CRÍTICA: Love, de Gaspar Noé

Sexo duro, amor cru.

Gaspar Noé gosta de provocar. A obra do realizador argentino respira de uma atitude extremista no que toca à sua reação pela audiência, fazendo cócegas aos sentidos como um qualquer tio creepy numa festa de família. Irreversible (2002) chocou com a violência, Enter the Void (2009) violou a nossa perceção da realidade, e agora, com Love, Noé aborda a sexualidade humana sem papas na língua.

Língua essa que passa 90% do filme enfiada nos genitais dos seus protagonistas.

A narrativa de Love, apesar de contada de forma não-linear, é bastante simples: Murphy (Karl Glusman), um estudante de cinema, vê-se preso na sua atual relação com Omi (Klara Kristin), cuidando dela e da filha de ambos ao mesmo tempo que se lembra dos momentos passados com Electra (Aomi Muyock), a ex-namorada que deixou escapar.

Filmes pornográficos há muitos, filmes pornográficos como Love há poucos.

Grande parte do filme desenrola-se nas camas, casas de banho e corredores que Murphy partilha com Omi ou Electra (e com Omi e Electra ao mesmo tempo), em cenas compridas e explícitas, musicadas ao som de gemidos e Funkadelic num misto de psicadelia kubrickiana e honestidade crua. Noé filma estes momentos com uma neutralidade de género louvável: enquanto filmes como Blue is the Warmest Color (2013) impingiam na nudez do corpo feminino um olhar indiscriminadamente masculino, Love prima por simplesmente demonstrar a crueza dos atos sexuais daqueles jovens como um espetador passivo. Os planos delongam-se no corpo nu dos portagonistas, é certo, mas não privilegiam um em detrimento do outro.

A icónica cena da ménage à trois é um claro exemplo da perspetiva neutra de Noé. Não há sensualidade ou pornografia, apenas caos sexual de três corpos a amassarem-se como se não estivessem a ser observados por ninguém. Apesar das relações serem, na sua base, heterossexuais, o olhar da câmara de Love não é propriamente heteronormativo, o que acaba por se refletir na imersão do espetador naquele momento. É refrescante, diferente, e surpreendentemente emocional.

Principalmente porque o filme acaba por se perder nos meandros da relação entre Murphy e Electra, um típico on-again/off-again que só chateia o quanto mais se estende sem uma real conclusão. Love podia ter sobrevivido a uns valentes cortes durante a pós-produção, porque com a sua atual duração a bater nos 140 minutos, torna-se simplesmente demasiado. Não ajuda o facto da interpretação dos atores principais ser fraquíssima: Murphy não passa de um espetro de um homem, sem grande agência na narrativa, e Electra roça no histérico irritante mais vezes do que o que devia.

É esta auto-indulgência por parte de Noé que arruína o auge emocional que Love almeja alcançar. O realizador tenta justificar-se através de um comentário pseudo-metatextual que corre ao longo do filme, ao incluir-se a si próprio na narrativa (Gaspar é o nome do bebé de Murphy, Noé o do ex-namorado de Electra). Até Murphy regurgita sem contexto as motivações de Noé no que toca aos seus ideais de cinema, paixão e sexo; parece quase amadora e masturbatória a forma como o realizador integra a sua voz no filme.

A verdade é que o sentimentalismo sexual que Noé namora é-lhe impossível de atingir, já que as suas personagens se limitam ao desenvolvimento insubstancial que o guião lhes dá. Aliás, as cenas de sexo acabam por aprofundar mais as personalidades de Murphy e Electra do que as suas conversas: nenhum deles tem nada de verdadeiramente interessante para dizer, alunos de uma filosofia de vida demasiado básica para acrescentar algo à história. No entanto, ninguém teria os colhões que Noé tem para retratar a carnalidade e sexualidade destes jovens da maneira que Love o faz. O sexo é cru, realista e sem igual neste tipo de cinema erótico. Já a paixão propriamente dita fica aquém do que se propõe, restringindo-se ao histerismo adolescente com demasiada facilidade.

Love tem muito para dizer, mesmo que nem sempre o consiga fazer da melhor maneira. Curiosamente, espelha muito da vida real. Durante o sexo é a melhor experiência de sempre, mas depois disso arrasta-se pelo chão sem grande dignidade.

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