CRÍTICA: The Conjuring 2, de James Wan

Aquela desilusão entusiasmante.

Acredito que o Terror é o género que melhor uso faz das salas de cinema e dos bons sistemas de som, uma vez que é praticamente impossível criar um ambiente desconcertante sem a ajuda de pequenos efeitos sonoros, quase imperceptíveis, numa sala de estar. Adoro ir ver blockbusters deste calibre quando estão mesmo bem feitos, e apesar de sair muitas vezes desiludida, nunca se sabe quando pode surgir um filme verdadeiramente assustador.

Foi o que aconteceu com The Conjuring (2013). A sua ante-estreia esgotadíssima no MOTELx antevia um sucesso estrondoso, e isso acabou por se comprovar justo e mais do que merecido, uma vez que há muito tempo não se via nada assim nas salas de cinema convencionais. James Wan comprovara-se um mestre da técnica, de inovação e criatividade. Portanto, assim que foi anunciada a sequela para essa sua obra, a internet explodiu.

O enredo de The Conjuring 2, na realidade, não foi seguido por Ed e Lorraine Warren em nenhum momento do seu processo, mas pelo bem desta crítica vamos ignorar isso por momentos, até porque não é relevante para a história. Para além disso, aviso que a comparação constante com o primeiro filme foi-me inevitável.

Estamos no final dos anos ‘70, onde desta vez seguimos uma família inglesa do Norte de Londres, atormentada por uma alma penada que havia morrido naquela casa muitos anos antes. Ed e Lorraine, acabadinhos de sair do caso Amytiville, aceitam com relutância viajar até Londres a pedido da Igreja Católica, para observar a família Hodgson com a finalidade de declarar o caso como real ou falso. Aquando a sua chegada, Lorraine não sente qualquer presença do submundo, e visto ser esse o seu dom principal, o casal fica hesitante com a veracidade dos relatos por parte de Janet, a pré-adolescente de 11 anos que acaba por ser centro da maior parte da actividade paranormal.

A essência James Wan entra em evidência logo a partir dos primeiros instantes. Grande parte da primeira sequência em Amytiville, por exemplo, faz lembrar a descida para o Inferno de Insidious (2011), e embora essa auto-referência não seja algo necessariamente mau, ajuda a criar uma impressão de familiaridade constante pelas mais de 2 horas de filme.

Assim, não temos a mesma sensação do desconhecido e do inesperado que The Conjuring (2013) nos ofereceu. Mesmo as suas entidades paranormais parecem familiares, como uma freira feia muito semelhante às figuras mais idosas com que James Wan já nos brindou, ou uma ideia de demónio superior que nos transporta para a maioria dos seus filmes anteriores.

Apesar de tudo, The Conjuring 2 continua a ser um filme tenso e assustador; como sempre, Wan brinca com nosso medo de forma realmente desconcertante. Se olharmos para além do número exagerado de entidades paranormais que nos são dadas em duas horas, conseguimos encontrar a sua verdadeira essência como realizador e contador de histórias de terror: os movimentos de câmara tensos e apertados, os sustos criativos e genuinamente inesperados, a banda sonora intensa e sufocante e, claro, as criaturas arrepiantes por natureza.

Enquanto toda a primeira parte se desenrola, somos brindados demasiadas vezes com aparições a percorrer a casa dos Warrens, sem qualquer tipo de ligação aparente com o núcleo central do enredo; quase do mesmo modo que a boneca Anabelle surgia subtilmente no decorrer de algumas cenas do primeiro. A diferença, porém, jaz precisamente na palavra subtil, que é o que não acontece neste caso, tendo um resultado ensurdecedor de conteúdo e onde acabamos por sentir que estamos perante duas ou três histórias completamente distintas, unidas somente pelo bem do acaso.

The Conjuring 2 está repleto de momentos chatos e repetitivos, como a insistência aborrecida nas frases “Esta é a minha casa! Vão embora!”, ou a obsessão desnecessária por um cadeirão no canto da sala. A ligação incoerente entre os acontecimentos que se relatam e a figura da cruz, por exemplo, parece-me completamente descabida, uma vez que em nenhuma circunstância a assombração parece estar ligada à fé cristã.

Em comparação directa com o seu antecessor, este The Conjuring acaba por não ser tão sólido. Faltam-lhe as sequências horrorizantes e traumatizantes — como por exemplo o jogo das palmas na cave — , as personagens empáticas e calorosas; falta-lhe coesão. É um daqueles casos em que a sequela, apesar das suas muitas qualidades, fica bastante aquém do seu antecessor e das nossas expectativas. Apesar disso, temos que saber ultrapassar estes preconceitos e ir ao cinema na mesma, porque é lá que se devem ver os filmes deste género. Perdi a conta das vezes em que tapei os ouvidos por segundos, ou em que a constante escuridão me incomodava.

Se estão com a maior antecipação do mundo, então o melhor é respirarem fundo e baixarem um pouco o nível a isso, ou arriscam-se à desilusão. No entanto, considero esta sequela uma boa experiência, e se tiverem a sorte de não apanhar adolescentes a comer pipocas e a sorver coca-cola ao vosso lado, até podem sair da sala ligeiramente abananados.