O impacto da natureza na saúde humana

Por que precisamos falar sobre paisagismo em espaços médico-hospitalares?

Um dos nossos nichos de atuação é na área hospitalar e da saúde; jardins em hospitais, clínicas, laboratórios … E vamos dedicar um pedaço desse blog ao tema.

Para dar início aos textos sobre o tema, achamos que valia super a pena começar pelo começo: por que precisamos falar sobre paisagismo em espaços médico-hospitalares? (e se você não gosta de ler ou está sem tempo, rola a página pro último parágrafo, a gente vai perdoar você)

Bom, nós acreditamos que estar lá fora é regenerativo e terapêutico. E muita gente sabe intuitivamente que natureza faz bem pra saúde: viver num bairro mais arborizado, passar um tempo no sítio da família, ir pra praia, fazer uma trilha, tomar banho de cachoeira.

Pois então vamos falar sobre o fato de isso estar cientificamente comprovado.

Já existe (há um bom tempo) um conjunto consistente de pesquisas realizadas e em andamento, que tratam de estudar e analisar os efeitos da natureza sobre a saúde humana.

ALGUMAS REFERÊNCIAS

Uma das primeiras e mais famosas foi publicada em 1984, pelo norte-americano Roger Ulrich. No seu estudo ele comparou a recuperação entre pacientes cujas janelas dos quartos onde ficaram internados, após passarem por um mesmo tipo de cirurgia, tinham vista para um conjunto de árvores e pacientes cujas janelas tinham vista para um muro de tijolinhos marrons. Seu estudo concluiu que os pacientes com vista para as árvores não só se recuperaram em menos tempo, como precisaram de menos analgésicos, tiveram menos complicações pós-cirúrgicas e ainda reclamaram menos do atendimento (uau!).

Estava então aberta a possibilidade de um olhar mais científico e sério sobre o espaço hospitalar e o papel da arquitetura e da natureza na humanização dos edifícios de saúde.

E de lá pra cá muitas pesquisas avaliaram o impacto da natureza na recuperação ou manutenção da saúde. (Exis)Tem pesquisadores de vários lugares do mundo e de diversas áreas do conhecimento (médicos, agrônomos, biólogos e por aí vai), dedicando-se a essas investigações.

No Japão, o “Banho de Floresta” tem benefícios cientificamente comprovados pelas pesquisas do Professor Ph.D. Yoshifumi Miyazaki.

Em uma de suas pesquisas, onde os voluntários são submetidos a 20 minutos de observação da natureza, 20 minutos de caminhada no ambiente natural e em seguida mais 20 minutos de observação, os números são animadores: uma redução de 16% do hormônio do stress, 2% na pressão arterial, 4% na frequência cardíaca e um aumento de mais de 100% das atividades do sistema nervoso parassimpático — que mede o nível de relaxamento. E o que é melhor, ele afirma que os efeitos podem ser identificados por até um mês após o “Banho de Floresta”.

No Reino Unido o Dr. Mathew White da Universidade de Exeter, estudou os efeitos de se viver em áreas urbanas mais ou menos arborizadas/vegetadas — sobre a saúde mental das pessoas ao longo do tempo. Seu estudo, utilizando dados de saúde pública, concluiu que pessoas que se mudaram para áreas mais vegetadas apresentaram melhoras em sua saúde mental; enquanto pessoas que se mudaram para áreas menos vegetadas apresentaram pioras na saúde mental.

A Professora Jolanda Maas da Universidade Vjirne em Amsterdam, Holanda, desenvolve pesquisas nessa mesma linha. Em 2013 estudo o impacto do grau de arborização/vegetação das vizinhanças sobre a saúde mental e ambiente social das comunidades em 4 diferentes cidades europeias — Barcelona (Espanha), Stoke-on-Trent (Reino Unido), Doetinchem (Holanda), e Kaunas (Lituania).

Nos Estados Unidos, a professora Virginia Lohr, do departamento de Horticultura da Universidade de Washington se dedica à linha de pesquisa “impacto das plantas nas pessoas” ou “questões humanas na horticultura”, e alguns de seus estudos são dedicados a investigar os impactos de plantas sobre o stress e a produtividade em ambientes internos.

Poderíamos gastar mais alguns parágrafos comprovando que existem evidencias científicas de que a natureza é importante na manutenção e recuperação da saúde humana, mas essas já devem ser suficientes. (Esperamos realmente que se você chegou até aqui esteja completamente convencida(o))

Ok, mas ainda em dúvida sobre a necessidade de considerar tudo isso ao projetar-construir- administrar um edifício médico-hospitalar?

De volta ao nosso primeiro pesquisador, Roger Ulrich, quase duas décadas após o artigo da Science sobre as vistas com árvores ou tijolos, ele usou o termo “DESIGN BASEADO EM EVIDÊNCIA” — com o intuito de reforçar a ideia de que não podemos ignorar de forma responsável e ética uma evidência que mostre que uma determinada intervenção ou abordagem de arquitetura ou paisagismo tem efeitos importantes na saúde ou na segurança do paciente.

Por isso precisamos falar sobre paisagismo médico-hospitalar:

Porque com base nas evidências, nós acreditamos que é preciso incluir a natureza no programa de necessidades¹ do edifício médico-hospitalar.

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Nota

(1) Dicionário Ilustrado de Arquitetura de Albernaz e Lima:

(verbete) programa de necessidades:

“1. Espaço arquitetônico definido de acordo com o conjunto de atividades sociais e funcionais nele exercido e com o papel que representa para a sociedade. Os programas arquitetônicos modificam-se no tempo segundo as novas necessidades criadas pelo homem.

2. Classificação, em termos genéricos ou minuciosa, do conjunto de necessidades funcionais correspondentes à utilização do espaço interno e à sua divisão em ambientes, recintos ou compartimentos, requerida para que um edifício tenha um determinado uso.”