Os desejos e as coceiras

Os desejos involuntários são como coceiras, quanto mais coçamos, mais queremos coçar. E eles se espalham, tomam conta da nossa mente. Até chegarem ao ponto de além de não pararem de coçar, nos causam feridas.

Desenho de Laís Lara Vacco

Já ouvi pessoas me dizendo:

— A vida é muito curta pra nos privarmos [dos desejos].

— Tá com vontade, vai e faz.

Ao ouvir tais coisas, o que penso é:

— A vida é muito curta para ser vivida em função da satisfação de qualquer desejo.

Uma filosofia voltada para a realização em série dos desejos tende a nos tornar escravos deles, alimentando a crença de que para nos sentir tranquilos e satisfeitos, precisaremos estar sempre realizando cada desejo que brota na nossa mente, coçando aqui e ali, coçando esse e aquele, até perceber que nos machucamos e não resolveu.

Exemplo

Imagine que você vai à casa de um familiar. Após almoçar, uma mesa de doces é apresentada a você. Logo, desejos formiguentos aparecem em sua mente.

— Quero comer tudo!

De repente você sai comendo, um atrás do outro. Não teve tempo de refletir e discernir os desejos e suas necessidades.

Um tempo após comer, se sente super cheio e até um pouco enjoado. Se lembra que poucos dias atrás tinha conversado com alguém que precisa cuidar melhor da saúde e ter mais atenção com a alimentação. E logo vem a culpa.

Outro familiar, ao seu lado na mesma situação, teve os mesmos desejos, refletiu e pensou que poderia comer um doce e se manter nesse limite. Saboreou o doce e passado um tempo estava contente pela decisão consciente e pelo limite auto-imposto.

Ainda, outro familiar, desde o início tinha a decisão de não comer os doces. E após comer, sabia que estava satisfeito com o almoço. Apesar de ter tido impulsos involuntários sobre a delícia de comer doces, se manteve firme. A razão direcionou seus desejos.

Um dia depois, o cenário é mais ou menos esse:
Você, tendo comido muito mais do que julgaria necessário, tinha se sentido culpado e com mal-estar no fim daquela noite. Agora, está com vontade de novo, como qualquer outra pessoa que não tivesse comido. A vontade foi saciada apenas por alguns instantes.

O familiar que comeu apenas um doce, degustou-o. E um dia depois, a culpa não o tinha perturbado. E hoje cuidará para ter atenção nas próximas decisões.

O familiar que manteve uma decisão anterior de não comer doces, sentiu contentamento com sua auto-disciplina e os doces não lhe causaram sofrimento. A decisão de não alimentar esses desejos, com o tempo tem feito os mesmos secarem e perdido força.


Muitas vezes ceder aos desejos que imaginamos ser urgentes, não traz a tão almejada satisfação duradoura. Após alguns minutos eles podem voltar a aparecer, indiferentes, como se não tivéssemos acabado de realizá-los.

Os desejos involuntários são como um propulsor contínuo demandando nossa ação. Se não forem direcionados com atenção e discernimento, nos levam a um labirinto onde não encontraremos a saída.

  • Você pode realizar um desejo e se sentir pior.
    Exemplo: culpa; arrependimento; mal-estar; etc.
  • Você pode realizar e se sentir melhor mesmo alguns dias após o evento.
    Exemplo: ajudando alguém; fazendo um ato que julga bom que antes não tinha coragem; etc.
  • Você pode não realizar um desejo e se sentir pior.
    Exemplo: deixar a oportunidade de fazer algo bom e duradouro por você ou por alguém.
  • Você pode não realizar e se sentir melhor .
    Exemplo: ficar contente com sua auto-disciplina em seguir na direção de seus julgamentos e reflexões.

Uma forma de treinar essa capacidade de discernimento e não ceder a qualquer desejo, é diariamente refletir sobre os desejos que aparecerão no dia e que, antes de realizá-lo, você adiará a ação e dará tempo para reflexão para saber se é algo que decidiu fazer alinhado com sua filosofia de vida.

De forma prática, ainda aproveitando o exemplo de alimentação:

Amanhã, você pode tomar a decisão de que não comerá qualquer coisa ou qualquer quantidade que der na cabeça durante o dia inteiro. Você pode fazer um acordo com você mesmo de que terá que julgar antes de realizar os seus desejos e refletir sobre o quanto será benéfico, neutro ou maléfico. Você irá querer saber qual a necessidade que está tentando satisfazer: é fome? é ansiedade? é tédio? é um ciclo-vicioso?

E assim, você melhorará sua capacidade de ponderar e decidir qual a melhor forma de atender às suas necessidades e desejos.


Um truque para experimentar

Algo que funciona pra mim com casos que não consigo tomar a decisão de forma rápida é simplesmente adiar os desejos.

Imagine que me deu aquela vontade de comer mais alguma coisa logo após eu ter almoçado. E algumas questões me vêm à cabeça:

— Será que ainda estou com fome? Será que é só gula? É ansiedade?

Posso me tranquilizar e dizer a mim mesmo:

— Vou deixar pra comer mais tarde.

Funciona como um truque com a minha própria mente. Pois, dizendo isso, aceito não realizar o desejo naquele momento por acreditar ter a oportunidade de realizá-lo mais tarde.

Esse adiamento me permite refletir e me sentir satisfeito.

E, frequentemente, passado algum tempo não tenho mais aquele desejo.