Quer um conselho da Laura Chiavone?

#ficaadica da Laura, Professora na Miami Ad School/ESPM

Começa o ano e a gente sempre tem aquele amigo meio sem saber o que fazer, pra onde ir, que rumo tomar na vida. E é aí que achamos nesse texto incrível da Laura Chiavone o empurrão que faltava. Ela passou por grandes agências como AlmapBBDO e Y&R, e seu mais recente trabalho foi liderando a área de planejamento da DM9DDB, de onde saiu há pouco tempo. Além de professora da Miami Ad School/ESPM há 13 anos, Laura é uma entusiasta da diversidade, cultural hacker e um dos grandes nomes do pensamento estratégico no Brasil. E aí, pronto(a) pra mostrar pros amigos (e pra você também) que 2017 tá cheio de possibilidades?

Jovens Planners me pediu pra ser sincera como gestora e ajudar quem tá começando com dicas e minhas expectativas sobre comportamentos, técnicas, leituras e referências. Eu tenho um monte, algumas coisas simples e outras bem cabeludas. Não tô aqui pra passar a mão na cabeça de ninguém ¯\_(ツ)_/¯ Mas cola na minha que é tudo de coração.


Precisamos mais de você do que você imagina.

Você não é obrigado a, tão jovem, já ter decidido ser planejador pra vida inteira. No entanto, se está trabalhando com isso, esteja presente, 100%, focado, pró-ativo, prestando atenção, sendo disponível, sem deixar a peteca cair.

O trabalho que um assistente e supervisor fazem é a base de toda a estratégia. Se não estiver sólido e bom, nada mais vai estar seguro. Um prédio construído na areia.

Os interessantes têm interesses.

Estude. O que você quiser. De maneira formal ou informal. Mas estude de verdade. Uma das melhores características de um planejador é quando a gente sabe que pode contar com ele para trazer conhecimento e coisas novas pra mesa. E isso só vem com interesse e horas de dedicação. Não se preocupe com o que os outros vão pensar da sua área de interesse. Sempre tem algo interessante e útil: carpintaria, jazz, futebol americano, gastronomia (alta e baixa), Harry Potter, cachorros, make up — esses eram temas de membros da minha equipe da DM9. Aprendi demais com eles. Planejador é nerd (ainda bem!) e gostamos de estudar, aprender e ensinar.

Entenda de Zeitgeist.

Captar o espírito do tempo é uma das maiores proezas e preciosidades de um planejador. Compreender os grande movimentos da sociedade em que se vive implica em sair da bolha de suas referências para se interessar e entender o todo ao seu redor e todos os agentes de influência. Entender as regras e as exceções. Saber que sertanejo é a nova MPB, que, apesar de você só ver Netflix e conteúdos on demand, a TV aberta continua em 94% dos domicílios de pessoas que quase não têm plano de dados apesar de comprar muito smartphone, e que muitos não têm conta em banco. Que no mundo hype, massas conservadoras esmagadoras escolheram o BREXIT, o Trump e por aí vai. Movimento e contra-movimento. Para isso é preciso ler jornais, diversos jornais gringos diferentes, para não ter influência de uma opinião apenas (que pelo amor de Deus não seja a da Fox). Le Monde, El Pais, The Guardian, Washington Post, La Repubblica, NYT, CNN, BBC, Time e vai embora (não vale só ficar lendo Wired, BuzzFeed, Huffington Post e FastCompany). Ajuda bem ler sociologia e história. Leia Eric Hobsbawn, se interesse pelos recentes prêmios Nobel de Economia. Leia livros de ética (vídeos e podcasts do Prof. Mário Sérgio Cortella podem ser um começo) e filosofia como Foucault.

O imperdoável.

Eu sou super flexível e pouco radical, mas tem coisas pra mim não dá. 
Aqui vão:

Enviar e-mail ou trabalho sem fazer uma cuidadosa revisão no texto.

Erros por falta de cuidado e atenção pra mim são um sinal de pouco comprometimento.

Nunca demonstre saco cheio com o seu corpo.

Bufar, bocejar, virar os olhos, responder monossilábico — não tem coisa pior nessa vida, porque denota muita falta de respeito com o ambiente todo. Não está feliz ou odiou o que uma pessoa falou? Segura a onda, as pessoas são diferentes e você não vai encontrar consenso no ambiente da agência. Não vai mesmo. É algo que você não consegue mais lidar, que está colocando a sua vontade de ir trabalhar todo dia de manhã em jogo? Formule com racionalidade ao seu gestor as suas questões e esteja pronto para ouvir o feedback dele.

Dá pra chegar num entendimento? Tomara. Se não der, tenta mais uma vez. É bom ser perseverante, desenvolve a gente. Se assim mesmo não der, parte pra outra. Vai ser bom para ambos os lados.

Faltar ao trabalho por causa da balada da noite anterior ou vir trabalhar com muita ressaca.

A dica aqui nem é que não é legal chutar o balde antes de um dia de trabalho (não preciso nem falar, né?), mas é a seguinte: não pense que o gestor não percebe. Ele percebe só de olhar e já sabe que aquele dia de trabalho vai ficar bem comprometido. Afinal de contas, ele já teve 20 e poucos anos ;) Chegar de ressaca uma vez pode até ser perdoado se o gestor for gente boa, mas se isso virar comportamento, faz você perder a credibilidade e o respeito. Isso pode fazer você entrar numa lista de corte, por exemplo.

O gestor prioriza os mais comprometidos em cenários difíceis porque ele busca sempre quem ele pode contar faça chuva ou faça sol.

Atraso.

Mostra desrespeito com as pessoas. Regra simples: 
“Early is on time. On time is late. Late is unacceptable.”

Agora, (mais) algumas dicas.

Relacionamento não é palavrão, é obrigação.

Um dos erros mais comuns entre os jovens planejadores é desdenhar das atribuições de relacionamento da nossa área ou qualquer outra.

Quanto mais o profissional ascende na carreira, maior a responsabilidade dele de relacionar-se com pessoas, de saber vender ideias e de negociar.

Somos um animal social e isso faz parte da nossa organização, das comunidades e, por que não seria assim, das empresas. E está tudo bem. Carla Harris, Vice-Chair do banco Morgan Stanley dos Estados Unidos, disse recentemente na 3% Conference, em NY:

“Na carreira você trabalha com duas moedas: a da performance e a do relacionamento. A da performance é fundamental porque te coloca no shortlist da promoção, e a do relacionamento é a que faz a sua promoção se tornar realidade. Afinal, quem vai advogar em seu favor e colocar a mão no fogo por você se não te conhece?”

Faz sentido, não? Ou seja, a parte técnica será o core do seu trabalho até o nível de gerência, mas a partir daí o core vai ser a sua capacidade de se relacionar bem com as outras pessoas. Uma moeda não vive sem a outra.

Não entenda do negócio, entenda DE negócio.

Fala-se muito que o planejador precisa entender do negócio do cliente. Sim, é verdade. Faz uma diferença brutal na entrega e no drive do profissional. Mas para entender do negócio do cliente é preciso entender de negócios, na essência. Entenda os princípios básicos de negócios, especialmente se você não tem isso na sua formação. Eu não tive nenhuma formação em negócios, sou graduada em Ciências Sociais. Aprendi na marra, e acelerei quando percebi que isso faria diferença na minha vida. Abri uma empresa aos 28 anos e comecei um MBA executivo internacional aos 35. Tão importante quanto entender o negócio do seu cliente é entender do negócio que você trabalha. Como a sua empresa ganha dinheiro, como se mantém sustentável e como poderá crescer. O simples fato de se interessar por esse assunto já é um diferencial e vai fazer você olhar as coisas, os projetos e os desafios com uma perspectiva diferente. Faz o exercício.

Hackeie as coisas para o bem.

Aprenda como as coisas funcionam, como as coisas são feitas no lugar que você trabalha com seus colegas e amigos. Métodos, processos, caminhos.

Depois de aprender, mude tudo. Hackeie, encontre novas saídas e atalhos. Desenvolva um jeito de fazer melhor do que o que você encontrou. Uma tecnologia, um novo processo, um jeito novo de olhar para a mesma coisa.

O uso de uma tecnologia para um fim que ninguém tinha pensando antes. Tem tanto a ser feito com a montanha de ferramentas às quais temos acesso que vale a pena se desafiar a criar algo novo que facilite a vida das pessoas e traga mais aprendizados no ambiente de trabalho ou mesmo para o consumidor. Alguém vai fazer isso. Eu vou adorar se for você ;)

Entenda de números.

O big data chega num momento curioso, onde poucas pessoas entendem de números. É fundamental saber ler números, saber demandar números e cruzar números para alcançar aprendizados. Aprenda o que puder sobre um negócio chamado Econometria. Os princípios da econometria serão muito úteis daqui pra frente. É ruim com números? Lamento, corre atrás. Kumon, Khan Academy (conhece? É ótimo, meu preferido!). Eu não tô zoando, tá?

O mundo está precisando de tradutores dos dados, de gente que transforme isso em informação, em conhecimento e em tomada de decisão. A gente precisa se jogar e, como planejadores, conhecer e decodificar esse mundão de meu Deus.

Coragem. Os gestores e clientes estão precisando de ajuda, estão sendo cobrados por isso. Tem uma expectativa enorme na nova geração. Leia matérias das revistas AdAge, HBR e Campaign UK sobre big data, strategy e planning. Sai algo novo todo dia. Tem um artigo interessante na Campaign UK chamado “The Rise Of Planning”. Você vai entender do que eu estou falando, especialmente sobre o futuro do planejamento.

Inglês já é pouco.

Eu sei que já difícil falar inglês bem, bem mesmo. Mas eu tô aqui pra ser sincera e ajudar quem tá começando, não pra passar a mão na cabeça. Então, o inglês tem que ser fluente. Isso não pode ser um problema. Vai ser muito importante pra você porque esperamos que os jovens planejadores estejam aptos a absorver os conteúdos mais completos e contemporâneos. E eles estão em inglês, na grande maioria das vezes. Mas….o inglês não é mais suficiente.

Você precisa falar outras línguas, porque cada vez mais estamos estreitando relacionamento com pessoas de todas as partes do mundo e, mesmo que seu inglês seja bem bom, o pessoal de Miami vai falar em espanhol com você.

Foi assim que eu decidi falar espanhol: quando cheguei em Miami com uma apresentação em inglês e descobri que eu e meu colega do Brasil éramos os únicos na sala que não falávamos espanhol. Me coloquei a meta de falar em um ano. Foi ótimo. Outro dia até me convidaram pra trabalhar na Espanha, tem reconhecimento melhor? Francês, Alemão, Italiano, Mandarim…

Idiomas são portas para conhecer pessoas e também para universos culturais incríveis, que vão aumentar ainda mais seu repertório e níveis de ‘interessância’.

Pode ser até que você ganhe protagonismo ao cuidar de uma marca por falar uma língua em especial. E isso pode ser uma super chance bacana.

Nunca subestime seu próprio trabalho.

Outro comportamento muito comum entre os jovens planners é o excesso de crítica. De crítica ao mundo e principalmente de autocrítica. Sim, vocês são super autocríticos. Isso é ótimo porque faz a gente ter noção do ridículo. Ainda bem. Mas, por outro lado, muitas vezes faz os jovens planejadores desqualificarem o próprio trabalho na hora H. Como isso acontece? De várias formas. Vou aqui contar algumas delas que você pode identificar como algo familiar e corrigir se for o caso:

///Na hora de apresentar o resultado de uma sondagem, você começa falando: “A gente falou com algumas pessoas, mas não muitas, nada que dê pra afirmar estatisticamente, só uma sondagem assim, caseira”. Se o que você fez é tão irrelevante na sua própria opinião, porque eu vou levar em consideração? Não fale caseira(o), por favor. Não seria melhor dizer: “Fiz uma pesquisa qualitativa com pessoas do target para buscar algumas hipóteses e descobri isso aqui…”? Não ficou muito melhor? Não é exatamente do mesmo conteúdo que estamos falando, mas usando uma forma bem mais confiante? Em vez de uma quanti ruim, você tem uma quali boa.

///Diminutivos são proibidos. “A gente tava pensando uma coisinha”, “Fiz aqui uma apresentaçãozinha”. Não gente. “Eu pensei numa coisa”, “Eu fiz uma apresentação”. Nunca diminua o seu trabalho, acredite nele. Se você não acreditar, quem vai acreditar não é mesmo? Pode ser que você não tenha a intenção de diminuir quando fala isso. Então, não diminui. :)

///Essa acaba comigo. Quando você está fazendo uma apresentação e de repente começa a pular os slides porque eles não são importantes. “Vou pular esse, isso aqui não importa, vou logo pro final”. Se eles não são importantes, porque estão ali, ora bolas? Foco no que é importante.

Por fim,

Esteja sempre preparado(a) pra sua grande chance.

Se prepare para uma reunião. Tenha o seu trabalho na ponta da língua. Se você vai participar de um encontro, seja interno, seja com clientes, seja com gente de fora, se prepare. Essa pode ser a sua grande chance. É isso. Se prepare como se fosse a sua grande chance. Se prepare para um telefonema, se prepare para uma reunião, se prepare para falar com o seu chefe. Estude os materiais, tenha de cabeça os temas e os assuntos que vocês estão analisando. Mostre que você está preparado, que as pessoas podem contar com você.

Você passará a fazer parte das fontes delas. As pessoas vão passar a olhar pra você quando fizerem perguntas. Elas vão procurar você com os olhos. Vão ouvir mais você, porque sabem que você domina o que está falando. Seu chefe vai confiar mais em você. Assim como o cliente vai perceber que você leva o trabalho a sério, e isso tem um valor incrível.

Se for fazer uma apresentação, ensaie. Ensaie em voz alta ao menos 3 vezes. Ensaie para ter certeza que está tudo ali e está tudo no lugar certo. Ensaie para mostrar que você domina o conteúdo. Não esqueça o que contém aquele slide — “O que é mesmo isso, não lembro” não é legal. Descubra quanto tempo você tem para uma apresentação. Quanto tempo o seu chefe tem para aquela conversa. Quanto tempo o seu cliente tem. Se planeje dentro do tempo. De repente alguém te chama pra você explicar uma coisa para um cliente no corredor, para um VP, para o CEO. E aí? Você está pronto? Se isso acontecer amanhã de manhã, você estará pronto? Você tem que estar, cola na minha. Deixei por último porque essa é a dica de ouro, a melhor coisa que eu posso te falar. Se você quiser lembrar só de uma coisa, lembre só disso:

Esteja sempre preparado para a sua grande chance.

por Laura Chiavone: Strategic Thought Leader e professora na Miami Ad School / ESPM.


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