A satisfação pode estar nos limites

versão 0.1 — texto aberto a feedbacks

30 possíveis locais para morar

Imagine que você deseja mudar de residência e alugar um outro local. Você não tem qualquer restrição com preços, tamanho e localização. Então, você começa a fazer uma pesquisa. Em uma semana de pesquisa você encontra possíveis 30 locais interessantes para morar, já garantindo algumas preferências.

Para piorar, imagine que você pudesse morar em qualquer cidade, qualquer estado e até país. Para esse caso ilustrativo, você trabalha remotamente.

Então, de 30 locais possíveis, imagine que esse número seja tão mais alto que nem dá pra imaginar: quantos locais possíveis não existem no mundo quando não há restrições?

Qual a chance de você conseguir ter clareza de qual escolher, ter tranquilidade para tomar a decisão e satisfação da escolha após se mudar?

Não ficaria com um pouco de ansiedade? Talvez até com medo de fazer a escolha errada e depois quem sabe com um pouco de insatisfação achando que algum outro lugar poderia ter sido melhor?

Como uma sociedade, temos alcançado o que nossos antepassados, se muito, poderiam apenas sonhar, mas tudo isso veio com um alto preço. Nós conseguimos ter o que nós queremos, somente pra descobrir que o que nós queremos não nos satisfaz na intensidade que imaginávamos. Nós estamos rodeados por dispositivos modernos e que economizam tempo, mas parece que nunca temos tempo suficiente. Nós estamos livres para sermos autores de nossas próprias vidas, mas nós não sabemos exatamente que tipo de vidas nós queremos “escrever”. — Livro Paradoxo da Escolha, de Barry Schwartz.

3 possíveis locais para morar

Agora, imagine que você trabalha num escritório e que precisa ter fácil acesso a ele nos dias de semana. Você também tem restrição de dinheiro, pois está com as finanças bem justas e não quer morar em casa, apenas em apartamento.

Além disso, seu contrato de aluguel está vencendo em 2 meses.

Ou seja, suas escolhas serão limitadas por local, dinheiro, tipo de residência e tempo para escolha.

Depois de 1 mês pesquisando, você consegue encontrar 3 possíveis locais para se mudar.

Sente um pouco mais de clareza sobre qual decisão tomar?

Limites

Nos dois exemplos acima temos liberdade de escolha, mas o segundo caso há limites claros.

Esses limites nos permitem concretizar uma intenção em fazer algo dentro das restrições que encontramos.

Se aceitarmos e olharmos positivamente para os limites, podemos apreciarmos a liberdade oferecida e explorar ainda mais nossa capacidade criativa.

Eles podem existir por vários meios: pelo seu contexto de vida, por outras pessoas, pela sua saúde, pela sua família, etc.

Em vez de pensarmos neles como uma prisão, podemos pensar como uma estrutura e sistema que nos auxilia. Eles nos dão parâmetros de onde ir, o que fazer ou até o que transgredir.

Eles podem nos livrar da ansiedade de não encontrar um caminho e não saber para qual direção dar o próximo passo.

Claro, há uma diferença entre ter poucas opções e não ter qualquer opção, quando só há uma forma de se fazer algo ou apenas um caminho a seguir. Mesmo sendo possível tentarmos trabalhar a aceitação nesse último caso, a insatisfação pode acontecer mais facilmente por não podermos exercer qualquer escolha. Então, para esclarecer, o que tento comparar nesse texto é ter muitas opções ou opções infinitas com ter opções limitadas.

De dentro pra fora

É possível observar uma liberdade que vem de dentro para fora, onde temos consciência dos limites ao nossos redor, aceitando-os ou transpondo-os criativamente. Diferente de uma liberdade infinita que vem de fora para dentro, soprando tão forte e com força suficiente para nos derrubar e nos deixar ali estáticos no chão sem saber o que fazer.

Estranhamente quando tudo é permitido e não há qualquer limite, é quando costumamos não saber o que fazer, dá um branco.

“Para lidar com o problema da escolha excessiva, devemos decidir quais as escolhas em nossas vidas realmente importam e focar nosso tempo e energia nelas, deixando muitas outras oportunidades simplesmente passar por nós. Restringindo as nossas opções, nós seremos capazes de escolher menos e nos sentir melhor.” — Livro Paradoxo da Escolha, de Barry Schwartz.

Muitas opções e insatisfação

Sofremos quando temos muitas escolhas disponíveis, apesar de aparentemente parecer benéfico, por acreditarmos ter mais liberdade de nos expressar. Acontece que talvez não temos capacidade de escolher e comparar tantas opções ao mesmo tempo. Nem mesmo sabemos ser tão objetivos para ter clareza do que comparar com o mesmo peso e valor.

E, pra piorar, mesmo quando conseguimos fazer uma escolha nesse tipo de situação, é comum nos sentirmos insatisfeitos e nos arrependermos em pouco tempo. Fica aquela sensação de que poderíamos ter escolhido outras opções. Nos sentimos frustrados. Parece ter sempre algo que seria melhor do que temos em mãos agora.

Acredito ser mais fácil usufruirmos com satisfação e gratidão o que escolhemos quando avaliamos poucas opções ou limitamos as várias opções disponíveis, intencionalmente, como parte de um processo para nos ajudar e guiar.

“Não há liberdade sem disciplina, sem visão, sem uma forma … Se não houvesse linhas pintadas na estrada, você não estaria livre para deixar sua mente divagar e ser criativa enquanto você dirige. Você ficaria muito ocupado esperando que ninguém bata em você. Mas se houvesse muitas pistas e restrições e regras, você teria o tráfego muito mais lento do que deveria, enquanto todo mundo estivesse tentando prestar atenção qual lugar certo para estar “ — Making it All Work: Winning at the Game of Work and Business of Life, David Allen.

Liberdade satisfatória

Penso que talvez exista uma liberdade satisfatória que está entre poder escolher algo — ter mais de uma opção — e ao mesmo tempo não ter escolhas infinitas, ao contrário, ter opções limitadas.

A liberdade tão almejada pode ser algo mais mental do que imaginamos.

No fim, podemos nos sentir presos estando numa ilha paradisíaca ou nos sentir livres dentro de uma prisão. A sensação de liberdade pode vir de dentro, da nossa intenção em como lidar com a vida e de nossa aceitação daquele momento com o que está ao nosso redor.