Em busca daquela luz

La Rambla, Montevideo, Agosto de 2014. Foto: Jubas

Nas manhãs de agosto de 2014, minha mãe acordava cedo dentro de seu quarto no Planet hostel, em Montevideo, onde então vivia e trabalhava. “Um quarto pequeno com uma cama, uma cômoda, uma janelinha.. só..” E era o suficiente. Todos os dias, organizava suas coisas, tomava uma café, pegava a câmera fotográfica e caminhava umas três quadras rumo à la rambla.

Em um dia deste mês do inverno uruguaio, ela havia testemunhado uma luz incidindo através da neblina sobre a linha de prédios na orla do rio da Prata. Era uma luz específica, meio dourada, meio prateada, feita difusa por la niebla, reluzindo sutil nas edificações e nas águas mansas do rio. A cena havia encantado seus olhos. “A luz era bela”, me disse, “o sol recém nascendo.. os raios do sol nos prédios, na água.. era uma luz diferente.. essa neblina encobria, ao mesmo tempo que produzia uma cor outra, não como a do sol de todo dia. Mas foi aquele dia só.”

“Qualquer lugar que eu ia, andava com ela. Era uma extensão de mim, a câmera..” Mas justo naquele manhã apenas caminhava, sem o equipamento.

Depois disso, voltaria “todos os dias atrás dessa luz que eu tinha visto. Mas não se repetia..”

“Fiquei com isso mais de um mês na cabeça.. ia cedo, antes do meu horário de trabalho, pra ver se conseguia pegar a tal luz.. caminhava, ficava sentada na mureta, esperando..” Durante alguns destes dias, um jovem alemão que se hospedava no hostel, também se engajou naquelas missões matinais. Mas a aquela luz não vinha.

La Rambla, Montevideo, Agosto de 2014. Foto: Jubas

“Tem muito disso a fotografia. Não consegui chegar nem perto do que eu vi. Nunca a gente vai conseguir aquela mesma foto, né? Mesmo assim eu persegui.. um pouco de loucura.. mas eu queria.”

No mesmo período, no oeste do Maranhão, eu caminhava dentro do território Ka’apor, a uma distância aproximada de 4.700 quilômetros daquela costa. E enquanto ela me contava de sua busca, me transportei para aquelas suas manhãs, em completa identificação. A gente que fotografa tem disso em algum momento da vida. A gente vai reparando num tanto de luzes distintas ao longo dos anos, mas tem “aquela luz”.. Comigo foi uma que vi em 2009, também atravessando uma neblina bem cedo, no sul de santa catarina, passando de carro. Eu estava com a câmera, mas sem tempo pra parar. Tentei fotografar pelo vidro da janela, mas não deu. Meses depois, tirei as cores da foto, pra me lembrar daquela luz também muito específica que desde aquele dia não se repetiu diante dos meus olhos.

Río de la Plata, Montevideo, Agosto de 2014. Foto: Jubas

Agora, estou diante das fotos de minha mãe, que assina ‘Jubas’. Uma produção para mim muito significativa que veio à luz desde un sitio perdido en el sur. Foi ela quem me deu a primeira câmera, quando eu tinha 17. Nos últimos cinco longos anos, que passamos sem nos ver, ela e eu estivemos fotografando. E hoje ela sonhou, pela segunda noite consecutiva, que tinham lhe roubado a câmera. Acho que é um sinal pra começar a publicar suas fotos, algo sobre o que venho convencendo-a há alguns dias.