Shane Black e A Fúria do Último Escuteiro (1991)

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Shane Black foi o primeiro guionista de Hollywood a vender um argumento por um milhão de dólares, com A Fúria do Último Escuteiro (1991). Tirando talvez as obras em massa de mestres como Steven Spielberg e Ridley Scott, a indústria cinematográfica nunca havia dado muita importância monetária aos guiões dos seus blockbusters, produzidos mais pelo seu espetáculo visual do que pelo enredo em si. Apesar disso, Shane Black catapultou-se para o estrelato de Hollywood, detendo apenas um sucesso real no seu bolso: o primeiro Arma Mortífera.

A Fúria do Último Escuteiro segue as pisadas desse filme, reunindo uma dupla de protagonistas relutantes que se vêm forçados a investigar um homicídio de uma vítima feminina. Bruce Willis protagoniza Joe Hallenbeck, um detetive privado, relutantemente emparelhado com Jimmy Dix (Damon Wayans, já lá vamos), um drogado ex-futebolista, na procura dos assassinos da sua namorada.

Willis é a escolha perfeita para um anti-herói idealizado por Shane Black: cínico, frustrado, com uma aparência gasta e desajeitada, mas detentor de um carisma ímpar e um timing cómico capaz de sacar um sorriso dos mais carrancudos. Não é por acaso que foi a primeira escolha para protagonizar Riggs em Arma Mortífera, mas é em A Fúria do Último Escuteiro que finalmente se junta a Black para dar vida a uma personagem suicida/”rio-me na face da morte” como Joe Hallenbeck.

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Já Damon Wayans é uma bosta. Uma cara bonita sem personalidade, um “ator” sem vontade. Para além de Wayans não ter química nenhuma com os seus colegas, também não consegue berrar o diálogo escrito por Black em condições, limitando-se a rastejar de cena para cena com uma tentativa falhada de interpretação. Jimmy Dix é o sidekick do nosso protagonista, uma foil que nas mãos de atores como Danny Glover ou Val Kilmer (que viria a protagonizar na perfeição um arquétipo semelhante em Kiss Kiss Bang Bang (2005)) respira o charme frustrado dos tiques de Shane Black. Em Arma Mortífera, não há Riggs sem Murtaugh. Em A Fúria do Último Escuteiro, o Dix de Wayans é uma personagem tão irritante e inútil, que só enfatiza a excelente interpretação de Bruce Willis e o anti-herói tridimensional que é Hallenbeck.

Infelizmente, Wayans é só uma pequena fração de tudo o que correu mal com este filme, que só se tornou em algo coerente e digerível para as audiências na mesa de montagem. Como muito dos argumentos de Black na era de ’90, o guião de A Fúria do Último Escuteiro foi completamente trucidado pelos produtores. Joel Silver (o produtor) tinha uma visão completamente diferente da de Tony Scott (o realizador), e o filme sofreu por isso.

Esta balbúrdia de bastidores levou a cenas a serem completamente reescritas; é dito que Silver e Willis (o ator também teve mão em muita da trapalhada que se deu) obrigaram Scott a filmar algumas cenas que este se recusava a filmar por motivos criativos. Foram também retalhadas as backstories de algumas personagens, e uma relação de puro ódio desenvolveu-se no set de rodagens do filme. Tal massacre do enredo nota-se, por exemplo, na motivação de Hallenbeck para derrubar o vilão do filme (que acabamos por ficar sem saber o que lhe acontece): ele salvou a vida do presidente, mas depois foi trabalhar para um senador menor que acabou com a sua carreira? Salvar o presidente não lhe daria carta branca para o que quer que acontecesse? Delatar a misoginia do senador não terminaria com a carreira política deste? Afinal, o que aconteceu?!

No fim, A Fúria do Último Escuteiro acaba por ser mais um exemplo de como a indústria de Hollywood é um antro retrógrado para mentes criativas como a de Shane Black. Bruce Willis é fantástico no papel principal, o diálogo explosivo e cómico de Black ganha muitas gargalhadas, e a ação realizada por Tony Scott é vibrante como a performance terrível de Damon Wayans não consegue ser.

O lado positivo: Black fez um milhão de dólares com o filme. Oxalá fossem todos assim.

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