A proposta secular do Dalai Lama

Por onde quer que passe, quando Sua Santidade ensina no Ocidente, ele sempre reafirma que não está num trabalho de “conversão”. O esforço do Dalai Lama não é em transformar as pessoas que o ouvem em budistas, mas em trazer um pouco de sua experiência como budista e como “apenas um monge” para o diálogo com uma diversidade de culturas e inclinações.

Ele acredita que — e aparentemente quem quer que interaja com ele invariavelmente concorda — pode haver algum benefício nessa interação.

Como sou uma pessoa que possui o defeito de ser extremamente cínico, muitas vezes, considerei as palavras de Sua Santidade uma maquinação política sofisticada, um “converter pelo não converter”. Afinal de contas, se o darma budista é bom, e queremos o benefício dos seres, queremos que todos os seres encontrem o darma do Buda. Não é isso?

Pelo jeito não. Embora a visão de Sua Santidade seja de fato mais sofisticada do que parece a primeira vista, ela não tem nada de maquinação. O objetivo do budismo nunca foi produzir budistas. Por mais que o compromisso com a prática seja importante para o praticante, se ele não surge de um processo pessoal de questionamento e conclusões, de pouco serve.

Esse livro que a Lúcida Letra agora publica no Brasil com o título de Além de religião: Uma ética para um mundo sem fronteiras é uma continuação de temas que Sua Santidade já explorou no também verdadeiramente excelente Ética para o novo milênio. Em ambos os livros Sua Santidade reafirma que os valores éticos — os valores que levam a uma boa vida e ser uma boa pessoa — não exigem ensinamentos ou compromissos propriamente religiosos. Nesse novo livro, no entanto, além de renovar e condensar o argumento do Novo Milênio, o diferencial é que ele fornece alguns métodos práticos de cultivo mental (meditação), de origem budista, num formato absolutamente secular.

De fato, se você quer se tornar um budista, não é muito fácil fazer isso com uma conexão com Sua Santidade. Ele mesmo repete vez após vez (e também nesse novo livro) que o melhor é você ficar com sua própria tradição, levá-la a sério e praticá-la bem. E agora, se você não tem tradição alguma, mas apenas segue o humanismo secular ou a visão científica, ele também não parece interessado em fazer de você um budista. Se você sentir inclinação para o cultivo e treinamento da mente com alguns métodos de origem budista, você pode se engajar neles sem compromisso algum, e sem precisar aceitar nenhuma ideia religiosa.

Além disso, Sua Santidade, ao contrário da maioria dos outros professores budistas, não funda centros de prática pelo mundo. Você não consegue ir a um lugar para se tornar um seguidor dos métodos do Dalai Lama — esse lugar simplesmente não existe. A única coisa que Sua Santidade diz é que, se você realmente quiser ser budista, pense duas vezes, porque será difícil e é melhor levar a coisa muito a sério. Além disso, parece realmente não haver muita gente que deseje compromisso com o budismo: se for para levar pouco a sério, melhor nem iniciar — melhor ficar com o contexto secular que Sua Santidade agora também promove.

A visão de Sua Santidade sobre uma ética completamente secular pode parecer óbvia para alguns de nós que gostamos dos ideais iluministas e que não temos realmente convicções religiosas. Porém, para a maioria das tradições religiosas, dizer algo desse tipo é bastante temerário. Ainda assim, o secularismo de Sua Santidade, é claro, tampouco é antirreligioso. As religiões têm valor, e podem ajudar, mas não são essenciais para o desenvolvimento daquilo que ele chama de “valores interiores”.

Nas palavras de Sua Santidade:

“Para mim, embora os seres humanos possam viver sem religião, eles não podem viver sem valores internos. Meu argumento em separar a ética da religião é, portanto, muito simples. A meu ver, a espiritualidade tem duas dimensões. A primeira, base do bem-estar espiritual — com isto refiro-me à força e ao equilíbrio mental e emocional –, não depende de religião, mas faz parte da nossa natureza humana inata como seres sencientes que possuem uma predisposição natural para a compaixão, a bondade e o afeto com os outros. A segunda dimensão é aquela que pode ser considerada como espiritualidade baseada na religião, adquirida a partir de nossa educação e cultura, e está ligada a determinadas crenças e práticas. A diferença entre essas duas dimensões para mim é como a diferença entre a água e o chá. Ética e valores internos sem o conteúdo religioso são como água, algo de que precisamos todos os dias para nossa saúde e sobrevivência. Ética e valores internos baseados em um contexto religioso são mais como o chá. O chá que bebemos é composto por água, mas também contém outros ingredientes — folhas de chá, especiarias, talvez um pouco de açúcar ou, pelo menos no Tibete, sal — que o tornam algo que queremos todos os dias, mais nutritivo e substancial. Mas não importa como o chá é preparado, seu principal ingrediente é sempre a água. Enquanto podemos viver sem chá, não podemos viver sem água. Dessa mesma forma, nascemos sem religião, com necessidade de compaixão.”

Nem mesmo o budismo é necessário para uma boa vida com bons valores. Porém, para aqueles que têm conexão com os ensinamentos do Buda e talvez aspirem algo mais do que essas necessidades básicas, os ensinamentos ainda estão disponíveis e seu valor é indiscutível. Algumas vezes essa abertura budista a uma perspectiva secular é mal interpretada, como se implicasse que o compromisso com o budismo é desnecessário para toda e qualquer pessoa — todo budista se alegrará (e Sua Santidade não é diferente) com alguém que se engaja em praticar e sustentar os ensinamentos do Buda. Ocorre apenas que, se a pessoa não for fazer isso após ter atingido uma convicção íntima independente de caprichos e subserviências, melhor nem começar.

As ruínas de Nalanda

Origem do secularismo

Muitas e muitas vezes Sua Santidade traça a origem de sua perspectiva na Universidade de Nalanda, uma instituição budista que no ápice abrigou 10 mil monges-alunos. Nalanda funcionou do séc. V até o séc. XIII, e mais do que “mosteiro”, merece o título de “universidade” — talvez a primeira do mundo. O que ocorre é que Nalanda, embora uma instituição budista, também se dedicava ao estudo de todas as outras correntes religiosas e filosóficas da Índia. Havia um interesse nítido no diálogo interreligioso e professores de outras tradições eram frequentemente convidados para ensinar e debater.

No entanto,Sua Santidade vai além de Nalanda para explicar o que entende por “secularismo”. Nós, aqui no Ocidente, entendemos a perspectiva secular ou multicultural como tendo sua origem no iluminismo. Antes disso, o respeito pela alteridade não era institucional e não fazia parte do discurso racional — ele ocorria, mas não era justificado ou fomentado, com exceções aqui e ali. Um dos aspectos que entendemos por “moderno” é conviver diariamente com pessoas que agem e pensam de acordo com critérios vastamente diferentes dos nossos, especialmente nas grandes cidades, e especialmente no Novo Mundo. Mas, como todos sabem, e pela grande confusão ideológica no cenário particularmente político, lidar com a alteridade, embora essencial, não é fácil nem mesmo para seres pós-modernos e pós-iluministas como nós.

Ainda assim, ao que parece, segundo Sua Santidade, o secularismo multicultural não é nem uma invenção do iluminismo, nem do budismo: é uma invenção indiana, de antes de algo chamado “Índia” existir. Muito antes de Nalanda, a Índia, talvez por densidade demográfica e fragmentação cultural, já lidava com um multiculturalismo efervescente. Ao contrário do imperialismo cultural greco-romano, ou das perspectivas monoteístas do ocidente, o que chamamos hoje de Índia era uma esfera multicultural que ia do Afeganistão até o sudeste asiático. Centenas, talvez milhares, de línguas eram faladas, e as pessoas conviviam o tempo todo com religiões diferentes, ou pelo menos com variações grandes de uma mesma religião numa vizinhança.

E Sua Santidade afirma também que a independência indiana, com Gandhi e com os primeiros presidentes, foi fundada nesses exatos princípios de tolerância mútua. Segundo o Dalai Lama, os princípios do imperador budista Ashoka, no terceiro século antes de Cristo, ainda estão bem vivos na Índia e seguem a fundação de um estado democrático hoje. Em um de seus éditos em placas de metais afixadas em obeliscos, ainda hoje de pé, está escrito: “Honre a religião alheia, porque assim irá fortalecer tanto a sua própria quanto a do outro”.

Também na Índia, durante o período que chamamos na Europa de “alta idade média” (do séc. V ao séc. X), não havia apenas religiosos, mas também os charvakas, uma escola materialista que rejeitava escrituras, rituais e o sobrenatural. Isto é, mais ou menos semelhante ao que reconhecemos hoje como o ceticismo materialista predominante no pensamento secular. Eles recebiam, em Nalanda e também nos outros contextos não budistas, o mesmo tratamento respeitoso reservado às muitas tradições religiosas.

Sua Santidade chega a afirmar que criticar a religião pode ser útil até para o fortalecimento da religião, já que os que encontram falhas em professores hipócritas ajudam as tradições a melhorarem.

De todo modo, nos elementos realmente cruciais, no que diz respeito a convívio mútuo, compaixão e ética, Sua Santidade diz não haver necessidade de religião: “…acredito firmemente que a ética também pode emergir de forma simples, como uma resposta natural e racional à nossa própria humanidade e à condição humana que compartilhamos.” Bem como “Neste livro, meu intento foi descrever o que considero serem os elementos-chave de uma abordagem puramente secular da ética e da promoção dos valores humanos básicos. É um projeto com o qual estou comprometido desde que compreendi que nenhuma religião pode ter a esperança de satisfazer a todos. Simplesmente existe um número muito grande de disposições mentais diferentes entre os 7 bilhões de habitantes do nosso planeta para isso ser possível.

O livro Além de religião

O Dalai Lama publica muitos tipos diferentes de livros e em português nem sempre as traduções são boas. Há tratados de pontos intricados de filosofia budista, livros de divulgação de tópicos gerais e simples do darma, diálogos com cientistas, pensadores e religiosos, coletâneas de frases, palestras transcritas, livros que se aproximam da autoajuda e manifestos em linguagem direta sobre o que ele considera ser mais necessário hoje. Esse livro agora lançado se enquadra nessa última categoria, e a Lúcida Letra se esmera em fazer traduções de qualidade. De texto simples e acessível, ele se inspira efetivamente no espírito e na sofisticação filosófica de Nalanda e do secularismo como surgiu e se manteve na Índia, melhor entendido como convívio multicultural enriquecedor.

Este livro é uma boa pedida para todos os fãs do Dalai Lama, ou para pessoas interessadas numa perspectiva secular de ética e boa vida inusitada em nossa cultura. Para aqueles inclinados ao viés secular, ou vinculados a outras tradições, mas que se interessam em conhecer métodos de treinamento da mente inspirados no budismo, o livro será recompensador. Também é imprescindível para os praticantes que se interessam em seguir o exemplo de Sua Santidade em como lidar com a sociedade moderna.

Para comprar o livro, acesse www.lucidaletra.com.br