duas e tantas da tarde. o calor do meio do mês de agosto fazia nosso couro cabeludo arder. a cada caminhão que passava, o vento forte balaçava a plaquinha de papelão que indicava o nosso destino. melito, com o rosto queimado de sol, fazia o famoso sinal de carona. vinte minutos se passaram. um caminhão azul escuro com a tinta descascando deu uma buzinada e encostou.

— conseguimos porra! — soltou melito enquanto agarrava a mochila no chão.

saímos correndo e em pouco segundos estávamos dentro do caminhão. depois de uma leve dificuldade em fechar a porta, seguimos viagem apertados entre as mochilas.

— tão indo pra uberaba? 
 — tamo sim. mas nosso destino final é tocantins. — respondi. 
— meu nome é zé marcos, mas todo mundo me chama só de marcos.

já nos primeiros minutos do percurso, marcos começou a apontar cada indústria grande na beira da estrada. falava dos problemas financeiros de uma, contava os sucessos da outra e mostrava as que ele já tinha feito carregamento. mas às vezes faltava-lhe as palavras.

— olha, como vou te falar isso de um jeito melhor? Hummm não sei dizer.

— marcos, só fala! — eu disse, ansiosa pra caralho pra escutar a sabedoria que emanava toda vez que ele abria a boca.

em alguns momentos, aquele silêncio constrangedor, que sempre assombra recém conhecidos, pairava no ar. mas logo marcos voltava a falar e preenchia a lacuna das ondas sonoras, antes ocupadas apenas com o barulho do caminhão e do vento, que fazia tilintar uma corrente meio solta bem ao lado de sua janela.

numa dessas vezes, começou a contar como veio de juazeiro do norte. saiu de lá pra cortar cana em miguelópolis, cidadezinha no interior do estado de são paulo. depois já entrou na usina, mas queria mesmo era tirar a carteira de motorista pra conseguir ganhar um salário maior. juntou o que tinha e decidiu ir na auto escola. conseguiu dar 250,00 reais de entrada e parcelar o restante em duas parcelas iguais.

depois de um tempo avisaram que iriam treinar um pessoal novo pra mexer com os tratores e como ele já tinha carteira, pediu pra aprender e partiu para os veículos pesados. aí já começou a ganhar bem melhor. foi economizando daqui e dali até conseguir comprar seu próprio caminhão, em que hoje faz seus fretes de forma independente.

— meu caminhão é meu sócio né? divido o que ganho com ele. vai um pouco na manutenção, outro tanto no petróleo...

quando trabalhava cortando cana, marcos ganhava 18 reais por dia, mas como não tinha trabalho diariamente, o dinheiro era muito pouco. pagava a moradia e gastava o resto em comida. ia comer em churrascaria e comia como se fosse a última vez que comeria na vida, além de comprar muita besteira, tipo biscoito recheado (eu falo bolacha, que fique claro, mas marcos é nordestino morando em minas, se resolvam com ele).

essa história de comer como se fosse a última vez, me lembrou de quando eu tinha 16 anos e saí da casa dos meus pais para estudar num colégio interno. a bolsa que ganhei pagava integralmente meu estudo, alimentação e moradia, e em troca, trabalhava durante 5 horas por dia na cozinha do colégio. eu comia o tempo todo. de frutas, que nunca tinha comido na vida, a recheios de bolo de chocolate ou doce de leite.

— minha mulher costuma dizer que se voltasse no tempo, faria tudo diferente. eu não! se pudesse voltar faria tudo igual, mas um pouquinho mais. — e ele falou isso com aquela tranquilidade no olhar de quem sempre esteve preparado para receber as possibilidades que a vida colocou à sua frente.

eu na minha falta memória, enquanto escrevia, esqueci uma das partes mais bonitas da nossa conversa que aconteceu logo que entramos no caminhão. e não estou reclamando, posto que cabe perfeitamente ao final deste texto. pois bem, enquanto ajeitava o retrovisor, marcos perguntou pra gente se estava difícil pegar carona na estrada.

— difícil difícil não é. demora um pouco, mas sempre acaba rolando. é que as pessoas são um pouco medrosas. — respondeu melito embalado pelo balanço do caminhão.

marcos meneou a cabeça e sem tirar os olhos da estrada mandou logo uma resposta sabida.

— medrosas acho que não. não é questão de medo. é que elas não sabem dividir.

Fotos: Melito

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