dez horas no mundo.

querido diário,

edu me avisou: tem dez horas que você não pega seu celular. verdade.

falei com o pessoal pelo grupo na hora da Ana Maria Braga (que tava fazendo uma receita maravilhosa de pão com carne) e deixei a minha mais recente “peça do corpo” de lado, na mesinha do abajur. ali ficou.

celular virou um braço, uma perna, vários dedos. ficou mais importante que o brinco. que o rímel, que você esquece de passar e sai pra rua com cara de cansada — mas dele, certamente, cê não esquece jamais. mesmo que ele não melhore em nada a sua olheira funda e escura.

tomei café com calma, fumei meu cigarrinho da manhã com calma, fiz até cocô com calma. concentrada. oversharing? não. porque eu duvido que você não leva o seu nem pra dar aquela jogadinha. corto meu celular indicador fora que não.

lavei roupa, arrumei a casa, tomei banho, tudo no meu tempo. e ainda havia tempo. impressionante.

botei maiô, tomei sol, caí na piscina. fiquei admirando o céu azulzinho, a nuvenzona escura que apareceu pra tentar estragar a minha estreia na área de lazer do prédio depois de 15 anos morando nele.

cansada da folia e dos abusinhos, tirei o dia pra mim. falei com o piscineiro, que mora em Francisco Morato e vem de trem, todo dia, só pra abrir a piscina pros condôminos. e eu nunca sequer tinha me dado conta disso. nunca tinha desejado uma boa tarde pro cara. foi bom bater papo.

conheci também uma senhora muito simpática, que acendeu seu cigarro no maior sossego e me agradeceu a rara companhia — apesar dos 396 apartamentos do condomínio e das quase mil pessoas que aqui residem.

ah! deu tempo de ver como o prédio que eu moro é bonito pra caralho. arborizado. sossegado. cheio de detalhes (e sim, nada de espiar como estavam os preparativos para a apuração do carnaval de são paulo pelo UOL).

fiz um lanche, tomei um açaí geladinho idem, vi compacto dos desfiles, cochilei. levantei, vi a Tatuapé campeã e ainda tive tempo, veja você, de escrever essa experiência rara. e foi boa. sossegada. ninguém morreu. nem eu.

e me dei conta que a gente parece ter perdido a capacidade de se comunicar olhando no olho das pessoas. tocando nelas. sentindo-as, de fato.

passei dez horas no mundo real, em plena terça gorda de carnaval. e ele até que é bacana.