Como terceirizar e anular a própria vida

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Essa é uma compilação sem muita estrutura das formas que temos terceirizado, anulado ou esquecido nossas vidas, talvez sem mesmo percebermos.

Lembrando que para falar disso, é porque eu já tropecei e ainda tropeço nessas armadilhas. É um alerta para continuarmos atentos e responsáveis por nossas vidas.

  • Não queremos mais limpar nossas casas, ou nem mesmo um cômodo, uma roupa, um prato. Contratamos pessoas para isso. O ato de usar o tempo para algo que tem relação direta com nosso dia-a-dia perdeu o valor. Preferimos trabalhar em outros projetos até mesmo de outras pessoas, ganhar dinheiro e pagar alguém pra limpar nossa bagunça e sujeira. Assim, podemos não ter a necessidade de nos organizar e manter nosso espaço limpo. Fica pra outra pessoa fazer isso.
  • Não queremos mais fazer nossas comidas ou nos alimentar bem. Compramos comidas industrializadas para que fiquem prontas instantaneamente ou saímos para comer em um restaurante qualquer. Quem tem tempo pra fazer comida? Isso não é importante. Para quê priorizar? E nem falo dos dias que passamos no escritório. Falo dos dias que estamos em casa. Parece que a alimentação não tem mais tanta importância. Depois, preferimos reclamar, dizer que não conseguimos mudar a alimentação, dizer que queríamos nos alimentar bem, e por fim, queremos descobrir alguma pílula que cure toda consequência da nossa má alimentação, algo que emagreça, algo que queime gordura, algo que sare possíveis doenças vindas da nossa alimentação.
  • Não queremos sair do sedentarismo fazendo alguma atividade física. Queremos alguma coisa milagrosa pra nos manter saudáveis; exercícios milagrosos que não exijam qualquer esforço. Não queremos nem mesmo mais andar a pé. Oras, melhor ir de carro. Não queremos mais subir escadas. Melhor um elevador ou escada rolante. Tudo é longe e cansativo. E afinal, não temos tempo né? E, quando pensamos em fazer algo por nós mesmos, preferimos contratar alguém pra nos motivar, um personal trainer fera ou uma academia top. Não conseguimos priorizar o que queremos e buscar alternativas por nós mesmos. Precisamos de alguém pra nos incentivar e nos cutucar.
  • Não temos mais coragem e não sabemos mais priorizar o que consideramos importante para criar hábitos e sermos disciplinados. Algumas pessoas parecem adiar: começo na segunda-feira, ou na semana que vem, ou no mês que vem, ou quando tiver tempo ou dinheiro. Ou, vamos ser sinceros, nunca. Foram só desculpas funcionais. Talvez algumas delas resolvam fazer algo intenso, desproporcional e passam dos limites, fazem uma loucura exagerada por 7 dias, às vezes de uma forma que não funciona pra si e até traz prejuízos. Só copiaram de algum panfleto de marketing milagroso e aí desistem: não era pra mim ou não consigo. Não tentaram refletir, priorizar, questionar, descobrir como poderia funcionar e ser melhor pra elas próprias, como dar passos pequenos e contínuos.
  • Não queremos ficar em silêncio conosco mesmo. Queremos uma música tocando, uma TV de fundo falando algo, ou pensamentos pra incendiar nossa mente e tampar essa falta de som que nos enlouquece. Temos medo do que possamos saber de nós mesmos, do que nos incomoda, do que está escondido e suprimido.
  • Não queremos abrir mão de saciar nossos desejos. Acreditamos que eles são símbolo de nossa liberdade. Então, que sejamos livres! Uma utopia eficiente para nos tornar verdadeiros escravos deles. Não sabemos mais lidar com os desejos. Não temos mais clareza para priorizar o que consideramos mais importante e benéfico pra nós a médio e longo prazo. E nos perdemos numa corrida sem fim e sem direção, insaciados.
  • Não queremos lidar com nossos problemas. Buscamos nos distrair e nos entreter o máximo possível para tentar esquecê-los.
  • Não queremos lidar com o tédio. Cada vez precisamos de doses maiores de excitação e de emoções.
  • Não queremos falar de emoções. Tudo, menos falar o que sentimos.
  • Não queremos nos conectar com os outros. Queremos apenas nos distrair em grupo, nos distrair da vida, nos distrair de nós mesmos, nos distrair dos outros, sem qualquer necessidade de ouvir, de conectar, de sentir o outro.
  • Aprendemos a reclamar mais e a agir menos. Exige menos interferência nossa. Podemos terceirizar as mudanças e soluções para os outros.

E assim, a vida passa num piscar de olhos e viajamos por ela como meros expectadores que nem sabem ao certo qual é a peça apresentada no drama de suas vidas.

Quer um desafio?

Proponho algum desses exercícios em qualquer dia e hora:

  • Lave sua própria louça. Se concentre na atividade. Olhe com atenção o que está nas mãos. Sinta a temperatura da água. Apenas isso. Atividade simples e funcional.
  • Faça sua própria comida. Descubra poucos legumes ou verduras que goste, ou ouse experimentar caso não tenha costume de comer alimentos não industrializados. Quem sabe mesmo apenas dois desses alimentos. Cozinhe com atenção. Sinta o cheiro, perceba as cores. Depois, saboreie com calma. Mastigue devagar.
  • Tire 5 minutos do seu dia. Sente-se. Concentre-se na sua respiração. Não se importe caso pensamentos surjam na sua mente. Não tente controlá-los, expulsá-los e nem se apegar a eles. Só observe. Deixe eles virem e irem. E assim que notar que está viajando em pensamentos, volte sua atenção à respiração. Perceba as sensações e emoções. Inspire, expire.
  • Na sua locomoção para o trabalho, experimente uma única vez não colocar música ou ir conversando com alguém ou ir assobiando. Experimente o silêncio. Experimente observar as coisas ao seu redor, os outros seres, as formas, as cores, os cheiros, as texturas, a sua respiração.
  • Da próxima vez que se deparar com uma escada e do outro lado um elevador ou escada rolante, opte pela escada. Permita seu corpo se exercitar.
  • Tem que ir até a padaria ou mercado que fica a menos de 1km da sua casa? Que tal experimentar ir a pé, observando o seu corpo e o ambiente?
  • Escolha uma pessoa e abrace-a. Sem aqueles tapinhas nas costas buscando logo sair desse encontro. Abrace pra valer. Sinta esse abraço por 5 segundos. Doe e receba o carinho com atenção.
  • Seja grato. Observe o seu dia, os acontecimentos, as pessoas, as coisas simples e até rotineiras. Tenha atenção. Exercite a gratidão por algo ou alguém.