Apreciação Estética — Por que arte é considerada boa?

Como nossos sentidos e sentimentos nos influenciam e o que é apreciação estética.

Tente imaginar uma estátua de um gato.

Agora imagine que essa estátua de gato fica em um centro importante de uma Universidade.

Como os estudantes poderiam fazer inúmeras coisas com a estátua, representantes da universidade resolveram acorrentar a estátua do gato para mantê-la segura e ela não “desaparecer assombrosamente” numa quinta-feira à noite.

A estátua, quando criada pelo dono, não tinha correntes. Mas as correntes estão lá há tanto tempo que gerações de estudantes e funcionários vieram a conhecer a estátua como “O Gato Acorrentado”.

O que nos leva à pergunta:

“A corrente faz parte da obra?”

Reflitam um pouco. Voltaremos a isso em breve.

GATOS E CORRENTES

Se você é como a maioria das pessoas, dedica muito do seu tempo à apreciação estética.

Quando ouve música, vê o por do sol, sente o cheiro de comida apetitosa ou está emocionalmente envolvido com personagens de séries, filmes ou livros está presenciando momentos de apreciação estética.

A estética é a filosofia que pondera como e por quê objetos estéticos nos têm apelo e que valor eles têm em nossas vidas.

Ela tenta definir arte, objetos de arte e apreciação de objetos de arte.

Um objeto de apreciação estética é definido como um que traz emoções estéticas valiosas a nós.

Carros, relógios e sapatos são exemplos de coisas que gostamos e não são necessariamente baseadas em função mas em beleza e que trazem essas emoções estéticas.

Alguns estéticos dividem os objetos em dois:

  • Objetos de arte que foram criados por humanos
  • Objetos de beleza natural

Ainda existe muita disputa sobre essa divisão e cada categoria tem seus problemas.

Por exemplo, onde um objeto artístico começa e onde ele termina?

A moldura de um quadro, as correntes do gato, as imperfeições de áudio de antigos álbuns de vinil. Isso tudo faz parte da arte?

E o valor do objeto artístico vem do que foi colocado nele pela pessoa que o criou? Ou seu valor depende da experiência que engatilha no público?

MAIS HISTORINHAS

O autor Leo Tolstoy, que escreveu Anna Karenina e Guerra e Paz, acreditava que a arte era diretamente ligada ao sentimento exposto pelo artista. Dizia que

“um artista cria na forma de comunicar sentimentos a outras pessoas, e que muitas vezes não podem ser expressos meramente por palavras”.

Outros pensadores argumentam que a intenção do artista é realmente importante — o artista deve querer evocar algum sentimento valioso para seu público para sua obra ser considerada arte.

Outros ainda acham que arte pode ser feita sem nenhuma intenção. Que arte pode ser criada por acidente.

Alguns argumentam que o que faz arte arte é a emoção estética que traz ao público.

Então ao invés do momento de sua criação, seu momento chave na realidade seria quando o público se depara com e é afetado por uma peça de arte.

É possível que neste instante você esteja pensando que tivesse uma ideia concreta do que arte é até parar para pensar a respeito. E quanto mais pensa a respeito, mais difícil fica de definir…

Então talvez a resposta seja ter uma abordagem como a de Ludwig Wittgenstein que argumentava que o conceito de arte vai além da definição, mas que entenderá quando ver.

Err, podemos aceitar, talvez, mas não nos ajuda em nada quando pensamos se a corrente faz parte da arte da estátua do gato ou não.

Tentemos outro experimento.

LEILÕES DE QUADROS VERMELHOS

Imagine 4 quadros vermelhos visualmente idênticos pendurados em uma parede.

  • O primeiro foi pintado para representar a vida parada de uma toalha de mesa antiga.
  • O segundo foi pintado para representar o Mar Vermelho depois que os Israelitas atravessaram.
  • O terceiro foi pintado como um argumento político soviético.
  • E o último nem teve a intenção de ser pintado dessa forma. Era só um canvas vazio que tinha sido preenchido com primário vermelho e não fora encostado desde então. Mas, como parecia com os outros 3, fora pendurado por engano.

Então, qual é a diferença entre estes quatro quadros?

Conseguimos julgar um como uma obra de arte melhor que o outro?

E, se sim, baseado em que?

O estético americano Arthur Danto escreveu “O Descredenciamento Filosófico da Arte” e é o filósofo que nos trouxe o exercício da corrente na estátua do gato para pensarmos na ontologia da arte.

Quando consideramos obras que parecem idênticas, mas ainda podemos reconhecer diferenças entre elas, você é quase forçado a concluir que existe um elemento não-físico que faz algumas coisas dignas de serem chamadas de “arte”.

Mas…

O que é isso?

É algo que existe nas mentes de artistas, do público ou fatos históricos sobre a criação da obra que fazem as obras diferentes?

EST-ÉTICA

Estética cai na grande categoria da Teoria de Valor, que também inclui a Ética.

Mas, ao contrário da ética, onde muitas pessoas pensam que existe um certo absoluto ou um errado absoluto — como “matar é errado” e “ajudar as pessoas é bom” — muitas pessoas pensam que a beleza está simplesmente nos olhos do observador.

Em outras palavras, querem dizer que apreciação estética não é algo que se pode errar — é apenas questão de gosto.

E pode ser assim que você se sente sobre arte.

Mas lembre-se, se realmente acredita nisso, então ninguém pode estar errado sobre seus pensamentos estéticos.

E, se esse é o caso, então não podemos ter uma conversa sobre isso porque somos os árbitros onipotentes da beleza estética como observadores.

É claro que alguns filósofos rapidamente perceberam que nossas intuições sobre arte tendem a ser conflituosas. Por um lado, tudo parece subjetivo. Por outro, parece existir algum critério objetivo de julgamento.

BOM GOSTO

O filósofo escocês David Hume, de “Investigações Sobre o Entendimento Humano” propôs que:

“Quando pensamos em arte, não devemos confundir a pergunta, ‘Eu gosto?’ com a pergunta, ‘É bom?’. Desde que você seja honesto, não pode estar errado sobre se você gosta de algo, porque isso é totalmente subjetivo.”

Mas a pergunta “É bom?” é completamente outro assunto.

Hume pensava que o valor estético era objetivo até certo ponto e que todos nós estávamos predispostos a encontrar certos objetos e padrões que nos são agradáveis esteticamente.

Citou exemplos de que humanos são naturalmente atraídos por imagens de saúde, mas repelidos por imagens de degradação. E tendemos a gostar de simetria e proporções, e desgostar de falta de balanço.

Também dizia que, assim como temos senso de cheiro, visão e audição, também temos um senso de gosto estético. Uma habilidade de detectar e avaliar propriedades estéticas de um objeto.

Mas podemos usar nossos gostos estéticos de formas diferentes e ser melhores em apreciar algumas coisas do que outras.

Pense em algo que você sabe muito sobre — como um esporte, instrumento musical ou cervejas artesanais. Quando você está nesse ambiente, seja ir num estádio de futebol, num show, festival ou experimentar uma cerveja nova, você nota tipos de nuances que outras pessoas não perceberiam.

Reconhece pequenas falhas, ou até aprecia pequenos e complicados detalhes que outras pessoas poderiam deixar passar despercebido.

Hume dizia que algumas pessoas naturalmente têm um senso refinado de gosto estético. Mas, também disse que mesmo não tendo o “dom natural”, também poderia aprendê-lo com o tempo.

Agora, talvez você não concorde que alguns de nós tenham nascido com esse “bom gosto estético”, ou somos inevitavelmente melhores em criar, entender e apreciar obras de arte.

Mas você pode concordar com a visão de Hume de que a habilidade de apreciar objetos pode ser adquirida e que uma maior apreciação artística pode te fazer bem. Talvez por te dar prazer, ou mais entendimento do mundo e das pessoas e de detalhes que poderia porventura perder.

EXISTE ENTÃO DIFERENÇA?

Vejamos poemas por exemplo.

Experienciamos poemas pela visão, mas não são exatamente maravilhosos esteticamente.

A diferença entre um poema e uma checklist é que o primeiro nos faz sentir algo. É mais sobre sentimentos do que sentidos.

Em meu artigo passado, Design Não é Arte, tentei definir arte como uma expressão ou aplicação de habilidade ou imaginação humana que faz um público sentir algo.

Uma música pode ser triste, pode te deixar agitado, pode ser alegre. Filmes podem te fazer rir, chorar, sorrir ou te preocupar.

É tudo sobre emoções. Um poema — arte — nos faz pensar e sentir de uma forma que simplesmente uma checklist não consegue.

Existe então alguma forma de quantificar arte?

A ARTE DE ESCREVER

Arte é muitas vezes relacionada à maestria de uma habilidade, como a “arte de driblar” ou “a arte de escrever livros”.

Mesmo que pensemos em futebol e redação como arte, nos dois exemplos acima arte está sendo usada para substituir a palavra ofício, ou craft — em inglês.

Vemos a primeira relação direta da palavra arte com qualidade.

Mas voltemos às reflexões passadas. Arte ruim, feia, ou sem regras de proporções e alinhamento ainda é considerada arte. Porque arte é subjetiva.

Mas e a objetividade?

Johann Wolfgang von Goethe, autor alemão famoso do século XVIII, propôs em sua obra, “Escritos Sobre Arte”, três perguntas para julgar arte:

  1. Qual era o objetivo?
  2. Conseguiu cumprir esse objetivo?
  3. Valeu a pena fazer?

Ao invés de comparar objetos de arte com seus antepassados, movimentos artísticos ou vieses da sociedade, Goethe propôs que a peça fosse comparada somente com ela mesma.

Assim seria impossível julgar se uma peça de arte como a Mona Lisa é melhor que a Noite Estrelada.

Não importa. São diferentes.

Cada um dos quadros tinha um objetivo talvez indescritível por palavras na mente dos artistas que os criaram. Possivelmente conseguiram cumprir esse objetivo na medida do possível e honestamente nunca saberemos se valeu a pena fazer na visão do artista.

Mas são quadros bem-feitos e famosos.

Lembremos, no entanto, que a Mona Lisa apenas ficou mundialmente famosa após seu furto. O Louvre anunciou o roubo e isso movimentou o mundo em busca do quadro. Quando retornado virou uma das maiores atrações do museu.

O que nos volta à reflexão do leilão dos quadros vermelhos e do gato de correntes.

Algum dos quadros é mais valioso ou mais arte que os outros por causa de seu contexto? E a estátua do gato se tornou a estátua do gato acorrentado por causa de seu contexto também?

E este artigo, é considerado arte?

Fica a reflexão.

É isso!

Espero ter contado algumas curiosidades e uma visão sobre como estética pode ser influenciada por outros fatores além de nossos sentidos principais.

Arte é uma área gigantesca e misteriosa. Também vem a ser útil em momentos inesperados.

Deve ser estudada como qualquer outra ciência.

Em breve mais artigos.

Viu meu último artigo? — Design para não-Designers: Introdução
Veja também — 
Design não é arte

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