Cavaleiro de Copas: uma crítica simpática

Sobrevivi. Considero-me até certo ponto privilegiada por ter um fascínio particular por ocultismo e tarot, porque confesso que sem isso nunca teria conseguido. Perceber o significado do cavaleiro de copas, entre outras coisas, é bastante útil para ver este filme, pelo menos se o quisermos compreender melhor. E nunca é bom partir do princípio que a nossa plateia é interessada.

Diz-se que Rick (Christian Bale) é um argumentista que vive em Los Angeles — “diz-se” porque nunca o vemos a trabalhar ou a exercer a sua profissão. É divorciado (talvez?), gosta de mulheres e está claramente a passar por uma crise de meia idade. Christian Bale é a tela perfeita para este papel, não fosse ele vago e inexpressivo por natureza, o que implica em certos momentos que sejamos obrigados a envolver-nos nas suas emoções sem darmos por isso, mais que não seja para sentirmos alguma coisa. Mas é só.

Desde A Árvore da Vida (2011) que é oficial a associação entre Malick e a fragmentação, o plano fluido, os pedaços, as metáforas visuais,… Neste Cavaleiro de Copas, o realizador sobe conscientemente para um patamar por vezes exagerado e forçado, quase destrutivo. Sentimos que nunca completamos um raciocínio ou uma ideia, uma cena ou muito menos uma conversa. Se Malick é sinónimo de fragmentação, então fragmentação tem de ser sinónimo de Cavaleiro de Copas.

Muito possivelmente de forma propositada, sentimos que somos um espectador vezes e vezes sem conta, embora um espectador, tal como o nosso protagonista, perdido, vazio e solitário. Aliás, todo o ambiente é vazio e solitário por si só, as casas nunca estão completamente mobiladas, os cafés estão isentos de clientes, as ruas só têm pessoas quando ele está acompanhado,… existe um reforço dessa ideia do incompleto. Não somos acompanhados por música nem diálogos durante grande parte do tempo, também, o que faz com que acabemos por nos sentir desesperados por ar e aproveitar ao máximo todas as cenas mais movimentadas e cheias de gente. Um cumprimento gigante ao Antonio Banderas que, num breve excerto, interpreta um magnata de Hollywood e dá uma festa repleta de luxo e de mulheres bonitas.

A constante demanda deste homem pelo novo e pelo “absoluto” transcreve-se automaticamente na sua roleta de mulheres, onde nenhuma delas o satisfaz nem se sente satisfeita ao seu lado por muito tempo, mesmo que as relações sejam intensas e arrebatadoras. Tão rapidamente ele se apaixona como se desapaixona, tanto se sente completo como no minuto a seguir se quebra a si próprio sem a ajuda de ninguém. Parece que somos forçados a vê-lo através de um prisma frustrante, em que nem ele se resolve nem nós podemos fazer nada para o ajudar. Está perdido, confuso, atravessa filosofias e teorias dependendo da mulher com quem está; mas nunca se encontra verdadeiramente. É vincada a ideia do momentâneo e do transitório, não só através das suas relações como também dos seus pensamentos, dos planos, da montagem, das conversas. Sente-se uma preocupação tão grande com o fugaz e com o efémero que se torna tudo muito superficial.

Como se isso não fosse suficiente, andamos ainda (ou melhor vagueamos) para trás e para a frente no tempo e acompanhamo-lo naquilo que parecem ser as memórias das relações-chave da sua vida, ou pelo menos aquilo que resta delas, mas nunca conseguimos sentir empatia pela sua apatia. Tudo se torna repetitivo e redundante. As tentativas de fazer chegar até nós qualquer réstia de sentimento acabam por cair por terra com tudo o que se passa ao mesmo tempo no ecrã, com as distrações. Em tom de brincadeira, um dos únicos momentos em que um elo de compaixão é criado connosco acaba por ser através de uma pequena montagem de cães dentro de água, que tentam ao máximo apanhar bolas de brincar, sem sucesso. Ora aí está uma metáfora que quase todos compreendemos.

Não quero ser mal interpretada, mas Cavaleiro de Copas tem tanta coisa que lhe falta quase tudo. Para além da constante comparação com o tarot (não só pelo título mas ainda pelos subtítulos dos capítulos que acompanham a história de uma forma, admito, interessante), existe a permanente justaposição com o Hino da Pérola em voz-off, narrada pelo seu pai, que juntamente com todas as outras voz-off e os restantes estímulos metafóricos com que somos bombardeados acaba por se tornar demasiado. Somos lembrados “da pérola” constantemente, como se fôssemos burros, vemos os subtítulos passar e pensamos “e então?”, assistirmos à entrada e saída de pessoas da sua vida e acabamos por já nem sentir grande coisa em relação a elas.

Considero Terrence Malick um dos realizadores mais importantes da história actual, e isto não muda nada, mas de certa forma sinto que estou a ver a sua própria crise de meia-idade, o seu auto-desuso. Parece que o seu objectivo nesta fase da sua vida passa por não se censurar ou filtrar minimamente, e está no seu direito, mas quero acreditar que tudo é propositado da sua parte e que isto não passa de uma brincadeira, que um dia vou entrar numa sala de cinema e sair de lá completamente arrebatada com um filme seu.

Até lá: begin.

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