Incluindo pessoas surdas em um ambiente ágil

Artigo colaborativo de Pedro Henrique Silva, Josi Gama, Ivan Diesel, Felipe de Morais, Denis Costa, Guilherme Dias, Deise Schroeter e Gustavo di Domenico.

O manifesto ágil foi escrito em 2001 e marcou o início de uma nova maneira de desenvolver software, que tem como um de seus fundamentos “valorizar indivíduos e interações mais que processos e ferramentas”. Esse princípio é bastante alinhado com as políticas de inclusão que defendemos e praticamos na ThoughtWorks, já que buscamos construir um ambiente seguro em que todas as pessoas se sintam bem-vindas.

Em Porto Alegre, temos um colega surdo, o Ivan, que é desenvolvedor e professor de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). O Ivan é casado e tem duas filhas que são ouvintes, está na Thoughtworks há mais de um ano e foi aqui que ele teve sua primeira experiência com desenvolvimento ágil.

Nesse artigo, iremos falar um pouco sobre como tem sido a experiência de inclusão de pessoas surdas em um ambiente ágil e sobre como essa experiência tem ajudado tanto no desenvolvimento individual quanto nas interações do time como um todo.

“Em outras empresas, eu sempre trabalhei sozinho, a conversa sempre era escrita por chat e basicamente eu só recebia as tarefas para serem feitas. Na Thoughtworks é diferente, porque todo mundo está interessado em ouvir e aprender.” — Ivan Diesel

Em um time, temos vários momentos em que trabalhamos juntos, como o pareamento, as reuniões, que tiveram grande importância para a evolução da comunicação. Algumas outras iniciativas também ajudaram na construção do relacionamento.

PAREAMENTO

Pareamento por si só pode ser um desafio para pessoas que falam a mesma língua. Agora imagine para pessoas que falam línguas diferentes. LIBRAS ou Sign Language (Língua de Sinais) é a primeira língua das pessoas surdas, é o idioma com o qual se alfabetizam, sendo o português ou inglês, por exemplo, línguas secundárias. Tendo isso em mente e somando o fato de que estamos aprendendo LIBRAS, escolhemos utilizar a comunicação total (LIBRAS, oral e escrita).

Quando temos assuntos mais técnicos a ser tratado no pareamento, geralmente tentamos dar algum exemplo mais prático ou até mesmo fazer desenhos e fluxogramas, já que muitas vezes a explicação visual é mais eficiente para a compreensão de um problema.

Quando uma pessoa pareia com o Ivan e ainda não se sente muito confortável na comunicação, utilizamos uma técnica que o nosso time chama de “tri-pair”, na qual participam a dupla de desenvolvedores e o observador, uma pessoa que sintetiza e registra por escrito o tudo que está sendo feito no pareamento.

“Minha capacidade de comunicação melhorou muito com a experiência do pareamento e o aprendizado de LIBRAS.” — Felipe de Morais
Felipe de Morais, Ivan Diesel e Pedro Silva trabalhando juntos

REUNIÕES

No dia a dia trabalhando com uma pessoa surda, aprendemos a entender melhor a língua de sinais, mas isso pode levar algum tempo. Em reuniões, na maioria das vezes, temos um intérprete de LIBRAS que faz a comunicação entre a pessoa surda e os ouvintes, assim o ritmo de comunicação torna-se mais fluído e possíveis ambiguidades são evitadas.

Durante as reuniões de stand-up, por exemplo, uma ideia inicial que funcionou muito bem foi transcrever o que estava sendo falado com o apoio de ferramentas de textos, para que o Ivan pudesse acompanhar com mais facilidade. Para auxiliar a transcrição, orientamos o time para falar devagar e respeitar a vez do próximo. Atualmente, com a evolução do time na prática da língua de sinais nos comunicamos por LIBRAS nas stand-ups, aumentando as possibilidades de acessibilidade e trazendo mais inclusão para o time.

Comunicação em LIBRAS na stand-up do time

INICIATIVAS

No começo, utilizávamos a intérprete para todas as nossas reuniões. Essa era a única forma de nos comunicarmos com o Ivan. Mas percebemos que não poder nos comunicarmos quando a intérprete não estava por perto era um problema. Então evoluímos para utilizar mais comunicação escrita mesmo nas reuniões, usando o que estivesse próximo: guardanapo, quadro, papel ou computador.

Também notamos que durante as stand-ups o Ivan se comunicava bem rápido em LIBRAS, por isso as pessoas não entendiam muito bem. Dessa forma, ele começou a sinalizar mais devagar para que todos pudessem acompanhar. Entretanto, devido à dificuldade que as pessoas sentiam de se expressar em LIBRAS continuamos usando a linguagem oral, com alguém escrevendo e o Ivan sinalizando.

Com o tempo nós começamos a aprender os sinais mais básicos de LIBRAS, e a usar os sinais que criávamos para o nosso contexto específico. Um problema comum era a dificuldade de referenciar as pessoas do time, pois elas não tinham sinais para serem representadas. Na cultura surda as pessoas têm sinais específicos que simbolizam cada uma, então realizamos o ‘batismo’ dos membros do time, para facilitar as interações.

O passo seguinte foi praticar LIBRAS durante as reuniões e os pareamentos, através da comunicação total, que se caracteriza pelo uso simultâneo da língua oral e de sinais.

Outra iniciativa que ajudou no avanço com a língua de sinais, foi a promoção do curso de LIBRAS ministrado pelo próprio Ivan.

Através dessas iniciativas, passamos a usar cada vez menos o recurso da escrita e passamos a sinalizar em reuniões, pareamento e até conversas informais.

Os ganhos profissionais foram de ter uma comunicação mais fluída, como fazer a inclusão de uma pessoa PCD no time, como de fato trabalhar com essas dificuldade de comunicação, e os ganhos pessoais foram aprender a se comunicar em LIBRAS, se colocar no lugar do outro e saber que todos temos nossos limites e desafios de comunicação. — Josi Gama
Aula de LIBRAS com o professor Ivan

Começar a trabalhar com o Ivan em um time ágil não foi fácil e trouxe diversos desafios para o desenvolvimento de um projeto, pois tivemos que adaptar diversas dinâmicas ágeis e aprender novas formas de comunicação. Mas foi gratificante perceber a evolução de cada um ao lidar com esse desafio que é a diferença de línguas dentro do time.

Incluir o Ivan nos processos ágeis foi muito importante, pois nos levou a pensar em novas estratégias de comunicação, quebrando barreiras de comunicação e nos tirando da nossa zona de conforto.

O Ivan, como primeiro funcionário surdo contratado pela ThoughtWorks no Brasil, foi desafiado a estar em um time de desenvolvimento ágil e encontrou um ambiente de inclusão junto com outros colegas, se sentindo verdadeiramente parte da TW.

Não tenha medo de incluir, você terá a oportunidade de aprender mais sobre uma cultura diferente da sua, além de conhecer diferentes estratégias que trazem crescimento em uma perspectiva não só profissional, mas também pessoal.

Membros do time sinalizando as representações de nomes criadas para cada um