como seria sua vida sem facebook, whatsapp ou smartphone?

Renato Caliari

num mundo tão conectado e disponível online, essa pergunta pode nos fazer parar para refletir.

estou aqui para contar um pouco da minha experiência.

fiquei sem facebook por 5 meses e estou sem whatsapp e sem smartphone há um mês e contando. (tempos estimados na época de escrita: julho/2015)

a decisão sobre o facebook

desde outubro de 2014 eu fui diminuindo o ritmo de uso do facebook. menos posts, menos interações. em fevereiro de 2015 resolvi encarar o desafio que me dei: desabilitar o facebook e ter mais tempo para mim, menos urgência de interação virtual, menos ansiedade, e descobrir como seria essa experiência.

a história do smartphone e whatsapp

tive meu smartphone roubado no dia 10 de junho de 2015. eu vinha me planejando em diminuir drasticamente o uso de mensageiros instantâneos até que pudessar parar de usar e para isso já tinha desabilitado notificações e diminuído a frequência de abertura dos aplicativos.

o roubo apenas adiantou o processo. e eu aceitei como uma boa oportunidade para somar à minha experiência de desconexão.

um telefone, apenas isso

atualmente utilizo um telefone simples, nada de “smart” no conceito atual, onde é possível apenas fazer e receber ligação e enviar e receber sms.

resolvo o que é necessário sem problemas. com um bônus: a bateria dele dura por volta de uma semana. coisa do futuro, imaginem só, um telefone que não me escraviza a carregar sua bateria diariamente.

acreditem, fazer ligação ou enviar sms quando é algo urgente ainda funciona, experimentem. e quando não é urgente consigo usar o diálogo pessoalmente. eita ferramenta boa!

descobri que raros momentos são urgentes e importantes que demandem atenção e interação de várias pessoas.

o vício e suas consequências

tenho pra mim, e acredito que muitas pessoas concordem, que sistemas como facebook e whatsapp, ou mais, aparelhos portáteis multi-função, como um smartphone, viciam, e muito. mas o problema não parece o vício em si, e sim as consequências devastadoras desse tipo de vício. às vezes moderação e equilíbrio com esse tipo de coisa é mais difícil do que parar de usar de uma vez e pronto.

não acho que exista certo e errado para esses assuntos. não acho que existam só coisas ruins ou só coisas boas de um lado ou do outro. é uma mistura de ingredientes. podemos influenciar no sabor e no resultado.

reflexão sobre esse mundo virtual

com esse mundo virtual e de disponibilidade imediata, parece ser mais fácil assistir o que as outras pessoas supõem estar vivendo do que viver algo por nós mesmos. dá mais trabalho. ou, talvez até decidamos sermos as pessoas que estão vivendo algo no mundo real naquele momento mas deixamos de lado a experiência direta e presente para viver algo de forma indireta, interagindo com pessoas virtuais ou tirando dezenas de fotos enquanto a experiência está acontecendo, apenas para termos espectadores.

gostamos de assistir as pessoas dizendo, num texto ou foto, que estão se divertindo por aí, mesmo que seja muitas vezes apenas uma forma delas tentarem se convencer disso e alimentar os espectadores de suas vidas, enquanto outros estão como zumbis, rolando uma tela acesa para se alimentar da notícias deles. mas o zumbi pode ser a mesma pessoa que, saca o celular abraça o amigo do lado, sorri, publica a foto, e volta a se sentar interagindo apenas com aquele quadrado luminoso em suas mãos, e deixando o amigo falar em segundo plano, sem nada entender.

os papéis de zumbi espectador e pessoa simulando uma diversão cotidiana podem existir na mesma pessoa.

a sensação de pertencimento, que nós humanos em geral prezamos, atualmente parece ter uma relação quase que direta com esse mundo de disponibilidade e interação imediata com um mundo virtual. me parece algo patológico.

relato sobre minha experiência

o afastamento teve um preço. no início experimentei uma certa abstinência disso tudo. me senti um tanto sozinho e isolado. parecia que algo estava faltando.

antes as pessoas e os acontecimentos estavam a um braço de distância. era só entrar e ver as notificações, receber e enviar mensagens, ver o que as pessoas mais chegadas estavam publicando, etc.

e agora, offline, onde elas estavam? parece que de repente estamos abandonados à nossa própria sorte. mas com o tempo de afastamento temos novas perspectivas e as coisas melhoram, e muito!

minha perspectiva sobre necessidade e urgência mudaram com relação a esse assunto.

a experiência de me afastar da urgência demandada na interação com facebook, whatsapp e outros aplicativos foram incríveis. aliás, a experiência de não ter um smartphone está sendo incrível!

fui premiado com vários benefícios que tentarei listar resumidamente abaixo:

  • menos ansiedade. quem não fica ansioso ao ver o telefone cheio de notificações ou o facebook com seus balõezinhos vermelhos com número de coisas não lidas, ou o celular bipando e vibrando? ou, mesmo apenas ficar imaginando se há notificações pendentes, ficar atualizando pra ver se chega coisa nova. como se isso fosse um sinal que estamos vivos e fôssemos importantes.
  • menos egocentrismo e menos dependência da opinião pública. não importa tanto o que penso a todo instante. não importa tanto tirar fotos para publicar. não há mais a questão de ficar secretamente esperando uma ou dezenas de pessoas curtirem algo que dissemos ou publicamos. foda-se o renato. ele ainda existe?

curiosidade: parece que estamos cheio de amigos e pessoas que se importam quando estamos "disponíveis" online a qualquer momento, mas basta ficar offline e perceberá que a maioria esmagadora de pessoas sumirá, puft. era só um mundo paralelo fabricado em nossa mente.

  • menos dependência emocional rasa e mais relações aprofundadas. o mundo virtual em geral, seja facebook ou whatsapp, é raso. as pessoas se viciam em desejar estar em contato com todos ao mesmo tempo, com as pessoas e os acontecimentos, e cada vez mais distantes do momento presente. a facilidade de estar em contato a qualquer momento e poder mandar uma mensagem de "tudo bem?", ou responder: "tá tudo ótimo", ou uma selfie na estação de metrô é quase inversamente proporcional a termos relações aprofundadas com um verdadeiro diálogo, realmente interessados no outro ser.
    nossa noção de pertencimento e conexão humana ganham uma perspectiva mais apurada e crítica, mais bela.
  • mais tempo conosco mesmo e menos medo da solidão. aprendemos a lidar melhor conosco mesmo, a nos perceber, e a encarar de forma mais corajosa e melhor a solidão. optamos voluntariamente por solitude. paramos de nos alimentar freneticamente de uma ligação emocional superficial com o mundo.
  • mais tempo para fazer nada. tempo para observar a mim mesmo, meus pensamentos, o mundo, as pessoas, meditar, sentir a respiração. apenas estar presente e ser.
  • mais tempo para fazer outras atividades. nesse tempo afastado li vários livros, estudei assuntos novos, me questionei muitos assuntos, dialoguei muito com minha parceira e com alguns amigos nos tempos juntos, assisti seriados, caminhei pelas ruas de forma mais atenta. fiz muitas outras coisas.
  • mais foco e presença. não paro de 10 em 10 minutos para ver o que está acontecendo num mundo virtual paralelo. não dá agonia estar com pessoas que estão fingindo te ouvir mas a todo momento olham seus telefones? ou, não incomoda a nós mesmos tentarmos executar uma atividade, como uma leitura de livro ou pesquisar na internet, e nos interrompermos a todo instante com o vício de ver se tem novidade nos aplicativos e redes sociais para responder e interagir?
    é curioso: podemos "estar" (entre aspas mesmo) em muitos lugares e com muitas pessoas virtualmente ao mesmo tempo, apenas a uma smartphone de distância, e ao mesmo tempo não estar onde o corpo de fato está, não estar com as pessoas que estão ao seu redor, não estar presente.

levar seu corpo pra passear e não estar presente é um desrespeito com os demais e consigo mesmo. ou aprendamos a dizer "não" e deixamos de participar de compromissos e eventos que não desejamos, ou aprendamos a estar por inteiro.

  • mais planejamento para usar internet pois atualmente só uso pelo computador, e mais planejamento para o uso do computador para aproveitar melhor meu tempo a sós, com minha parceira ou com amigos.

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Experiências e reflexões sobre simplicidade, tranquilidade e atenção

Renato Caliari

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