Uma viagem de aprendizados

No meio do ano de 2017, eu e a Laís, tivemos a ideia de ir pro exterior praticar inglês. Especialmente pra mim, falar e escutar é um desafio enorme. Já era um assunto que conversávamos de vez em quando. E poderíamos conhecer outra cultura, nos colocar em outros desafios.

Espera, mais um detalhe. Tínhamos agendado nosso casamento quando estávamos pensando sobre isso, por volta de agosto.

Já tínhamos comprado passagens para passear alguns dias em Montevideo, Uruguai.

Entre uma sexta-feira e sábado, começamos a conversar e pensar em possibilidades de sair do Brasil.

Então, num domingo, dia 27/agosto/2017, enviamos email para um casal de amigos brasileiros que moravam em Katy, Texas, que já tinha me convidado algumas vezes a passar um tempo com eles. Então perguntei se a oportunidade ainda existia.

Ainda no domingo meu amigo respondeu informando que sim, que claro, poderíamos passar um tempo com eles e que seria um prazer. Ficamos animados e com mais coragem.

Na segunda-feira, pedimos demissão de nosso trabalho e começamos o aviso prévio.

Daí, a ideia não era mais irmos e voltarmos com data certa pro Brasil. Queríamos uma experiência mais forte: não ter o que nos prendesse no Brasil. Não por desconsiderarmos a possibilidade de volta, mas para permitirmos tomarmos as decisões de quando e pra onde ir, ao longo do tempo, viajando.

Queríamos também trabalhar ainda mais o desapego material, nos colocar numa situação de tomarmos decisões conscientes do que queríamos pra viver com pouco e de forma prática, cabendo em 3 mochilas.

Queríamos uma viagem com orçamento limitado e com poucos gastos. Não uma viagem turística de consumo e luxos. As passagens já eram caras o suficiente.

Dia do casamento. Colocando a aliança.

Nos casamos no início de setembro, dia 2, já sabendo que não teríamos mais emprego ou casa logo em breve.

Além dessas mudanças planejadas, foi uma surpresa para alguns da família a questão do casamento. Começamos a namorar em maio, nos mudamos pra morar juntos em junho em um apartamento no Butantã, São Paulo. E logo depois resolvemos nos casar.

Foram várias conversas, alinhamento de valores, reflexões e determinação para essas decisões e suas consequências.

Viajamos pra Montevideo no dia 3 e lá, mesmo aproveitando os dias de descanso na cidade, já começamos a pensar sobre a venda de nossas coisas. Acabamos adiantando a passagem de volta por conta disso.

Voltamos para o Brasil.

Começamos a vender as coisas que tínhamos em casa, eletrodomésticos, cama e muitas outras coisas. Planejamos a devolução do apartamento e rompemos com o contrato de aluguel, lidando com os gastos da multa.

Outras coisas que sobraram guardamos na casa de alguns parentes que acabaram nos ajudando muito com essa oportunidade.

Viajamos para o Espírito Santo para despedir da minha família e passar uns dias com eles. Depois, aproveitamos os dias restantes para visitar e despedir da família da Laís em São Paulo.

Em São Paulo, uma tia que já tinha dado a oportunidade de guardar vários itens maiores em sua residência também permitiu nos acomodarmos e passar os últimos dias no Brasil por lá.

E assim, no início de outubro já estávamos chegando em Katy.

Fizemos conexão em Fort Lauderdale, Flórida. Lembro que uma das primeiras coisas que comentei chegando no aeroporto foi algo do tipo: “não quero falar inglês nesse primeiro dia”.

Depois de enfrentarmos as filas gigantes na imigração, quem foi sorteado para ir para uma sala e ser entrevistado por um policial? Eu.

Passei uns quarenta minutos ou mais dentro da sala sozinho com um policial me fazendo vários tipos de perguntas. Às vezes eram as mesmas perguntas feitas de formas diferentes e em pontos diferentes da conversa como que pra tentar me pegar de surpresa com respostas que ele consideraria inválidas ou que me fariam ter que retornar pro Brasil. Tudo isso em inglês. Em certo momento entrou outro policial e ficou sentado ao lado apenas me olhando durante essa entrevista.

Me senti pressionado com tudo isso. Logo que saí da sala, conversei rapidamente com a Laís o que o policial ficou me perguntando e como respondi algumas coisas.

Lembro de ter comentado algo com ela:

— Vamos pensar no que de pior pode acontecer, que é sermos barrados e mandarem voltarmos pro Brasil. E mesmo assim podemos pesquisar um meio de irmos a outro país.

Isso de certa forma nos ajudou a alinhar expectativas, nos prepararmos e nos acalmarmos.

E pra nossa surpresa, logo em seguida, ele chamou a Laís pra ser entrevistada, separada de mim. Pra ela, ele repetiu várias perguntas, como se não tivesse conversado comigo. O bom é que ela sabia como eu tinha respondido parte da minha entrevista. A entrevista com ela demorou por volta de 20 minutos.

Resultado: apesar da pressão fomos liberados. 
Passou tanto tempo que já não tinha mais ninguém no saguão das filas da imigração. E olha que estava bem lotado quando fomos chamados.

Passamos o dia inteiro no aeroporto aguardando o outro vôo para Houston, que seria no início da noite. Tentamos dormir em algumas cadeiras e depois passamos o dia lendo e conversando.

Chegando em Houston, meu amigo e seu filho, foram nos buscar.

Na casa deles fomos bem acolhidos durante todo o tempo que passamos por lá. Pudemos ficar bem a vontade e confortáveis. Oportunidade que nem todos têm.

Passado alguns dias, fomos até a escola de inglês saber sobre o curso gratuito. Infelizmente o período de registro já tinha passado. Um detalhe que não sabíamos.

Procuramos outras escolas. Encontramos uma particular. O investimento seria alto apesar de parecer interessante. Era um intensivo de várias horas, cinco vezes por semana.

Enquanto pensávamos no que fazer, eu e a Laís começamos a praticar inglês entre nós. Foi a primeira vez que nos dispusemos a fazer isso desde que estamos juntos. Não sabíamos o nível de inglês um do outro, e mesmo com desconforto e vergonha, nos permitimos ser vulneráveis e a tentar de vez em quando conversar sobre algum assunto, alguma coisa do dia-a-dia em inglês.

Alguns dias passaram e resolvemos aplicar para alguns voluntariados pelo worldpackers e workaway. Conseguimos uma entrevista por skype com um hostel em Providence, Rhode Island.

Depois da entrevista, trocamos alguns emails e fomos aprovados. Lá, seriam 2 semanas de avaliação e depois 1 ou 2 meses por lá, se desejássemos. Conseguimos negociar um quarto privado para acomodação em troca de nosso trabalho por lá.

E surgiu uma outra oportunidade: já que o quarto privado ainda não estava disponível, os donos do hostel nos deixaram em contato com uma pessoa de Coventry, Rhode Island, que morava numa casa, meio que fazenda, e queria ajuda o quanto antes.

Decidimos aceitar as duas oportunidades e desistir do curso de inglês em Katy.

Assim poderíamos fazer uma imersão cultural em inglês.

Procurando passagens pra Rhode Island, descobrimos que tinha uma escala em Denver, Colorado que sairia mais barato ou mesmo preço do que ir direto pra Boston e depois pegar um trem pra Providence.

Então resolvemos fazer diferente: comprar passagens pra Denver e passar alguns dias por lá, passear. E depois ir pra Providence.

Como tínhamos um orçamento limitado para todo esse tempo fora do Brasil, especialmente por nossa moeda estar desvalorizada em comparação com o dólar, tentamos aplicar pra couchsurfing em Denver.

Fazendo couchsurfing em Denver

Um casal nos aceitou pra ficar duas noites na casa deles em um quarto privado no centro de Denver, e com isso não tivemos gastos de acomodação.

Depois conseguimos encontrar um hostel com o preço abaixo do que vínhamos encontrando e com um quarto privado. Uma curiosidade: o quarto tinham duas beliches, ou seja, quatro camas, de tamanho queen-size. Sim, quatro camas de casal, apenas para um casal.

Voamos para Providence, RI, e lá a dona da casa que desejava ter a gente como voluntários foi nos buscar no aeroporto.

Pintando

Passamos umas 2 semanas com ela. Lá ajudamos a cuidar dos animais, cachorros, gato, papagaio, burra, bezerra e galinhas. Ajudamos a limpar e organizar a casa. Parafusar coisas. Pintar cômodos. E outras tarefas.

Logo que cheguei eu tentava me isolar pra não ter que interagir em inglês. O medo era grande.

Desde o início, quando vim pra cá, eu sabia que interagir em inglês era um grande desafio na minha vida. Me gerava ansiedade. E isso era um fator pra eu me desafiar ainda mais a tentar, mesmo com medo.

A Laís contribuiu muito para essa minha determinação, me incentivando a todo momento para isso.

Passado alguns dias, comecei a me permitir estar mais próximo às pessoas. Lá viviam a dona da casa, o namorado e o irmão do namorado.

Com menos ansiedade e mais aceitação, eu, ou entendia um pouco mais do que diziam, ou tinha mais coragem de pedir pra repetirem pra eu tentar entender.

E eu ia pedindo ajuda da Laís pra me expressar quando faltavam palavras pra explicar. Quando eu não entendia algo, também contava com a ajuda dela pra compartilhar comigo o que ela entendeu.

Com o tempo eu conseguia estar sozinho com eles quando necessário, sem a Laís por perto. Coisa que eu não me permitia no início.

Além do desafio da língua e tarefas que realizamos, estamos lidamos com os desafios de estar na casa de outras pessoas, outros costumes, outras dificuldades.

Depois viemos para o hostel em Providence.

Eu, a La e uma outra voluntária da Polônia no hostel

Aqui temos algumas tarefas em turnos agendados. As tarefas vão desde varrer, passar pano, limpar banheiro, organizar coisas, até fazer check-in e check-out de hóspedes.

Aqui tem sido bom pra lidar ainda mais com os desafios e desconfortos: seja resolvendo-os, superando-os ou tolerando-os.

Eu e a Laís estamos em um quarto privado, o que é ótimo. Ao mesmo tempo a cama é de molas, faz barulho e mexe cada vez que nos viramos. Sinto algumas molas enquanto deixo meu corpo deitado. É uma época de frio e mesmo com o aquecedor ligado no hostel, o quarto continua frio.

A divisão do quarto pro corredor são duas grandes portas, quase de fora a fora, que se abrem pra dentro. As portas, apesar da moldura, são de vidro. O que ajuda são as persianas, na horizontal. Então, a privacidade não é o melhor atributo aqui, já que se alguém parar em frente à porta consegue enxergar nas frestas das persianas ou entre as portas.

A forma de gerenciamento e de lidar com as pessoas aqui no hostel, não é uma forma que admiro ou sinto bem-estar, pelo contrário. Tivemos alguns desafios de comunicação com a gerente, e não foi pelo inglês, e sim por termos abordagens diferentes de tentar um diálogo e resolver conflitos diretos.

Esses pontos citados não são uma forma de reclamar, pois isso de nada ajudaria. É apenas uma forma de contextualizar algumas coisas que considero desconfortáveis nesse momento e pra lembrar que nos permitir estar expostos a dificuldades pode ser proveitoso para a vida.

Isso nos permite refletir e melhorar algumas capacidades emocionais, saber quais habilidades de vida podemos buscar aprender ou intensificar o treino, além de sermos gratos por privilégios que temos na vida.

É um intensivo da escola da vida. Uma pausa de desconforto planejado que permite aprendizados e reconhecimento de tudo que temos.

Vamos aprendendo, nos sentindo mais confortáveis e nos próximos desafios da vida, vamos tendo referências de outras situações e aprendizados para enfrentá-los melhor.

Desde que saí do Brasil eu tinha clareza e isso só se confirma, que a maior e mais proveitosa viagem não é a da distância física, de um ponto ao outro, nem de conhecer os lugares mais belos ou curiosos, mas da viagem interna, de descobrimento e criação das melhores versões de nós mesmos. Uma viagem que não tem fim e que podemos com atenção e reflexão aproveitar com entusiasmo cada passo no caminho da vida sem mesmo sair do lugar.

Sobre o inglês percebo que tenho conseguido praticar mais a escuta e a fala. Tenho um pouco menos de medo de tentar falar, mesmo tendo dificuldade ou errando em alguns momentos. Sinto que me arrisco mais. E também creio estar conseguindo entender um pouco melhor por me sentir um pouco menos ansioso.

E aqui encerro o texto mas não a história.

Visitando o Public Garden em Boston
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