10 Melhores Filmes de 2015

É complicado criar uma lista anual de melhores filmes cá em Portugal: boa parte do rebanho prestigiado de 2014 estreia nos primeiros meses do ano, pérolas de entretenimento acabam sem debut sequer (cadê Straight Outta Compton?), e temos que esperar mais umas semanas até apanharmos nas salas fitas bajuladas pela crítica como Hateful Eight e The Revenant.

Portanto, para evitar confusões, consideram-se para os efeitos desta lista todos os filmes com estreia em 2015 que não tenham sido lançados em 2014, e apenas aqueles que tiveram uma alargada estreia comercial cá em Portugal (salas pequenas e regionais ficam, assim, excluídas). Certamente existem melhores filmes que estes em 2015 — mas ou eu não os vi, ou não passaram pelas salas nacionais.

Conversa fiada terminada, vamos lá celebrar o cinema!

10. Capitão Falcão — João Leitão
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João Leitão, Gonçalo Waddington e a incansável equipa da MAD Stunts trazem-nos um híbrido de ação/comédia imaculado, que faz pouco do estilo arrastado e inflexível tão característico dos melhores filmes portugueses ao criar uma farsa social repleta de combates marciais e uma boa dose de excentricidade cómica.

Waddington é uma estrela de ação convincente, e a realização assegurada de João Leitão (aliada à colorida cinematografia de Mario Costa) permite um estilo único no panorama de cinema nacional.

Um blockbuster português, com piadas tão más que são boas, e coreografias invejáveis.

9. Steve Jobs — Danny Boyle
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O mundo cinemático das biopics é, muito frequentemente, chato e excessivamente comemorativo das figuras que pretende retratar, quase sempre em detrimento da história a ser contada. Steve Jobs, por outro, surpreende ao demonizar o seu homónimo protagonista, sem medo das reações chocadas da audiência.

Sorkin, Boyle e Fassbender deitam as convenções pela janela e entregam-se de cabeça a um projeto que acerta em cheio em todos os momentos emocionais. Nenhum filme com 90% de conversa fiada devia ser tão entusiasmante, e no entanto aqui temos a prova de tal anormalidade. Bravo, senhores, bravo.

8. Missão Impossível: Nação Secreta — Christopher McQuarrie
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Nação Secreta é, na verdade, Tom Cruise: trata a audiência com respeito, e esforça-se para que, no fim das coisas, ela saia feliz do cinema. Por vezes esforça-se demais e é um pouco macaco na forma como o faz, talvez dê uma mão demasiado amiga para que não nos escape nada do enredo mirabolante. Mas isso são detalhes sem importância, em que o espetador comum não repara e que só dão comichão aos que não gostam deste tipo de cinema, por esta ou aquela razão.

Mas não se enganem: isto é cinema. O género de ação é talvez o mais puro e cru desta forma de arte, e os filmes Missão:Impossível são o seu apogeu lógico. Surpreendem outra e outra vez com as sequências de cortar o ar, e animam o espírito com as personagens coloridas que povoam a orla da narrativa. Simon Pegg é uma pérola, e Rebecca Ferguson é capaz de ser a antagonista mais perspicaz do franchise, e outra forte figura feminina num ano repleto delas.

Tom Cruise não chora o seu coração fora neste filme: mas acreditem que, este ano, não há melhor performance que a dele.

7. Kingsman: Serviços Secretos — Matthew Vaughn
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Matthew Vaughn continua a bela tradição de adaptações violentas e over-the-top, com um cheirinho de Tarantino no que toca à trilha sonora, e a esquizofrenia visual equiparável a um Wes Anderson sanguinário. Colin Firth entrega-se de corpo e alma ao papel do super-espião cavalheiro Harry Hart, aliado do charme juvenil de Taron Egerton, que arredonda a trama brutal de Kingsman.

Pode não ser um filme para toda a gente, mas tomou riscos com a sua veia satírica que mais nenhum este ano sequer ousou, e foi bem sucedido com eles. Desde a cinética cena da igreja, à explosão musical de cabeças, Kingsman lidou com a brutalidade da violência de uma forma singularmente artística, distanciando-se de tentativas mais vulgares como Spy e Velocidade Furiosa.

2015 foi um ano repleto de filmes de espionagem, mas nenhum se equiparou à brutalidada cínica e subversiva de Kingsman.

6. Sicario — Denis Villeneuve
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Sicario é pesado. É violento, embora moderado: bombas explodem, cabeças rolam, tímpanos rebentam, mas não quando os esperamos, nem da maneira a que os estamos acostumados a ver. A cinematografia do incomparável Roger Deakins torna tudo deslumbrante: o escorrer de sangue seco, as silhuetas noturnas dos apáticos soldados americanos; tudo imagens que fazem salivar o mais ressequido espetador.

No entanto, é a prestação imaculada de Emily Blunt que concretiza o filme, subvertendo de maneira inteligente a trama excessivamente viril que costumamos associar a este tipo de narrativas militares. O mundo da guerra é maior que os States e os seus corajosos machos.

Brutalmente honesto, Sicario é o melhor thriller do ano.

5. Inside Out — Pete Docter
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A Pixar está de volta com esta longa-metragem original e adulta; um turbilhão de emoções complexo que é capaz de alienar qualquer criança à procura de escapismo fácil. Inside Out cria uma trama intrincada de personagens ficcionais e imaginárias que guiam os protagonistas no seu dia-a-dia, controlando as suas atitudes e respostas emocionais.

É um filme destemido na forma como pretende estabelecer a evolução da personalidade e traços característicos do Homem, ao mesmo tempo que toca em pontos como o trabalho de equipa, a exaustão emocional e a importância da família para o bom desenvolvimento humano.

Pode-se dizer que é um filme para toda a família, mas não por ser uma simples e irracional comédia sem faixa etária.

4. Star Wars: A Força Desperta — J. J. Abrams
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O sétimo episódio da imortal saga espacial Star Wars pode ter muitos problemas — problemas que nem me vou dignar a enumerar porque já devem estar fartos de ler as polarizantes opiniões de certos aspectos de A Força Desperta -, mas nenhum deles é capaz de me fazer esquecer a experiência cinemática que tive quando o vi pela primeira vez.

Nunca tinha saltado — literalmente — do banco como reação a algo no grande ecrã, nem os meus olhos tinham até então reagido de forma profusamente alérgica ao pó característico das salas de cinema, isto é, chorei. Muito. Mesmo.

Raro é o filme que te faz esquecer os seus pecados com a magia incomparável do cinema; Star Wars: A Força Desperta é esse filme. Mais do que qualquer coisa, limpou o gosto amargo das prequelas e abriu o franchise a novos e melhores filmes; e só por isso temos que agradecer a todos os que nele trabalharam.

A Força está finalmente de volta.

3. Mad Max: Estrada da Fúria — George Miller
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George Miller, com 70 anos, devolveu a energia animalesca e jovem a um franchise com já mais de três décadas, que tanto tem definido os filmes de ação desde então.

Nos últimos tempos, o cinema de blockbuster americano tem habituado as audiências a um estilo perfeitamente competente de adrenalina visual, desde as explosões robóticas do Michael Bay, aos dramas superheróicos dos Vingadores. Mas o que falta na maior parte destes filmes é, de certo modo, a simplicidade dos objetivos narrativos, a criação de uma relação central emocional e de um certo equilíbrio entre a ação e os momentos de pausa.

Felizmente, Mad Max: Estrada da Fúria veio reintroduzir estes conceitos ao mainstream, imbuído de uma estética madura e de um preciosismo visual merecedor de todos os Oscars. Grandes performances, uma retumbante trilha sonora e as melhores sequências de ação do ano. Que mais querer?

2. Ex Machina — Alex Garland
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O Oscar Isaac é o maior. Quer dizer, o gajo está em todo o lado hoje em dia mas mesmo assim consegue fazer com que cada uma das suas performances seja espetacularmente única. Quão impressionante é isso? O seu papel em Ex Machina é tão bizarro que não posso deixar de me sentir fascinado e intrigado com a sua personagem amalucada e maquiavélica.

Alicia Vikander e Domhnall Gleeson estão também em boa forma, e o guião de Alex Garland aprofunda temas extremamente progressivos que só vão ser bem digeridos daqui a uns anos. No entanto, o que mais brilha é a sua realização sóbria, que apesar de não ser propriamente invisível, é tão bem executada que o parece. E aquela cena de dança, foda-se, aquela cena de dança. Já não sentia tanta alegria e tristeza no cinema há muito, muito tempo.

Um clássico moderno.

1. As Mil e Uma Noites — Miguel Gomes
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Inspirado no homónimo clássico da literatura árabe, o mais recente filme de Miguel Gomes é como uma matryoshka: a História de Portugal é um conto, dentro do conto de Xerazade, que por sua vez nos tece um sem número de narrativas dentro de narrativas que convalescem o sublime com o ordinário num retrato autêntico do nosso país decadente e genuíno, ou genuinamente decadente.

Ao longo dos três volumes d’As 1001 Noites, Gomes aproveita a ironia dramática das suas histórias ao mesmo tempo que as combina inextricavelmente com a vertente fantástica da imaginação humana. O real e o irreal aglutinam-se numa cacofonia barroca, surreal, que ganha entoações delirantes graças à estrutura nómada que acompanha o filme.

Em As 1001 Noites encontramos tesões infinitas, galos que falam, sereias que dão à costa e conversas dentro do gigante estômago de uma moribunda baleia que têm mais de simbólico do que literal. A pretensão do real não existe: apenas a forma humorística de dialogar com a audiência que sabe melhor que ninguém o que é viver num país em guerra económica, sem direção e tão profundamente triste como o nosso.

Espero que se tenham divertido bastante no cinema em 2015. Até para o ano!

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