Da vergonha ao orgulho

Por Daniela Andrade

Assumir-se como uma pessoa trans ou travesti é, antes de tudo, enfrentar uma sociedade transfóbica que está o tempo todo demonstrando das mais variadas e violentas formas possíveis o quanto detesta a população de travestis, transexuais e demais pessoas trans.

Essas agressões são cotidianamente propagadas das formas mais sutis e veladas às mais escancaradas, sejam elas verbais, físicas, psicológicas ou institucionais; sendo assim, é um tanto quanto paradoxal falar em visibilidade para as pessoas trans e travestis, uma vez que já se trata de uma população hipervisível quando a discriminação é colocada em prática, seja patologizando, ridicularizando, exotificando ou criminalizando essas pessoas.

Porém, falar em visibilidade trans e travesti é, ou deveria ser, lembrar dos direitos esquecidos, violados ou inexistentes a que essas pessoas estão fadadas desde que o Brasil existe.

E como nunca e em nenhum momento da história direitos caíram do céu ou foram entregues de mãos beijadas a quaisquer grupos discriminados, é preciso que os sujeitos políticos das disputas sociais apareçam e exibam o orgulho de ser quem se é ante o brado incessante e enraizado que dita que, por exemplo, a travestilidade e a transexualidade traduzem um crime, o qual deve ser punido das piores e mais violentas formas — e as mortes de travestis e transexuais, geralmente se materializam de forma extremamente cruéis e perversas, com muitos tiros e muitas facadas, o caixão precisa ir lacrado para se lembrar a sociedade o crime que se é ser travesti ou transexual — um crime que a sociedade transfóbica não perdoa.

Com todo esse cenário posto é preciso reafirmarmos diariamente o orgulho de ser travesti, transexual ou transgênero; o orgulho de existir e resistir perante todas as dificuldades, injustiças e violências a que as pessoas que possuem uma identidade de gênero divergente da maioria predominante precisam enfrentar.

É preciso ressignificarmos os corpos trans que devem deixar de serem sempre vistos como os corpos a serem adequados ou readequados (à norma cisgênera) para os corpos possíveis. É preciso ressignificarmos o ser trans ou travesti para que ninguém desses grupos precise esconder suas identidades de gênero, deseje tanto ter o corpo cisgênero, a identidade cisgênera, a vida cisgênera. Para que as pessoas travestis ou trans não caiam na cantilena propagada à exaustão de que são aquelas pessoas que nasceram nos corpos errados, como se só os corpos cisgêneros fossem os certos.

Isso só será conseguido com a voz de cada pessoa trans ou travesti, com a existência e resistência de cada pessoa desses grupos; mas também com a participação ativa dos nossos aliados, pois ninguém precisa ou precisaria ser trans ou travesti para lutar por um mundo mais justo também para as pessoas trans ou travestis, um mundo em que ser travesti, transexual ou transgênero não signifique vergonha, não traduza medo ou desesperança; outrossim simbolize toda uma classe de pessoas que, entre milhares de outras características, também são trans ou travestis.

Ser trans ou travesti não deveria significar nada além de ter uma identidade de gênero divergente da cisgênera, e uma pessoa trans ou travesti pode ter qualquer outra característica, porém, dentro do contexto atual, em que o Brasil por exemplo é o país campeão mundial de assassinato de travestis e transexuais, país esse que a expectativa de vida dessas pessoas é em torno dos 35 anos, em que resta à arrasadora maioria dessas pessoas a prostituição, o desemprego ou os subempregos, é preciso todos os dias e o tempo todo orgulhar-se de ser travesti ou trans, e mostrar para toda a sociedade que é sim possível ser travesti ou trans e ter muitas qualidades, muitos talentos, muitas perspectivas e contribuir de forma benéfica de muitas maneiras diferentes para a sociedade.

É preciso rompermos a barreira da vergonha e do medo e assumirmos a posição de sujeitos de direito, visíveis como pessoas ativas, produtivas e necessárias à diversidade social.

Pois que nos façamos visíveis no dia 29 de janeiro, no mês de janeiro e em todos os outros meses; que a sociedade lembre-se que existimos para além dos noticiários policialescos e do texto patologizador, que resistimos para além das cotidianas manifestações de desprezo imputadas a nós. Que não nos calaremos, não mais.

Que o nosso orgulho ecoe, que o nosso orgulho de nos afirmarmos trans ou travestis vença o ódio transfóbico, a discriminação sistemática e a expulsão de nossos pares de dentro da sociedade.

29 de janeiro é também dia de luta, mais um dia de luta entre os demais dias do ano.

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* cisgênero é a pessoa que se reconhece com o mesmo gênero que lhe foi registrado quando nasceu, sendo cis a abreviação, um prefixo do latim que significa “do mesmo lado”. Dessa forma, o homem cis ou cisgênero é aquela pessoa nascida e designada homem e que se reconhece homem; a mulher cisgênera ou cis é aquela pessoa nascida e designada mulher e que se reconhece mulher.