Capítulo 23

Uma lição para a professora


Depois de alguns meses da morte do meu pai, eu, algumas vezes, me sentia especial. Eu via que as pessoas me admiravam pela minha força e a maneira como estava enfrentando a situação. Mas, sem querer, ou por querer, eu acabava me vitimizando. E isso estava virando um hábito. Até o dia daquela aula.

Eu já estava atrasada para o curso jornalismo e não tinha conseguido preparar direito a aula daquele dia. Estava ensinando os gêneros do jornalismo para os alunos do primeiro ano. Enquanto me apressava, pensava em como estruturaria o exercício daquela semana.

Resolvi que pediria que eles se projetassem 30 anos no futuro, e escrevessem um perfil de si próprios. Seria um bom exercício de texto autobiográfico e uma maneira deles refletirem sobre o que queriam para o futuro.

Eles se empolgaram com a ideia e no fim da aula levei 30 redações para casa de jovens entre 18 e 25 alunos de diferentes províncias do país. Resolvi ler os exercícios antes de ir para cama. Quando comecei, não consegui parar. E também não consegui dormir.


“Augusto ouvira um estrondo. Em seguida o silêncio e um leve pííííí que ficou zunindo no seu ouvido por alguns instantes. Assim que se recuperou, correu na direção de onde viera o barulho. Agora começava a ouvir outro ruído. Eram os gritos desesperados de seu irmão mais velho implorando por ajuda. Seu irmão pisara numa mina terrestre, o que lhe custaria uma perna pro resto da vida. Augusto tinha apenas 6 anos quando presenciou esta cena que marcou sua infância.”

Conforme ia lendo os textos, meu coração batia mais rápido e, às vezes, me faltava o ar. Eu sabia que a maioria dos meus alunos tinha se esforçado demais na vida para conseguir estar ali, estudando na universidade ou na escola técnica, e sempre os respeitei muito por isso. Mas jamais imaginara que o passado deles fosse tão carregado.

“A imagem do pai transpirando na cama, sem dizer coisa com coisa e rogar por qualquer remédio que acabasse com sua dor ficou marcada na sua memória. Foram três dias agonizando naquele quarto quente em que Belmiro escutava seus berros e espiava pelo vão da porta o pai morrendo aos pouquinhos. ‘Foi a malária que levou seu pai, meu querido’, lhe dissera a mãe, depois que seu pai parou de se mexer e implorar por um socorro que ficava há muitos quilômetros de distância do vilarejo que vivia e nunca chegou.”

As histórias continuavam e eu sentia ainda mais respeito, admiração e inspiração por cada um daqueles estudantes. E sentia também vergonha. Vergonha de mim mesma. Depois da morte do meu pai, eu passei a me vitimizar. Sentia pena de mim mesma. Me achava uma coitada por ter perdido meu pai repentinamente longe do Brasil.

“Depois que saquearam sua vila, viu sua mãe ser violentada e, em seguida, executada. Seu pai, nunca mais viu. Desde então foi criado por um tio, irmão de seu pai, que se responsabilizou por educá-lo. Não foi fácil, pois além de enfrentar cedo a dor de se tornar órfão, ainda teve que enfrentar a esposa do tio, que sempre que podia o maltratava.”

Não tinha uma história sequer que não trouxesse um acontecimento trágico e uma superação. Mesmo sem terem escrito isso em seus relatos, se meus estudantes estavam em sala de aula, é porque de alguma maneira haviam superado os traumas e obstáculos que a vida lhes tinha impostos.

Isso fez eu olhar para mim mesma de uma maneira completamente diferente. A cada texto, meu próprio compadecimento diminuía, meu sofrimento, aquele sofrimento que a gente escolhe se quer sentir ou não, ficava menor. Até que, ao ler o último deles, eu finalmente percebi que minha história não era especial, que eu não era especial.

Não tinha nada de extraordinário na minha história. Poderia me orgulhar da maneira como decidi encarar a situação, mas aquele exercício em sala de aula, fez eu enxergar tudo diferente. E seus sonhos, o futuro, no final, nada mais eram do que aquilo que todos querem: amor, saúde, família e sucesso profissional. Foi uma verdadeira lição que me ensinaram naquela noite.

“Belmiro, depois de completar seus estudos na escola secundária, conseguiu entrar para a Escola de Jornalismo. Se formou e estagiou na TV Pública de Moçambique, local em que conheceu sua futura esposa. Ali cresceu profissionalmente, trabalhando duro e fazendo um trabalho ético. Depois de quinze anos de casa, já com três filhos, conseguiu seu próprio programa de TV, onde debate os problemas e soluções enfrentados pela juventude moçambicana.”