Muros invisíveis, cores, latinoamerica

Porto Alegre, 2013. Foto: Jubas

Vou seguindo suas composições, feitas das mais variadas matérias-primas — das cores de crepúsculos montevideanos, a múltiplas perspectivas de quem caminha a cidade sem se cansar. Capturado pelo seu olhar que busca a beleza escondida atrás de muros invisíveis, encontro imagens de bolhas de sabão. No ano passado, ela convidou Isadora para ajudá-la com isso; juntas, as duas passaram uma tarde fotografando e sorrindo, num terraço de um edifício alto na Borges de Medeiros, no centro de Porto Alegre. Fico imaginando se eu teria atendido um convite como este, em meio a outras ideias de prioridade.. e pensar sobre isso agora me engendra uma mistura de sentimentos que não consigo definir.

Montevideo, 2014. Foto: Jubas

Em meio às fotografias, pinturas e desenhos de minha mãe, acredito estar testemunhando o encontro de uma artista com sua própria arte. O cenário é um sul pulsante da América Latina, que ela sempre trouxe no interior. Pedi que me falasse mais sobre este período:

"Na verdade, não sei se falaria do meu encontro com a arte diretamente, mas podia dizer do encantamento por Montevideo.. que foi o que me levou até lá.. não sei se foi o lugar em si, ou o meu momento lá.. o momento de descoberta da arte em mim, ou para mim.. o momento em que eu me abri pra arte.. que me tocou..

Quando eu cheguei em Montevideo e me encantei com aquela luz da cidade.. com as cores da cidade.. Todo mundo sempre dizia “Montevideo é uma cidade gris”.. mas eu nunca entendi isso.. por que pra todo lado que eu olhava, via cores, via beleza.. e comecei a fotografar com meu celularzinho. Queria compartilhar a beleza e, quem sabe, causar aquele sentimento em quem via. Mostrava as fotos pra alguns amigos uruguaios e eles se espantavam: “mas onde é isso?” e eu respondia “aqui mesmo”..

Montevideo, 2014. Foto: Jubas
Atlantida, Uruguay, 2014. Foto: Jubas
Montevideo, 2013. Foto: Jubas

E aos poucos fui encontrando essa coisa que desabrochava em mim.. e cheguei a montar um projeto para tratar do olhar de um estrangeiro sobre a cidade. Aquilo não foi adiante, por vários motivos, mas segui na descoberta daquele lugar, dessas cores, nuances que de uma certa forma me remetiam as minhas origens.. porque nasci na fronteira do Brasil com o Uruguai.. mas trago comigo essa impressão de que nós, brasileiros, ainda que estando inseridos neste mesmo grande e diverso território geográfico-cultural, não tomamos conhecimento da América Latina..

A fronteira onde cresci, por mais que seja conhecida como a fronteira da paz, e que não haja barreiras físicas entre um país e outro, a gente, mesmo assim, morando ali do outro lado, não conhece as raízes uruguaias, a música, a arte.. a gente não toma conhecimento.. Se você olha, é como uma cidade só, mas totalmente separadas em essência. Nasci em Sant'Ana do Livramento, mas transitava muito em Rivera, estudei lá na adolescência, transitava bem por ali, e me encantava com o idioma, com as músicas.. mas muito cedo, aos 18 anos, fui embora e acabou que fui deixando de lado esse encanto pelas coisas de lá.

Esse encanto de que falo talvez tenha despertado quando eu era ainda muito pequena. Desde os 6, 7 anos, até os 15, nós íamos para casa de amigos de minha mãe, passar os meses de Janeiro no Pinar, uma praia deserta, de férias. O Uruguai sempre me trouxe essa lembrança..

Montevideo, 2013. Foto: Jubas

Eram tempos de ditadura, nos dois países. Quando íamos a Montevideo de ônibus, em pontos de checagem no meio da estrada, éramos abordados por militares uruguaios com metralhadoras em punho, revistando documentos, inquisitivos. Tinha 9 anos quando vi esta cena pela primeira vez. E na minha adolescência ouvia falar dos tupamaros, um conhecido torturado ali, outro desaparecido lá. O tio de uma grande amiga, preso. E não se podia falar nada. Se podia ouvir e ficar quieto. No Brasil também pouco se falava. Era como um muro erguido invisível. Carregava estas impressões também quando cheguei, agora cidadã uruguaia.

E foi em 2012 que entrei para a escola nacional de Bellas Artes da Universidad de la Republica, onde se aplica uma abordagem diferente que, ao meu ver, deveria ser cursada no primeiro ano em todas as faculdades, com oficinas dos fenômenos da percepção e linguagens. Durante o curso, você tem a oportunidade de desconstruir qualquer conceito, ou pré-conceito que você traz.. tinha gente de todo tipo ali, advogados, médicos, jovens, aposentados.. todos acabavam desmoronando para construir seu próprio saber.. eles te fazem encontrar teu próprio conhecimento. Você aprende através da experimentação. Você chega às conclusões por teus próprios olhos, ouvidos, nariz.. e percebe as coisas de outra forma.. Por exemplo, a gente assistia a um filme e depois conversávamos, e nesse filme a gente abordava luz, enquadramento, composição, narrativa. E isso era uma aula — assistir a um filme. Ou então totalmente livre, nunca a gente sabia o que ia fazer. Um dia, a gente chegou na aula e, na entrada, os professores entregaram uns pedaços de arame. No dia anterior, haviam pedido pra trazer um alicate, sem maiores explicações. Então, entregaram-nos os arames e disseram "façam um desenho no espaço". Mas como assim um desenho no espaço? E a resposta era: "Assim. Um desenho no espaço." "Agora você imagina 500 pessoas juntas com pedaços de arame fazendo "desenhos no espaço…"

As aulas começavam sempre às 18h3o. Eu saía do trabalho correndo para a faculdade, mal dava tempo de comer um alfajor.. Usávamos uma infinidade de materiais: madeira, tinta, barro.. E haviam essas vivências. Um dia, vendaram nossos olhos, armaram todo um cenário e você tinha que tirar o sapato e tinha diversos materiais no chão.. areia, pedra, isopor.. No corrimão também, esponja, metal.. percorríamos um trecho e depois tirávamos a venda pra perceber quais eram os materiais.. E as percepções eram diversas, às vezes pensávamos que era uma coisa, um material, mas era outro.. Eles eram arquitetos! Uma vez montaram um túnel com luzes diversas… Lá existe uma certa "obediência ao mestre", um respeito ao professor, disciplina.. Por isso dava certo tanta gente aprendendo ao mesmo tempo. O diretor da escola era Samuel Sztern. Eu adorava ele!

O sistema de presença era rígido. Não abriam mão dos minutos. Se a porta fechava, ninguém mais entrava. E só podia contar três faltas em um mês, logo que ano a ano ia caindo o número de alunos. Quando saí de lá tinha 180 alunos mais ou menos. A partir do quarto ano é que você define uma especialidade. Sempre tinha cinco ou seis professores ali, mas não falavam uma palavra. Uma postura bem fechada. Era mais uma orientação, mas nunca diziam o jeito que a gente tinha que realizar as tarefas.

A avaliação era feita através dos trabalhos que entregávamos, que não devolviam e não diziam se estava certo ou errado, nem colocavam nota nenhuma. Tinha trabalhos que eram mais importantes, como o do desenho da nossa foto e um em que entregaram uma cartela de cores pra gente chegar naquele resultado. Ficamos uns 15 dias nisso. Eram 12 cores. Cheguei próximo de quatro. Você olhava e falava, "tá, essa cor é feita dessa, dessa e dessa. Tá, vai lá fazer pra ver… Quanto de cada uma? Aí é que tá…" Eu tinha a impressão de que para os professores o que vale é se você tá afim de estar ali. Nos anos mais teóricos também não tinha nota, somente algumas avaliações textuais.. Mas nunca tinha devolução. Tirar de ti o que tu tem lá dentro. Tu ver o que que tem…"

Montevideo, 2014. Foto: Jubas