Street Fighter V

Uma coisa interessante de se estudar a história da matemática é a forma com a qual os antigos enunciavam seus teoremas, antes da formalização da linguagem algébrica. Pegue por exemplo a forma com a qual Euclides enuncia o Teorema de Pitágoras, talvez a equação mais famosa da matemática, em seu livro Os Elementos:

“Em todo o triângulo retângulo o quadrado feito sobre o lado oposto ao ângulo reto, é igual aos quadrados formados sobre os outros lados, que fazem o mesmo ângulo reto.”

(Com quadrado ele queria dizer a figura geométrica mesmo, não o significado algébrico conhecido atualmente.)

A linguagem algébrica atual nos permite escrever esta equação como:

“Em um triângulo retângulo de hipotenusa a e catetos b e c, temos que a² = b² + c².”

Partindo da ideia que a pessoa domina os signos algébricos, a segunda frase é muito mais clara e rápida de entender do que a primeira. Por possuirmos os recursos linguísticos da álgebra desde que nascemos, tendemos a desprezar o seu poder, porque não sabemos o que é não tê-lo. A linguagem algébrica contemporânea , sem dúvida, nos tornou mais capazes de nos aprofundar na álgebra e, por consequência, em toda matemática elementar.

Desnecessário dizer que isto não tornou a matemática facilmente acessível a todos. Você que está lendo este texto provavelmente (no sentido estatístico, não intensificador) não sente apreço por ela. A linguagem algébrica, embora tenha facilitado a vida das gerações posteriores ao seu amadurecimento, não se explica sozinha. É necessário um bom professor e um esforço de anos para dominar a matemática elementar.Como qualquer ferramenta, é necessário que sua aplicabilidade seja ensinada.

Vide, por exemplo, produtos notáveis. A maioria das pessoas sai da escola sem saber a necessidade de sabê-los e, por consequência disso, acaba esquecendo-os. Lá no fundo da sua memória você deve completar a frase “o quadrado da soma é o quadrado do primeiro, mais duas vezes o produto do primeiro pelo segundo, mais o quadrado do segundo” ao ler (a + b)² = a² + 2ab + b². Te fizeram saber isso. Dificilmente você sabe que isso facilita as contas para saber que 15 x 15 = 225, porque (10 + 5)² = 100 + 2.10.5 + 25. Idem para a² — b² = (a+b)(a-b), que torna a conta 1001 x 999 imediata. Você já tinha a ferramenta, agora você sabe como usá-la.

Street Fighter V me lembra muito álgebra elementar, exceto que esta eu conheço bem. É fácil usar os golpes, técnicas, conhecer os personagens e decorar os especiais como se decora fórmulas. Street Fighter V, como a álgebra, recompensa o jogador que treina duro para ser um mestre nela e exige bastante erro até que os acertos comecem a aparecer. Street Fighter V é justo e, segundo os manjões (valeu Méfius!), tem a melhor curva de aprendizado da série. Mas, embora o uso das ferramentas seja fácil, não há um bom professor para ensinar sua aplicabilidade dentro do jogo.

Não estou dizendo que Street Fighter V é incompetente onde outros jogos de luta esbanjam capacidade. Na verdade, nunca joguei um jogo de luta que ensine claramente suas ferramentas e como usá-las. Nem mesmo Skullgirls, reconhecido como o melhor tutorial dos Fightans, o faz. Eu costumo dizer que se enunciássemos a lista dos grandes desafios de game design a serem batidos, assim como é feito com os grandes problemas da matemática, construir um tutorial autoexplicativo para jogos de luta certamente estaria nela.

O que quero dizer, na verdade, é que Street Fighter V tem recursos como tech throw, overhead (eu só fui descobrir que isso existia ontem), ataques únicos para personagens, mas não dá nome a essas coisas, nem os apresenta publicamente. Ou o jogador corre atrás para aprender isso ou simplesmente não explorará o potencial completo do jogo. Uma evolução bem diferente do cenário competitivo de Pokémon, por exemplo. Porém, os incentivos para um jogador casual aproveitar o jogo são (ou, pelo menos, serão) maiores do que já foram em outros tempos. Há um modo história completo e bem contado a caminho e incentivos para manter as pessoas jogando, como os coletáveis.

O termo Boneco foi oficialmente utilizado e a sociedade só tem a ganhar com isso.

Apesar disso, Street Fighter V me motiva a fazer com ele o que eu fiz com Pokémon e com a matemática um dia. Entender melhor seus pormenores, treinar para aplicá-los e dominá-los, assistir mestres no gênero e admirar a beleza e a maestria com a qual eles manipulam os recursos oferecidos. Enfim, parar de assistir apenas um baile e compreender a big picture do que acontece em uma EVO. Afinal, se Street Fighter V existe, é para manter este cenário existindo e, mais que isso, trazer gente nova, disposta a conhecer este universo. Street Fighter V é consequência de um fenômeno importante dos videogames, aquele que os consolidará como um esporte. Fenômeno este que a própria franquia Street Fighter foi uma das responsáveis por criar.

E sim, é difícil falar qualquer outra coisa do jogo, porque ele ainda está bem enxuto. De qualquer forma, eu também não quero falar disso ou vou de servidor (apesar dos muitos betas). Isso seria como culpar a matemática porque o livro atrasou e ainda veio com páginas em branco.

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