A vida dos outros

A Garota Dinamarquesa (2015), Tom Hooper. A Garota Dinamarquesa tem o mérito de nos fazer ver na intimidade o que acontece quando a construção do gênero é um aspecto fundamental na subjetividade da vida do outro, e como o gênero faz-se ao modo da tão poderosa ideia de Beauvoir: não se nasce, torna-se.

Este não é um texto sobre o delicado filme alemão no qual um agente da Stasi acompanha por meio de escutas clandestinas a vida de um casal de artistas críticos da antiga RDA (República Democrática Alemã). Dele eu roubei o título. E quem me dera, com sorte, alguma delicadeza. Como na sequência em que o tal agente escuta sozinho no seu minúsculo QG de aparelhagem moderna a Sonata para um homem bom, de Beethoven, interpretada ao piano de casa por um dos artistas investigados, e chora. “A arte tem dessas coisas”, ouvi no final da sessão, na saída do cinema, de um amigo que tentava quebrar minha mudez absoluta, na época do filme, em 2008. Eu respondi de imediato qualquer coisa como: a filosofia também tem dessas coisas. Fiquemos aqui, portanto, com o título.

A vida dos outros é fascinante. Embora seja verdade que em Filosofia ao estudarmos profundamente os conceitos e as suas razões nos distanciamos um pouco da vida dos filósofos. Dizem que Heidegger ao iniciar uma aula sobre qualquer filósofo, a respeito da biografia do escolhido, dizia o nome, data de nascimento e de morte. E então embarcava na discussão conceitual. E de lá não saia mais. Mas é verdade também que uma boa fofoca intelectual pode nos lançar não sem prazer aos conceitos. Por exemplo, saber que Platão ao longo da vida nunca deixou de tentar implantar sua República. Viajou três vezes para Siracusa com isso na cabeça. Na primeira vez se desentendeu com o rei e retornou para Atenas vendido como escravo. Voltou uma segunda vez e foi preso. Voltou uma terceira vez, nada aconteceu. Fracassou em todas elas, comeu o pão que o diabo amassou. O filósofo idealista tentou materializar suas ideias. Isso pode ajudar a abrir certas janelas perceptivas para iniciar os estudos de uma Filosofia da História em Platão[1]. Outra boa é o nude de 1882, que circulou semanas atrás no Facebook, no qual Nietzsche aparece em seu ménage com Paul Rée e Lou Andreas-Salomé. Um ano antes da foto, Lou, essa mulher excepcional (que também arrebatou Rilke tempos depois), recusou um pedido de casamento do velho Nietzsche — que então topou provisoriamente o triângulo com ela e Paul. Há quem diga que Lou tinha mais sapioatração que desejo físico por Nietzsche. Afora o que se passava com o triângulo entre as quatro paredes, ou ao ar livre, o que sabemos com certeza é que essa tríplice aliança intelectual rendeu trabalho e estudos; intensa troca de cartas. De pensamentos. Quê problemas, ideias e conceitos de cada um dos três foram atravessados pelas questões do relacionamento vanguardista proposto por Lou? A vida dos outros é fascinante porque o outro é indispensável à minha existência, como sugere o existencialismo sartreano. É no convívio com os outros, personagens reais, conceituais, históricos ou narrativos, que encontramos mais facilmente a condição humana — ao invés da natureza humana. A existência precede a essência, o existencialismo é um humanismo.

Um atual bom filme sobre a vida dos outros é A Garota Dinamarquesa, baseado na extraordinária história de uma das primeiras pessoas a se submeter à cirurgia de mudança de sexo. Trata-se de Einar Wegener, pintor dinamarquês que se tornou Lili Elbe em 1930. A direção é do britânico Tom Hooper, de O Discurso do Rei (2010) e Os Miseráveis (2012). Como um bom filme britânico de fotografia asséptica, música insistente, e ademais dirigido por Hooper, não tem nada de especial — fora a boa história e as atuações. Einar é um pintor que vive confortavelmente em Copenhague com sua esposa Gerda, também pintora. Os dois são jovens e lindos. Tudo começa quando a modelo vivo de Gerda falta à sessão final da pintura de uma bailarina. Então Einar veste as meias-calças e as sapatilhas, e pousa para Gerda. Divertem-se. Einar sente-se bem. Gerda finaliza o trabalho. Noutro dia Einar deita-se com uma camisola de Gerda. Dois artistas na aurora do século XX (não há nada de errado no reino da Dinamarca): entendem-se e amam-se. Nas cenas adiante, os dois precisam ir a um baile, compromisso social. Einar não quer ir, Gerda insiste. Ela sugere que ele vá travestido. Einar topa e ambos criam Lili. Mais cenas adiante, Gerda começa a solicitar Einar vestido de Lili para novas pinturas, que começam a fazer sucesso. Einar começa a descobrir Lili como a condição da sua existência. O que parecia ser apenas uma aventura cross-dressing torna-se pouco a pouco a pioneira e absolutamente admirável luta pela causa transgênero. Para voltar a Sartre: a fim de obter uma verdade qualquer sobre mim, é necessário que eu passe pelo outro. O outro é indispensável ao conhecimento que eu tenho de mim. Gerda é para Einar essa potente entidade que podemos chamar de outro. É a partir da relação com Gerda que Lili julga ser o que é.

Mesmo o tema ainda sendo urgente depois de um século dessa história, a direção de Hooper evita os pontos de vista políticos e sociais da questão, prefere se concentrar na intimidade do casal. É como se olhássemos a todo o momento para a vida desses dois através do buraco da fechadura. Há cenas em que o casal discute egos, dinheiro, fama. Há uma sequência em que Gerda, ao voltar aflita para casa, fugindo de seu próprio vernissage (cujas obras baseiam-se em Lili), encontra Einar travestido com o jantar à mesa, e implora: “Quero meu marido de volta. Eu só queria um abraço dele”. Lili dolorosamente recusa trazer Einar à tona. Duas rápidas cenas adiante, Einar aparece sentado num sofá — calça social, camisa e suspensório, rosto ainda borrado de maquiagem, partitura vagarosa de pés e mãos, voz suave — olha para Gerda e diz: “Você acha que eu não sou capaz de fazer o que você deseja?”. A vida dessas duas pessoas é fascinante. Einar pensa sobre suicídio, mas não é capaz de matar Lili. Gerda, essa artista-fluxo, cuja subjetividade é uma tormenta, pode ser hetero, homo, bi, pansexual. Einar e Gerda assumem a causa de Lili e vão até as últimas consequências. Noutra cena, diante do médico, Einar, com voz branda e vagarosa, diz acreditar que há uma mulher dentro do seu corpo de homem, ao que Gerda arremata firme e delicada: “Eu também acredito nisso”.

Como o filme de Hooper não assume riscos de engajamento pela causa da transgeneridade, o melodrana ganha força. Gerda às vezes cai no pieguismo ao parecer uma mulher exclusivamente dedicada a cuidar da “doença” do marido, quando isso acontece, a artista libertária some, ou quando se enquadra em padrões sociais que nada combinam com sua subjetividade em construção: em outra cena, recusando um flerte, vocifera: “Eu ainda sou a mulher de Einar!”. Ao longo de todo o filme a busca de Einar por Lili é angustiante, e a de Gerda para manter a si mesma também. A espécie de angústia que eles vivem assemelha-se justamente a do existencialismo sartreano, aquela que se apresenta no momento da decisão diante das possibilidades da liberdade, carregada da responsabilidade frente aos outros — essa angústia faz parte das ações de Einar e Gerda. Mas, também como no existencialismo sartreano, nosso casal é otimista porque eles sabem que suas vidas estão em suas mãos e não veem esperança senão nas suas ações. O roteiro de A Garota Dinamarquesa não dá conta dessa complexidade existencial de Einar/Lili e de Gerda, o que segura as personagens são seus interpretes. Einar/Lili é o britânico Eddie Redmayne, ganhador do Oscar em 2015 pela interpretação de Stephen Hawking em A Teoria de Tudo. Gerda é a sueca Alice Vikander. Respectivamente indicados com essas atuações às estatuetas de Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante (Vikander ganhou a estatueta) no Oscar deste ano.

Lili Elbe desbancou na carne a máxima freudiana de que a anatomia é destino. Antes de Simone de Beauvoir escrever O Segundo Sexo, em 1949, Lili já encarava organicamente a noção de que o gênero depende do significado cultural que o corpo adquire na experiência vivida. O corpo adquire significado, constrói-se. Nada na natureza determina a ordem social do corpo. A Garota Dinamarquesa tem o mérito de nos fazer ver na intimidade o que acontece quando a construção do gênero é um aspecto fundamental na subjetividade da vida do outro, e como o gênero faz-se ao modo da tão poderosa ideia de Beauvoir: não se nasce, torna-se. Os atos de Lili nos aproximam de sua condição humana, suas razões, seus afetos, seu tempo histórico, suas condições materiais. Em tempos de patrulha do gênero alheio, deveríamos mirar na vida desbravadora de Lili e na da utopia de que “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”[2].

[1] A esse respeito, conferir o belo trabalho de PEREIRA FILHO, Gérson. Uma filosofia da história em Platão: o percurso da cidade platônica de As leis. São Paulo: Paulus, 2009.

[2] Paulo Leminsky, incenso fosse música.

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