A realidade é pessimista?

Porque todos nós temos aqueles dias


Às vezes dá vontade de simplesmente desaparecer.

Você está caminhando pela rua, em um dia chuvoso, acompanhando o ritmo dos pingos que caem nas poças. Um monte de gente passa por você; indo, voltando, e você ali, no seu caminhar. Passa um, passa outro, e puf!, você simplesmente desapareceu.

De uma maneira menos brutal, você poderia pegar sua mala, sua cuia, suas coisas, tudo que você tem — ou simplesmente ignorar todas essas coisas e deixá-las para trás — , e sair por aí, sem rumo definido, decidido a encontrar um casebre no meio do nada onde possa se esconder pelo resto da vida.

Uma tia minha disse que percebia essa tendência esquisita na minha família: essa vontade besta de se esconder em algum lugar e não aparecer nunca mais. Me identifiquei com isso, querendo ou não.

Sempre me considerei uma pessoa altamente positiva. Uma pessoa alto-astral, alguém capaz de iluminar um ambiente e botar um sorriso no rosto do mais mal-humorado dos atendentes de caixa de supermercado. Acima de tudo, sempre me achei alguém otimista.

Esse mundo sempre me pareceu dividido entre esses dois tipos de pessoas. Otimistas, pessimistas. É uma divisão bem clara, como heróis e vilões de quadrinhos de super-heróis. Os heróis são otimistas, querem o melhor de todos sempre, impedem trens de caírem de penhascos e deixam todos felizes. Os vilões são pessimistas, aqueles caras de mal com a vida, que armam mil emboscadas para jogar trens de penhascos e só riem quando sua risada maligna é capaz de ecoar no ambiente.

Feliz ou infelizmente, não é assim que o mundo funciona.

A realidade é que existe esse terceiro elemento, esse maldito terceiro elemento, capaz de desequilibrar toda a dualidade inicial do otimismo e pessimismo. Quando descobri que existia o realismo, gentilmente forçado entre os dois extremos, fiquei não apenas confuso, mas irritado.

Será que é tão difícil assim as pessoas definirem uma posição? Será que ninguém é capaz de decidir se é mocinho ou se é vilão? Eu já tinha decidido, afinal de contas.

Bem, fato é que, conforme o tempo foi passando, fui observando, com o canto do olho, essa terceira categoria de pessoas. Antes de qualquer coisa, lançava esses olhares desconfiados a elas, duvidando de qualquer palavra que saísse de suas bocas. Como eu poderia definir se o que essa pessoa realista havia dito era bom ou ruim?

Um otimista diria “Eu adoro dias chuvosos”, e eu entenderia que essa pessoa realmente adora dias chuvosos. A mesma frase, dita por um pessimista, soaria irônica, sarcástica, claramente dita às avessas. E um realista? Ele gosta ou não de dias chuvosos?

A dualidade, entretanto, está sempre fadada à desgraça. Com crescente temor e prudência, conheci os personagens cinzas: aqueles que não são nem heróis, nem vilões. São personagens cujas características se mesclam e o tornam uma mistura dos dois extremos.

Se existe o preto e o branco, existe o cinza. Se existem otimistas e pessimistas, obrigatoriamente existem, também, os realistas. Pessoas que enxergam a vida através de olhares desprovidos de filtros: o alaranjado e vivo de um otimista; o azul e gelado de um pessimista. Pessoas que não deixam suas convicções atrapalharem a realidade, que não permitem que seus pensamentos turvem o que as coisas verdadeiramente são.

Acho que estou me tornando, lentamente, um realista.

Não acho que isso seja uma coisa ruim. Se achasse, certamente estaria sendo pessimista. Não. Acho que me tornar um realista seja apenas uma parte do que é se tornar um adulto propriamente dito. Adultos não veem o mundo através do olhar inocente e divertido de uma criança. Adultos veem o mundo do jeito que ele é.

O problema é que o mundo inteiro é cinza.

E, pior. O mundo não é cinza-claro. O mundo é cinza-escuro. O mundo dos adultos é escuro, tenebroso, frio e ardiloso. O mundo dos adultos é tenso e rígido, é repleto de todo tipo de armadilha e complicação, de todo tipo de problema e toda falta de solução.

O que significa que, de certo modo, eu sinto que estou me tornando um pessimista.

Realismo não deveria significar pessimismo. Mas a realidade não é fácil. O mundo real é muito mais complicado e cheio de problemas do que eu poderia imaginar, ainda que eu tenha zombado por muito tempo de todas as supostas dificuldades que ele contém. O que pode ser realmente difícil, o que pode ser realmente um problema?

Será que não é melhor nos enganarmos?

Tantas responsabilidades, tantas cobranças. Tantos problemas inventados, problemas desnecessários, que poderiam ser resolvidos com facilidade através de um sorriso ou de um pouco de generosidade ou compaixão. Eu zombei de todos esses problemas e, agora, estou aqui, reclamando deles.

Eu deveria estar fazendo isso? Ou quem faz isso são apenas aquelas pessoas pessimistas?

Talvez o melhor que eu possa fazer seja simplesmente abdicar de qualquer tipo de categorização. É o que eu já fiz com muitas outras questões, e o que eu deveria fazer agora, também. Quem sabe seja melhor simplesmente esquecer que existem otimistas, realistas, pessimistas. Pode ser que fazer isso seja exatamente o que eu preciso.

Não sei se eu quero acreditar que a realidade é pessimista, ainda que seja isso o que se mostra a mim todos os dias. São as notícias tenebrosas e de fazer os pelos da nuca se eriçarem; são as pessoas desrespeitosas e ignorantes que se espalham aos montes por todos os cantos de nosso planeta; são os comentários maliciosos que se difundem como vírus pelos mais diversos espaços da Internet. São as inúmeras possibilidades de fazer o mal que são aproveitadas. São as diversas oportunidades de fazer o bem que são descartadas. São as mentiras, o parecer-e-não-ser. São as múltiplas intenções escondidas em cada sorriso, em cada olhar, em cada face.

Pode ser que o mundo não me acompanhe. Mas para não soar pretensioso e me considerar melhor do que o mundo, vou dizer ao contrário: pode ser que eu é que não esteja acompanhando o mundo. Quem sabe seja tendência olhar tudo pelo lado ruim. Mas eu não quero. Não quero ver as coisas pelo lado ruim.

Quero poder acreditar que as pessoas são mesmo mais boas do que ruins, que as coisas são melhores do que aparentam ser, que há, sim, uma luz no fim do túnel e que todo “problema” desse mundo contemporâneo merece ser rido até desaparecer, puf!. Será que tem alguma coisa com a qual nós devamos realmente nos preocuparmos, ou nossa passagem por aqui seja tão efêmera que não valha a pena nos incomodarmos com esse tipo de coisa?

Pode até ser que eu esteja me enganando, que eu esteja querendo usar aquele filtro colorido e vivo de otimista.

Só sei que prefiro me enganar a ver essa realidade pessimista na qual estamos imersos. Assim, espero que eu consiga perceber que o mais cinza dos dias não passa de um dia um pouco menos colorido, mas tão vibrante quanto qualquer outro.

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Para conhecer alguns personagens cinzas, você pode ler meu livro, “Deuses e Feras”, de graça. Baixe-o na Amazon(formato .mobi) ou na Kobo (formato .epub). Se puder, compartilhe-o e faça com que cada vez mais pessoas possam lê-lo! :)

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