— a gente pode tirar foto enquanto você cozinha?

— só se não aparecer meu rosto. não estou arrumada.

o cheiro da comida faz minha boca salivar. não existe a possibilidade de você visitar alguém árabe e não ser recebido com a mesa cheia de comida. eles passam horas em volta da mesa comendo sem se cansar. aprendi logo que o segredo é nunca deixar o prato ficar completamente vazio, senão vão te fazer comer mais e de um jeito que é impossível recusar.

enquanto a comida não fica pronta, vem semente de girassol com casca pra quebrar no dente, suco, chá e narguilé, claro. não fumo porque acho o gosto doce demais, mas confesso que aquela fumaça aromatizada me é atraente aos olhos. logo começam a me perguntar o que eu quero saber e quais são as perguntas.

Fotos: Melito

a família síria, que veio para o líbano há anos atrás, mora em um lugar pequeno e confortável. na casa, moram a mãe e dois filhos, um de 12 e outro de 21, mas nos documentos tem 20. o pai está na suécia há oito meses tentando documentos para a família.

— eu sinto muita falta do meu marido. ele era o homem da casa, antes eu não trabalhava, ficava em casa cuidando dos meninos. agora passo o dia inteiro fora e faço o papel dele.

ela trabalha em um orfanato para dar conta dos gastos da casa. o filho mais velho fala árabe, francês e está estudando inglês e nossa conversa é toda traduzia por ele. um dos seus sonhos é estudar design gráfico e tem um talento daqueles difíceis de achar. desenha que é uma beleza. os traços são perfeitos. peço para ele pegar os desenhos. “alguém precisa descobrir o talento desse menino”, penso.

Fotos: Melito

— meu pai foi pra suécia para garantir meu futuro. aqui não consigo emprego porque sou sírio. mesmo se eles precisam de alguém ou vejo um cartaz de vagas abertas, quando falo que sou sírio, eles dão um jeito de falar que na verdade não precisam de ninguém.

minha garganta fica seca. bebo o suco gelado, que até hoje não sei o sabor, e peço para ele contar mais detalhes. com um olhar meio vago, relata que uma vez fez entrevista, gostaram dele, acertaram salário, horário de trabalho e no final da entrevista pediram seus documentos. quando viram sua nacionalidade, a vaga, de imediato, tornou-se outro cargo no qual ele não se encaixava.

— eu disse pra eles: “mas eu sou humano assim como vocês. vocês não vão me contratar só porque sou sírio?” eles falaram que não era esse o motivo, que era porque é difícil fazer os documentos de trabalho e seguro pra quem é sírio. no final falaram que iam tentar, mas quando falaram isso eu levantei e disse que eu é que não queria trabalhar em um lugar com pessoas que pensavam assim. no final eu sou humano, sendo sírio ou libanês. não existe diferença!

o desabafo continua. diz que precisa começar algo, que já está com vinte anos e não pode nem trabalhar e acrescenta que está esperando o dia em que vai poder realmente começar construir sua vida.

— eu queria morar na síria, fazer minha faculdade, construiu minha família e vida lá no meu país, mas eu não tenho escolha. não tem como voltar pra lá. eu espero que a síria volte a ser como era antes. mas isso é um sonho, acho que é bem difícil de acontecer.

a comida veio pra mesa. batata frita, mas não daquelas congeladas, foram descascadas minutos atrás, salada de macarrão (uma das melhores que eu já comi na vida), outra salada bem boa que não sei explicar como era, um molhinho de alho, asinha de frango, pão árabe, que no Brasil a gente chama de pão sírio, e pepsi.

depois de quase quatro horas com uma mesa que magicamente não se esvaziava, um cheiro de café invade a sala.

— quer café? — oferece a mãe, que segura um café árabe fumaçando.

— shoukran (obrigada). — respondo já emendando uma indagação.

— se você pudesse escolher entre ir pra suécia ou voltar para a síria. o que escolheria? — pergunto, já me arrependendo por achar a pergunta muito óbvia.

— eu vou onde minha família está, onde vai ser melhor pra eles. família pra mim é o que importa. o que for melhor para eles eu faço.

fico mais tranquila com a resposta que recebo, mesmo percebendo que a minha pergunta não foi diretamente respondida. talvez pela esperança distante das coisas melhorarem na síria ou apenas para evitar angústias internas.

precisávamos ir embora. estávamos ali há quase seis horas. na saída ganhei lenços lindos da mãe, uma pulseirinha do filho mais novo e mais um exemplo de força feminina pra vida.

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