Design não é Arte

Quero iniciar um assunto de muita confusão atualmente.

Recebo inúmeros contatos de projetos para realizar “artes para eventos” ou uma “arte para divulgar meu produto/empresa”. Como se o objetivo final de minhas peças fosse ser exposta em uma galeria.

Iniciemos com uma pequena polêmica.

Design não é arte!

Essa confusão não é culpa de quem entra em contato. 
É uma falácia espalhada pela sociedade.

Escrevi esse artigo com a intenção de explicar essa diferença e dar alguns exemplos de ambos. Até terminar de ler este artigo espero que sejam introduzidos a um pouco da história da arte e do design e consigam observar melhor a diferença entre peças de comunicação e obras de arte a seu redor.

O que é arte?

Temos registros de arte feita por humanos desde muito cedo.

Alguns vestígios de petróglifos e pinturas em cavernas datam cerca de 40.000 anos atrás.

Recomendo o livro História da Arte, do Gombrich para quem quiser se aprofundar.

Arte estava lá.

É algo que sempre nos interessou, de alguma forma.

Primeiras reflexões

Com o passar da história, alguns tentaram definir arte.

Filósofos da Grécia antiga como Platão, Aristóteles e Sócrates questionaram o significado de arte.

De acordo com Platão, a arte nunca representará exatamente a realidade, pois a vida em si, de qual a arte é meramente uma cópia, não representa a realidade. Assim, nosso mundo como o experienciamos, é uma ilusão. Uma coleção de meras aparências. Como “reflexos num espelho ou sombras numa parede”.

Aristóteles falava que arte era imitação. Dizia que a música imitava com o ritmo e harmonia, enquanto a dança imitava apenas com o ritmo. Comédia, por exemplo, era uma imitação dramática de humanos piores que a média. Em contrapartida, a tragédia imitava pessoas melhores que a média.

Ele também acreditava que a imitação é natural para os seres humanos e constitui uma das vantagens dos humanos sobre os outros animais.

Definições concretas

Aceleramos algumas centenas de anos e, no século XVII, resolveram definir arte um pouco melhor. Dessa vez, conseguiram alguns significados:

  1. O estudo de uma habilidade criativa.
  2. O processo de usar uma habilidade criativa.
  3. O produto de uma habilidade criativa.
  4. A experiência do público com uma habilidade criativa.

Nasciam as artes criativas, — ou a arte como disciplina— uma coleção de disciplinas que produzem peças de arte (arte como objetos) que são sustentados por um desejo pessoal (arte como atividade) e convém uma mensagem, emoção ou simbolismo para um receptor interpretar (arte como experiência).

Arte é algo que estimula os pensamentos, emoções, crenças ou ideias de um indivíduo por meio de seus sentidos.

Obras de arte podem ser explicitamente feitas para esse propósito ou interpretadas na base de imagens e objetos.

Tomemos como exemplo “Noite Estrelada”, de Van Gogh.

Mesmo que seja só uma noite estrelada da janela de seu asilo, Van Gogh consegue transformar sua experiência em uma pintura mágica que transborda visuais e emoções.

Por mais subjetiva que seja, é incontestável entre as pessoas que isso é arte.

Continuemos.

Ambiguidade

Sabemos que pessoas diferentes vivem experiências diferentes durante suas vidas. É lógico pensar que por essa razão possam reagir de forma diferente e sentir sentimentos diferentes ao se exporem a uma mesma obra de arte.

Por esse motivo, também, por muitas vezes temos interpretações ambíguas de quadros, músicas ou filmes.

Nem sempre se está alinhado com a percepção de realidade e mundo do artista.

Afinal, apreciamos e identificamos o que nos é familiar. 
E todos vivemos vidas diferentes.

Por outro lado, jaz aí a beleza.

As múltiplas interpretações geram reflexão. Tornam cada contato com a obra um contato diferente.

Essa ideia de abraçar o novo e diferente é o que muitas pessoas procuram em arte.

Um exemplo ótimo de abraçar essa ambiguidade é o conceito de Sfumato, de Leonardo da Vinci.

Ambíguo por si só, o termo representava tanto a nebulosidade das ideias — Sfumato quer dizer esfumaçado — quanto a técnica de usar sombras e transições de cores suaves ao redor dos cantos para aumentar o realismo.

“Sem linhas ou bordas, na forma de fumaça ou além do plano focal.” — da Vinci sobre Sfumato.

Note as sombras nos cantos dos olhos e da boca nos detalhes dos quadros de Raphael e Leonardo.

Madonna del prato, Raphael. Fonte: Wikipedia
La Gioconda, da Vinci. Fonte: Wikipedia

As expressões são tão sutis e o Sfumato é tão presente em Mona Lisa que estudos recentes foram feitos para identificar se ela está sorrindo ou não.

Ela foi pintada como forma de expressão.

Isso é arte.

Movimento Bauhaus

A Bauhaus foi uma escola alemã fundada em 1919 na cidade de Weimar pelo arquiteto Walter Gropius. Seu objetivo principal era um conceito radical:

“Re-imaginar o mundo material para refletir a união de todas as artes.”

Gropius explicou sua visão e entendimento das diversas disciplinas de artesanato, arte e tecnologia em Programm des Staatlichen Bauhauses Weimar (1919), que descrevia uma guilda utópica que combinava arquitetura, escultura e pintura numa única expressão criativa:

Gesamtkunstwerk — err, claro.

Ele também desenvolveu um currículo que tornaria “artesãos e designers” capazes de criar objetos úteis e apropriados para esse novo sistema de viver.

Definiu as antigas disciplinas de arte para exercerem funções e assim surgia a primeira ideia de design.

Esse conceito do aprendizado multidisciplinar e ensinamento técnico moldou a escola durante sua existência.

A Bauhaus combinou tanto elementos das belas artes quanto da educação de design em seu currículo. Iniciava com um curso preliminar de imersão para os alunos que vinham de diversos meios econômicos e sociais.

Estudavam materiais, teoria das cores e relacionamentos formais na preparação para estudos mais especializados.

Tinham workshops que incluíam metalurgia, tecelagem, cerâmica, carpintaria, impressão gráfica, publicidade, fotografia, pintura em vidro e paredes; esculturas em madeira e pedra; e teatro.

A escola durou pouco mais de 14 anos. Além de Gropius, teve a direção de Hannes Meyer e depois Ludwig Mies van der Rohe até ser dissolvida pelos nazistas em 1933.

Mesmo com sua dissolução, a escola alemã impactou imensamente o mundo do design na Europa e America do Norte e, curiosamente, Israel — cuja cidade Tel Aviv em 2004 foi para a lista de Cidades-Patrimônio da ONU, com mais de 4000 edifícios inspirados pela Bauhaus.

A influência da Bauhaus em educação de design foi primordial.

Unificar arte, projeto e tecnologia por meio de uma abordagem pragmática que integrava teoria e aplicação revolucionou diretamente frentes diferentes como arquitetura, construção de móveis e impressão gráfica.

Bauhaus em alemão literalmente quer dizer “Casa de Construção”.

E é inegável que construíram algo lá.

Em 2014 tive a oportunidade de visitar o Bauhaus Archiv— Museum of Design, em Berlin. No museu fica evidente o quanto a escola estava à frente de seu tempo.

A linha é sutil

Voltemos para os tempos de hoje.

Muitas pessoas entram em design porque gostam de desenhar ou de outras habilidades “artísticas”, como o Sfumato mencionado anteriormente.

Tenho amigos que se sentiram frustrados ao descobrir que Design e Arte são diferentes. Existe muito mais planejamento e regras no primeiro.

Design também utiliza das mesmas lógicas que usamos para julgar arte, como proporção, contraste, padrões, cores…

Mas é aí que começa a confusão.

Os campos e disciplinas se conversam, mas não são idênticos.

O movimento Bauhaus e estudo da função foram fatores importantíssimos para a distinção entre design e arte pelo propósito de cada um.

Em design, os conhecimentos de estética e beleza da peça de nada adiantam se não fizerem sua função.

E muitas vezes o bonito não é funcional.

Arte requer uma criatividade menos objetiva, uma auto-expressão com mais possibilidades. Seus sentimentos o levam. Suas limitações são o que você aprecia e como você consegue e quer passar emoções e sentidos.

É subjetiva, até que se prove o contrário. Afinal, artistas vendem quadros e por que não fazer de seu objetivo pintar algo que as pessoas comprem?

Design, por outro lado, trata a parte de comunicação de ideias e resolução de problemas. Contempla áreas como lógica, geometria, física, linguagem, psicologia. Leva em consideração os usuários.

É objetivo. Sempre.

Vimos que a Bauhaus usufruiu de disciplinas diferentes para ensinar seus alunos a estarem preparados para os desafios do mundo. A criação artística, o pensamento criativo e a experiência em diversas áreas tornava os alunos versáteis e preparados para encarar problemas diferentes.

A escola também popularizou a ideia de que a forma segue a função que define a maioria se não todos os processos de design da atualidade.

A linha é sutil, mas os projetos devem ser encarados de forma diferente.

Arte vs. Design

Visualizemos os dois objetos abaixo.

Temos duas cadeiras vermelhas.

Uma foi projetada para ser confortável, aconchegante e prática.

A outra é literalmente uma tentativa de reproduzir os objetos cotidianos mais frustrantes que se possa imaginar.

Fica evidente qual cadeira é qual. A forma segue a função.

No exemplo acima, o projeto The Uncomfortable da Katherina Kamrpani, faz o uso inverso da forma como uma expressão de arte.

A cadeira não foi feita para ser funcional. Inclusive foi desenhada exatamente para ser desconfortável.

Por outro lado, a poltrona confortável, impermeável e giratória foi desenhada exatamente para proporcionar a melhor experiência para quem sentar nela.

Ela foi projetada pensando na função.

Isso é design.

É isso!

Espero ter introduzido a diferença entre a concepção de design e arte nos dias atuais, com um pouco de história e curiosidades.

Criatividade se pratica, se lê, se consome. 
Leiam mais, escrevam mais :).

No próximo artigo, introduzirei conceitos primordiais para peças de comunicação, uma visualização topline business de contraste e publicidade foda.

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Boa semana a todos!