, talvez por falta de fluido de freio, faz um barulho que agride os ouvidos.

Finalmente, a contagem regressiva.

É a parte mais emocionante. Estar entre tantos ciclistas. Para quem só estava ali para desfrutar desse momento, e não pela competição, esse foi o ápice. O grito conjunto na hora da largada foi a melhor parte da corrida pra mim, que em menos de dez minutos, perto de tantas bicicletas profissionais, fiquei em último lugar.

Sim, tentei filmar a largada. Sim, quase caí da bicicleta.

Todos nós corremos por vontade própria. Cada empurrão dos pés nos pedais, as rodas começando a girar em atrito com o asfalto da Avenida Ipiranga. Ajeitar a postura, olhar as pessoas na sua frente, atrás, nos lados, todas em cima de bicicletas. Todas tão frágeis. Todas ganhando velocidade. Todas me deixando pra trás. Em menos de um minuto, eu estava entre os últimos colocados, mas com um sorriso no rosto. Foi minha estreia em um grupo de tanta gente que usa o mesmo meio de transporte que eu. Foi a estreia do meu sentimento de saber que, sim, eu existo em cima de uma bicicleta. Mesmo que na marra.

Fotos: Luis Felipe Matos

Matéria online feita para a cadeira de Narrativas Jornalísticas e Planejamento Editorial

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