CRÍTICA: Capitão Falcão, um filme à maneira

Ou: manual para a portugalidade.

Para quem a quer curta e dura: Capitão Falcão está demais, é bom de saúde e recomenda-se enquanto ainda está fresquinho. Somos nós portugueses a sério se falharmos no nosso dever cívico e patriótico de ir ver o filme ao grande ecrã? O Capitão diria que não e, provavelmente, encontraria-nos na rua para nos espancar os berlindes e as saltitonas com o seu fiel bastão.

Mas a verdade é que esta crítica requer algo mais extenso, uma apreciação por inteiro do trabalho realizado por João Leitão e pela sua equipa técnica. Se há algo que não falta a Capitão Falcão é estilo, tanto visual como narrativo, tendo as personagens mais coloridas (literalmente) do cinema português contemporâneo e as cenas de ação mais bem coreografadas e cinéticas deste lado do oceano assim como, ouso, do outro lado também. A Mad Stunts continua a brilhar neste ramo específico, sem nada a apontar.

O plot é bastante reto e sem grandes reviravoltas: Capitão Falcão trabalha para o estado português de 1968, sob o governo de António de Oliveira Salazar, e o seu objetivo é eliminar do país quaisquer ameaças à política, desde comunistas e comuninjas, a feministas do kung-fu e capitães de Abril que fazem de leques armas letais.

Há uns dias estava na conversa com uns colegas quando surge a questão do que é que define um mau filme. Incoerência narrativa? Personagens cliché? Fraca representação dos atores? Realização fosca e com uma pitada de estilo sobre substância? Cada uma destas especificações e até todas podem representar um mau filme. No entanto, sou da opinião que podem ser utilizadas como ferramentas para criar algo que ao ser mau é, paradoxalmente, bom.

Dou o exemplo da escolha duvidosa de filmes de série B que Tarantino muitas vezes usa como inspiração para a sua filmografia pastiche, tornando o todo mais do que a soma das suas partes. Capitão Falcão funciona de modo semelhante; um spoof de influências díspares que vão de Power Rangers a Green Hornet até a certas pérolas nacionais tão adoradas lá fora mas pouco vistas por quem mais interessa. Usurpa a sua identidade ao estilo do Puto Perdiz e constrói-se através delas, com um overacting propositado ridiculamente hilariante.

O que Capitão Falcão pode significar para o panorama cinemático da nossa franca nação é uma aposta em entradas do mainstream mais distintas e ousadas. João Leitão entende que filmes portugueses não precisam de se basear em romcoms estadunienses medíocres (Sei Lá (2014)), ou em adaptações literárias desnecessárias (O Crime do Padre Amaro (2005)). Mas também não se devem unicamente diferenciar pelo seu preciosismo artístico e auto-reflexivo como as obras de Miguel Gomes ou o recém-falecido Manoel de Oliveira. Devem ser comerciais, sim, mas devem entreter pela originalidade, pela imaginação que é tão propícia ao meio audiovisual.

Não deixa de ser uma ‘comédia à portuguesa’ (apesar do intuito ser precisamente esse) e de ter as suas faltas a nível de argumento (a construção de cenas irrepreensível da primeira metade do filme morre durante a segunda parte, até que a ação esquizofrénica retorna para o fim). As falhas estão lá, e pecam talvez pela adaptação forçada do meio televisivo para a tela de cinema, mas não deixam de ser reprimíveis.

No entanto Capitão Falcão é um marco na história da comédia portuguesa, altamente citável e com sequências inesquecíveis de humor e ação que não se encontram noutro lado qualquer. Um filme de portugueses, para portugueses, sem pretensões intelectuais de fachada nem o desapreço comercial que recai sobre muitas outras comédias.

Vão ver, e contribuir. Ou metem-se a jeito de conhecer a Justiça e levar com ela na fuça.

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