Católicos hispânicos recebem apelo pessoal do papa sobre a alteração climática
Muito tempo antes de o Papa Francisco ter apelado aos fiéis que trabalhassem em prol da justiça ambiental, a água e a seca eram preocupações naturais para muitos dos habitantes da região ocidental dos EUA e os discípulos podem entusiasmar-se como nunca
Suzanne Goldenberg em Santa Fé, @suzyji
Sábado 27 de junho de 2015
Numa manhã de junho, o padre Rob Yaksich, que era guarda-florestal até ter encontrado a sua vocação na meia-idade como padre católico, presidiu a sua primeira Missa dominical na Basílica histórica de São Francisco em Santa Fé, no Novo México. Naquele dia, escolheu o poder de difundir a fé como tema do seu sermão.
“Pensem na semente da mostarda”, disse aos presentes para aquela missa em espanhol de manhã cedo. “Todos carregamos pequenas sementes de mostarda de fé nos nossos corações. Estas sementes de mostarda crescem e, se forem cuidadas, tornam-se uma excelente árvore”.
Aqui, as raízes da igreja católica são profundas. O Novo México é considerado um dos Estados mais católicos em termos culturais. A primeira missão franciscana permanente ocorre atualmente em Santa Fé, que está cercada pelas montanhas Sangre de Cristo.
O poder dos fiéis católicos será agora colocado duas vezes à prova, com a mensagem radical do Papa sobre a alteração climática na economia global e o seu apelo para a eliminação dos combustíveis fósseis de modo a proteger os pobres.
Cabe agora a Yaksich e outros espalhar a mensagem de emergência de Francisco e fazer com que a semente de ação plantada pelo papa cresça, até mesmo no Novo México, um estado rural pobre com um governador republicano preso pelas tenazes da indústria de petróleo e gás nos seus flancos no noroeste e sudeste. A indústria é responsável por cerca de um terço do fundo geral do Novo México.
Com os sacerdotes a falar do púlpito e das fileiras, os seus esforços nos que diz respeito à alteração climática poderiam, eventualmente, ajudar a construir a massa fundamental de apoio público necessário para levar os líderes políticos a tomar uma ação arrojada. Em contrapartida, o apoio do Papa à justiça climática − uma causa que ressoa fortemente perante uma geração mais jovem e uma população latina em rápido crescimento − poderia ajudar a impedir as pessoas de se afastar da igreja.
A questão, em ambos os casos, é se um Papa extremamente popular e progressista pode fazer a diferença face a uma ameaça existencial lenta.
Cerca de um quarto dos americanos identifica-se como católico, aproximadamente 80 milhões de pessoas, embora esses números estejam a cair. Há também os fracos primórdios de um realinhamento político, com aqueles que se identificam como católicos mudando sua lealdade do Partido Democrata para o Republicano.
No entanto, segundo o centro de investigação Pew, os católicos continuam a preocupar-se mais com a alteração climática do que os americanos em geral. Os católicos que se identificam como latinos ou hispânicos estão ainda mais preocupados: 82% dizem que a Terra está a aquecer devido à atividade humana, em comparação com 64% dos católicos brancos. Cerca de 63% dos católicos hispânicos dizem que a mudança climática é um problema muito grave, em comparação com 39% dos católicos brancos.
Na sua longa carta pastoral, que continha quase tantas referências à ciência como à escritura, o Papa classificou a alteração climática e a degradação do meio ambiente como uma consequência de um sistema capitalista global que tinha sido deixado para desencadear motins entre os pobres e o planeta. O nosso mundo acabara por se assemelhar a uma pilha de sujidade devido ao uso irresponsável dos recursos, lamentou. Ele instou os líderes a agir rapidamente para proteger a nossa “casa comum”.
O Papa terá uma segunda oportunidade para expor aqueles pontos de vista perante uma audiência norte-americana — e perante os republicanos que são abertamente hostis à ideia de um Papa a favor dos desfavorecidos e do clima –, no próximo mês de setembro, quando visitar as Nações Unidas e discursar numa sessão conjunta do Congresso.
O padre Yaksich, que passou quase 20 anos a ensinar às crianças a vida das aves na sua terra natal, no Novo México, enquanto biólogo de conservação, é um discípulo prestável do Papa.
“É uma questão muito pessoal para mim”, disse Yaksich, falando desde os degraus da igreja à medida que os paroquianos saíam, com um ou dois a pedir a sua bênção ou corrigir gentilmente o seu espanhol.
A água e a seca são uma preocupação natural para as pessoas no Novo México, disse. A queda de neve tardia e as chuvas fortes incomuns deste ano trouxeram algum alívio aos quatro anos de seca viciosa. Mas nessa altura, pelo menos uma cidade, Magdalena, no sudoeste de Albuquerque, já tinha ficado sem água e várias estavam à beira da catástrofe.
Era impossível não ver as ligações, disse Yaksich.
No domingo à tarde antes de o Papa entregar o seu tratado do clima, o recém-ordenado Arcebispo de Santa Fé, John Wester, juntou-se a uma tradição que remonta 303 anos: a procissão anual em homenagem a Diego De Vargas, que acabou com as revoltas do povo nativo americano no final do século XVII e restabeleceu o domínio colonial espanhol no Novo México.
As mulheres e as meninas, envoltas em camadas de folhos brancos, caminhavam pelas ruas da basílica até um cemitério histórico sob um calor fulminante.
Na manhã seguinte, Wester chegou para seu primeiro dia oficial de trabalho como Arcebispo de Santa Fé, na sede da arquidiocese situada no oeste do Rio Grande, em frente ao centro da cidade de Albuquerque.
Após a ostentação elaborada dos eventos de domingo, Wester admitiu que houve quem preferisse ver a Igreja relegada para defender tais rituais, em vez de abordar as questões de vida e morte dos dias modernos.
“A religião é sinónima de Bíblia, moralidade, tradição sagrada, doutrina, ritual, liturgia. Este é o domínio da religião”, disse ele. “Quando falamos de coisas como a pena de morte, a imigração, a alteração climática, estas são questões muito abordadas na cena política pública. Agora algumas pessoas podem afirmar: ‘digam aos padres e bispos para se manterem na igreja e nós tomamos conta disto’. Mas não é verdade. A igreja tem a obrigação de falar a verdade na praça pública, depois as pessoas podem fazer o que quiserem na urna de votação. A igreja tem uma obrigação, porque são questões religiosas, questões humanas”.
Uma semana antes da intervenção do Papa sobre o meio ambiente, os bispos norte-americanos reuniram-se em St. Louis para sua assembleia anual. Wester, que estava lá, continuava a ser o porta-voz da conferência. Reconhecidamente, a alteração climática não estava no topo da agenda de todos os bispos presentes na reunião. Mas, disse Wester, nunca tivemos um bispo que fosse abertamente contra a abordagem da questão do clima. “Alguns são mais vociferantes do que outros”, disse ele. Mas acrescentou: “Estão ansiosos para promover a mensagem do Papa”.
Alguns padres e bispos, especialmente nas partes conservadoras do país ou onde a economia local é fortemente dependente de indústrias extrativas, saudariam a intervenção do Papa por lhes dar licença para finalmente abordarem assuntos que não se atreviam a abordar com receio de ofender os seus paroquianos. “Este será um impulso maravilhoso para eles”, disse Wester.
Para outros, e Wester coloca-se entre eles, a forte mensagem do Papa foi um sinal para promover ainda mais a mudança. “Do que vale se daqui a 100 anos acordarmos e dissermos: ‘Meu Deus. Perdemos a oportunidade. Agora é demasiado tarde. Não podemos inverter aquilo que começámos”, disse.
Algumas milhas a sul do campus, Richard Moore levanta-se às seis horas para preencher um pedido urgente de alface orgânica de um restaurante local.
Moore, filho de agricultores de Porto Rico, passou os últimos 50 anos a trabalhar como organizador comunitário, sobretudo nos bairros pobres e de imigrantes trabalhadores do Novo México.
Depois de ter tido alguns problemas com a justiça enquanto membro de um gangue, Moore pensou por breves momentos em entrar para o sacerdócio, mas depois dedicou-se à vida de ativista, como diretor da Rede de justiça ambiental e económica do sudoeste.
Havia lutas contra fábricas de produtos químicos, refinarias de petróleo, matadouros, fábricas de alimentos para cães e aterros, todas elas indústrias altamente poluentes que despejam ilegalmente os seus detritos em bairros operários.
Além disso, havia os elementos fundamentais: a terra, a água e o ar.
Após quatro anos de seca, os poços de algumas pequenas cidades estavam completamente secos. Os agricultores estavam a bombear água salobra, algo que estava a prejudicar as colheitas e grande parte do Novo México era uma acendalha seca. Fogos de grandes dimensões devastavam as florestas, escurecendo o céu com cinza e prejudicando a qualidade do ar para os que têm asma e outras doenças respiratórias. Em alguns dias recentes de verão, havia avisos em Albuquerque para que os habitantes mantivessem as janelas fechadas, devido à névoa espessa de incêndios circundantes.
Os grupos comunitários estão atualmente a manifestar-se contra a implementação de planos que pretendem desviar cerca de 20 milhões de galões de água por dia do Rio Grande de pequenos agricultores nos arredores de Albuquerque para um grande projeto de condomínios.
Do ponto de vista de Moore sempre existiu uma ligação entre a justiça ambiental e económica, muito antes de o Papa realçar a sua ligação. Para todas as lutas no que diz respeito à poluição do ar e da água, existia um único princípio unificante, na opinião de Moore. A luta dizia respeito à justiça e não ao ambiente.
“Vejamos os químicos por exemplo, há 86 mil químicos no mercado e apenas menos de 200 são regulados”, disse Moore. Afirmou lutar por justiça ambiental todos os dias.
“Achamos que igreja católica sempre foi um bocado lenta no que diz respeito à abordagem da justiça social, quer se trate da alimentação, da imigração ou da repressão policial”.
O foco atual da luta de Moore é uma quinta orgânica de dois acres que funciona como jardim comunitário, cultivando alface, espinafres, peras, cebolas, rúcula, rabanetes e couves.
Estas pequenas plantações são bastante comuns nos limites de Albuquerque e em outras cidades, relembrando que o Novo México ainda é essencialmente um estado rural. Algumas casas no bairro de Moore têm pimentões a secar no alpendre. A quinta de Moore, organizada pelo Los Jardines ou institutos botânicos, abastece cerca de 100 famílias, que fazem voluntariado na quinta, bem como restaurantes.
Ao longo dos últimos anos notou um aumento dos efeitos em tempo real da alteração climática. Na primavera passada, perdeu centenas de sementeiras devido a uma infestação de gafanhotos. Moore culpou o inverno pouco rigoroso. Normalmente, aguarda-se que as baixas temperaturas de dezembro e janeiro destruam as pestes. Mas, este ano, destruíram uma estufa de tomates.
Moore ficou feliz pelo Papa ter comprometido toda a igreja católica a combater a alteração climática, mas não acredita plenamente que o resultado seja do interesse do povo pelo qual tem vindo a lutar ao longo da sua vida.
“Ver o Papa a abordar estas questões é extremamente importante para o trabalho que realizamos, mas temos de ter cuidado”, disse. “Os dirigentes corporativos e os CEO irão à missa no domingo e, na segunda-feira, voltarão aos seus escritórios e farão a mesma coisa”.
Juan Reynosa, um ativista do Southwest Organising Project, cresceu na sombra do poder da indústria, na pequena cidade de Hobbs, no sul do Novo México. Conservadora e profundamente católica perto da fronteira com o Texas, a cidade de Hobbs funciona como um hub para a indústria petrolífera. O pai de Reynosa era um camionista de um campo petrolífero.
Depois de oito ou nove anos como um organizador, Reynosa disse que ainda era difícil para si começar uma conversa sobre o meio ambiente na sua cidade natal sem ser acusado de destruir a economia.
Com a intervenção do Papa, esperava que os sacerdotes que se tinham mantido em silêncio sobre o meio ambiente se sentissem encorajados a fazer mais.
“Se houvesse um grande problema ambiental no Novo México relativamente ao qual a arquidiocese assumisse uma posição, a conversa poderia mudar de um dia para o outro. Falar sobre como a indústria do petróleo e do gás poderiam ser mais seguras, como poderiam tratar melhor as comunidades”, disse.
Sempre que Reynosa falava sobre a saúde pública e a qualidade do ar e da água, os opositores acusavam-no de sacrificar empregos para proteger o meio ambiente. “As pessoas estão a tentar sobreviver, mas também sentem que é um pouco arriscado serem francas. Ter Deus a nosso lado, ou seja como for que lhe queiram chamar, pode ser um grande incentivo”, disse. “Agora não sou só eu, um organizador qualquer no terreno. É uma pessoa muito poderosa a nível mundial. Faz toda a diferença, especialmente quando alguns políticos dizem exatamente o oposto”.
Um bom exemplo seria a governadora do Novo México, Susana Martinez. Enquanto republicana, Martinez fez história em 2010, quando foi eleita a primeira governadora latina do país. Pela mesma altura, esta disse ao Politico que duvidada que a atividade humana fosse responsável pela alteração climática.
Martinez acabou por reverter várias medidas ambientais implementadas pelo seu predecessor democrático, Bill Richardson. No final do ano passado, depois de Martinez ter sido reeleita e os republicanos voltarem ao poder, os democratas estavam à beira do desespero, de acordo com Jerry Ortiz y Pino, um membro do Senado do Estado.
Tal como em vários estados ocidentais, a função de um funcionário estatal eleito é part-time e apenas modestamente paga, por isso é que muitos dos representantes do Novo México são sobretudo políticos honoráveis: advogados, pecuaristas ou empresários da indústria petrolífera com recursos independentes.
É difícil sobrestimar a importância da indústria do petróleo e do gás para o Novo México. Na bacia de San Juan, na zona norte do Estado, as instalações de petróleo e de gás espalham-se por uma área de 10 mil milhas quadradas de mesas, desfiladeiros e planícies desertas.
Há muitas fugas de metano a partir desses 40 mil poços fraturados, uma vasta nuvem de poluição de carbono é agora detetável a partir do espaço.
Os royalties do petróleo e do gás alimentam o fundo permanente de 14 mil milhões de dólares (13 mil milhões de euros) do Estado, que financia as escolas públicas. Outros pagamentos de royalties e impostos financiam a reparação de estradas e de outros itens de orçamento. Combustíveis provenientes do petróleo e do gás também financiam os produtos culturais para universidades locais e museus, de acordo com um relatório do ano passado do Instituto de Pesquisas Tributárias do Novo México.
Tem em conta esses recursos, é fácil entender a longa série de derrotas dos ativistas. No passado mês de janeiro, os tribunais anularam um movimento que pretendia limitar a fraturação num município rural do nordeste de Santa Fé. Poucos meses depois, a assembleia legislativa votou para o prolongamento de créditos fiscais para instalações de energia solar até 2020. Mas Martinez não aprovou o projeto de lei antes do final da sessão da legislatura, em junho, e a medida caducou; os créditos tributários vão desaparecer no final do próximo ano.
Da mesma forma, uma campanha que visava converter uma antiga central alimentada a carvão, notoriamente poluente, nos Quatro Cantos em energia limpa foi travada quando o serviço público optou por encerrar as antigas unidades poluentes e instalar novas unidades de carvão.
Muito antes da carta pastoral do Papa Francisco, a Conferência dos EUA sobre Bispos católicos apoiou as regras de centrais de energia limpa de Obama. Os trabalhadores da igreja católica pressionaram empresas como a Exxon para considerarem a alteração climática nas suas futuras centrais e centrais elétricas, para trocarem o carvão por combustíveis de incineração mais limpos. Alguns papas anteriores, incluindo o Papa Bento, falaram sobre a alteração climática.
A freira Joan Brown, que cresceu numa quinta no Kansas e passou os últimos 40 anos no sudoeste, envolveu-se em várias iniciativas, juntamente com o Interfaith Power and Light, um grupo religioso que aborda o aquecimento global.
Em setembro do ano passado, quando 400 mil pessoas se reuniram para uma manifestação histórica relativa ao clima em Nova Iorque, Joan e outros organizaram uma marcha em Albuquerque, parando em estações ao longo do caminho: igrejas com painéis solares, pátios escolares com hortas comunitárias e casas eficientes do ponto de vista energético, tudo para mostrar às pessoas que podiam incorporar ações para combater a alteração climática nas suas rotinas diárias.
Mas nunca houve uma mobilização à escala da alcançada após a mensagem do Papa. Com a mensagem do Papa Francisco, os jovens estão a envolver-se nesta questão.
“Nunca vi nada deste género na comunidade religiosa”, disse ela. “Nunca vi este tipo de entusiasmo. É como ver para uma nova luz”.
Translated by Rita Azevedo — VoxEurop