Shane Black e Arma Mortífera 2 (1989)

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Riggs e Murtaugh estão de volta em Arma Mortífera 2, com o dobro da piada, o dobro da ação e… o dobro da qualidade??

Infelizmente, não. Aquilo que mais distancia esta sequela da pérola original é o afastamento de Shane Black da produção do filme, visto o resto da equipa criativa manter-se praticamente inalterada: Joel Silver a produzir, Richard Donner na cadeira de realização, Mel Gibson e Danny Glover a partir cenário por tudo o que é sítio.

Por outro lado, Black ficou-se pelo infeliz crédito de “STORY BY”, que muitas vezes significa uma sentença da morte em Hollywood para aqueles argumentistas sem palavra na versão final do argumento, mas que de uma maneira ou outra influenciaram o seu curso narrativo. Tal foi o destino de Black, que viu as suas personagens e a sua história demolidas pela máquina trituradora de Hollywood, admoestado pelos produtores que não respeitaram a sua visão autoral em prol da money machine imparável de Los Angeles.

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Porque no guião original de Shane Black, Martin Riggs morria no fim. Conseguimos perceber isso pelas pequenas migalhas de pão que Black espalha pelo filme, como a backstory do detetive, o encontro com os assassinos da sua falecida mulher, e o clímax que transpira de redenção para uma personagem tão suicida quanto Riggs.

SPOILER ALERT: Riggs não morre Arma Mortífera 2. Nope. Os balázios que leva no focinho durante o confronto final com os vilões são só a brincar, uma ida ao hospital e fica tudo bem. Nada de especial. É uma pena, porque o filme carrega um peso emocional que, se tivesse sido levado a cabo, era capaz de cimentar Arma Mortífera 2 como uma das melhores sequelas que Hollywood já produziu.

Infelizmente, limita-se à diversão breve de tarde de domingo, pelo menos durante a maior parte do filme. Os antagonistas sul-africanos não são tão memoráveis (nem tão violentos) quanto os raptores do primeiro Arma Mortífera, e o par romântico de Riggs (protagonizado por Patsy Kensit, numa das piores interpretações que já vi), é um claro exemplo de uma personagem feminina que só existe com o simples propósito de aprofundar as motivações do nosso protagonista (e mal). Já para não falar do Leo Getz do Joe Pesci que, tirando umas boas piadas aqui e ali, roça demasiado no irritante. Okay-okay-okay? Okay Pesci, fecha a matraca.

Apesar de tudo isto, é em Arma Mortífera 2 que encontramos a melhor sequência de toda a série: a bomba na casa de banho de Murtaugh. Este momento (claramente saído da mente macabra de Shane Black) encapsula o que melhor há nestes filmes: a dinâmica principal entre Riggs e Murtaugh, a sensibilidade hiper-realista e exagerada em que a ação se passa, e a comédia negra e original que tanto cativou audiências um pouco por todo o mundo. A série atingiu aqui o seu pináculo, e o facto da sequência acontecer durante a primeira metade do filme significa que tudo o resto é um desenrolar desinspirado de eventos sem sentido.

É verdade que a visão original de Shane Black teria terminado prematuramente as aventuras e desaventuras de Riggs e Murtaugh, mas também não há como negar que as duas sequelas que se seguiram (estas já sem qualquer envolvimento do argumentista) foram apenas esqueletos ambulantes a gozar-nos com o que podia ter sido.

Volta Shane Black, estás perdoado.

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