Mingyur Rinpoche, O Professor da Estabilidade Adamantina

Yongey Mingyur Rinpoche (Foto por Jamyang Choedak, gentilmente cedida por Tergar International)

Este Senhor do Darma é detentor de afirmações preciosas, atemporais e profundas, os ensinamentos últimos e mais secretos. (Tai Situpa, na oração de longa vida de Mingyur Rinpoche).

O termo “mingyur” em tibetano significa “imutável”. Algumas pessoas podem se perguntar como, se no budismo tudo é impermanente, um professor pode se chamar “imutável”.

Há algumas formas de interpretar isso. A primeira forma seria ler como se lê poesia, a imutabilidade não é literal, ela é uma aspiração e um louvor a um professor que é extremamente estável. Essa estabilidade diz respeito à prática de meditação, mas também ao fato de que ele é infalível ao longo de muitas vidas, sempre manifestando as qualidades supremas de um guia que leva os seres às felicidades temporárias e à definitiva. Também se refere ao fato de que ele mantém os ensinamentos vivos durante períodos difíceis, em que eles tendem a se degradar.

A segunda forma de ver essa imutabilidade é referindo-se à natureza mais fundamental da mente, que não é composta, não tem princípio nem fim, e não se altera com o tempo. O professor é um aspecto dessa mente que surge diante de nós para nos lembrar desse aspecto, que não tem dono, e que não está aqui ou lá.

Caso sejamos capazes de reconhecer pelo menos um ser no horizonte espelhando essa qualidade, isso se deve a vastas quantias de mérito (boas ações) amealhadas por muitas vidas consecutivas. É bom regozijar.

A atual manifestação dessa estabilidade ou imutabilidade nasceu em 1975 e foi prontamente reconhecida por Dilgo Khyentse Rinpoche (um dos professores do Dalai Lama e de Chagdud Tulku Rinpoche) como uma emanação do sétimo Yongey Mingyur Rinpoche e de Kangyur Rinpoche. Ele é filho de Tulku Urgyen Rinpoche, e irmão de Chokyi Nyima Rinpoche, Tsikey Chokling Rinpoche, e Tsoknyi Rinpoche. Ele também é tio de Phakchok Rinpoche e do Yangsi de Dilgo Khyentse Rinpoche. (Tsoknyi Rinpoche e Phakchok Rinpoche já ensinaram no Brasil).

Seus principais mestres nesta vida foram Tulku Urgyen Rinpoche, Nyoshul Khen Rinpoche, Saljey Rinpoche, Dilgo Khyentse Rinpoche e Trulshik Rinpoche. Tai Situ Rinpoche, um de seus principais professores, é uma das figuras mais importantes na linhagem Karma Kagyu.

Para alguém que não conhece muito o mundo do budismo tibetano, ou que está acostumado a ouvir falar apenas no Dalai Lama, é bom lembrar que todos os professores citados são imaculáveis detentores dos ensinamentos do Buda. Cada um deles é um oceano de erudição e realização na prática. É dessa estirpe que brota o jovem e acessível Mingyur.

Mingyur Rinpoche conhece bem o mundo moderno, e o pensamento científico dominante na cultura. Ele ensina meditação de uma forma muito clara, de acordo com as necessidades atuais dos seres — num contexto tanto secular quanto tradicional, de acordo com o ouvinte. Rinpoche ficou conhecido na imprensa mundial como o “lama da felicidade”, quando fizeram um estudo sobre o assunto usando imagens de seu cérebro.

Nos círculos budistas, Rinpoche ficou famoso também pelo inusitado retiro que terminou recentemente. Em junho de 2011 ele simplesmente desapareceu, deixando apenas uma carta avisando que estava bem e que não era para procurá-lo. Nem mesmo as pessoas mais próximas sabiam de seus planos. Rinpoche então passou quatro anos como um andarilho incognito, esmolando comida, por regiões do Himalaia na Índia e Nepal.

Esse retiro é considerado inusitado porque hoje quase nenhum praticante ou mestre faz esse tipo de prática. Embora seja uma forma tradicional de fazer retiro, o que geralmente reconhecemos como prática de retiro é mais um isolamento relativamente confortável, em algum centro de darma aprazível, com calefação e três refeições por dia. Tsoknyi Rinpoche brincou em seus ensinamentos no Brasil que hoje em dia não é incomum máquinas de espresso estarem nas listas de “preparação” para retiro.

Ainda assim, mesmo com algumas facilidades, um retiro isolado de alguns anos, onde se pratica meditação por mais de 10 horas por dia, já é considerado algo bastante inconcebível para pessoas que não tem uma prioridade espiritual muito forte. Que dizer então de um retiro em que você também precisa praticar muito, mas em que, além disso, você precisa esmolar comida, muito provavelmente passar frio e temer pela própria segurança?

Mingyur Rinpoche já havia feito vários anos de retiro mais “convencional”, durante seu treinamento budista. Ele já havia completado o tradicional retiro de três anos antes dos 17 anos de idade. A maioria dos lamas até aprecia um bom período de retiro — em que não precisam lidar com questões práticas de administração de seus centros, e podem fazer prática intensa, que lhes é revigorante. Porém, de modo geral, há alguns séculos existe uma crítica dentro da tradição tibetana quanto ao nível de conforto dos professores — particularmente quando eles são evidentemente apegados a esse conforto.

Explico melhor. É evidente que nenhum aluno que se preza desejaria qualquer tipo de desconforto para seu professor, mas em As Palavras do Meu Professor Perfeito e outros textos, lemos algumas palavras críticas sobre a vida de luxo de alguns mestres espirituais. E o problema não é exatamente o luxo em si, o problema é o apego ao conforto. Um professor realizado pode ter tudo de bom a seu redor, mas deve demonstrar uma satisfação imutável, independente de condições externas.

Mingyur Rinpoche mostrou definitivamente não ter esse tipo de problema. Um retiro de andarilho, nesse estilo, implica que você precisa seguir em frente assim que as pessoas lhe reconheçam, ou lhe deem um nome. Você não faz amigos. Você não tem conta bancária ou cartões de crédito. Você não pode trabalhar pelo dinheiro, apenas esmolar — algo que torna inviável esse tipo de prática em países como o nosso — ou em praticamente todo o mundo moderno, onde a mendicância (e a generosidade com mendicantes) não é necessariamente associada a uma prática espiritual, como é em alguns países na Ásia.

Mas qual é a finalidade de retiros, de qualquer tipo? Não é algum tipo de fuga, ou um abandono dos seres?

Algumas pessoas sempre acabam perguntando isso. É uma dúvida justa.

Não. O objetivo de qualquer prática de meditação é vencer as aflições mentais, tais como raiva e orgulho, e desenvolver qualidades iluminadas, tais como a compaixão e um contentamento que não depende de condições. É só até certo ponto livres dessas aflições e revelando até certo ponto essas qualidades que nos tornamos efetivamente capazes de ajudar os outros.

Nossa prática formal diária, o período que separamos para fazer meditação e recitar poesias de devoção ou aspiração, cantos de realização espiritual de mestres do passado, e assim por diante, é também um “pequeno retiro” de algum tipo. E nossa prática na vida cotidiana é o que torna nossa prática formal (tenha a duração que tiver) significativa, e vice-versa. Uma não é possível sem a outra — pelo menos não antes do estado de realização, onde não se faz distinção entre meditação e não meditação. Até esse momento, alternamos o espaço formal da prática com o engajamento no mundo.

Caso tenhamos o anseio de fazer a prática formal quase o dia todo por vários dias, meses ou anos consecutivos, isso é muito meritório. Podemos amealhar aos poucos as circunstâncias para tornar algo assim possível para nós, sob a supervisão de professores qualificados. Mas de forma alguma devemos pensar no retiro como uma forma de fugir dos nossos problemas ou meramente facilitar a vida, e particularmente não de fugir dos seres difíceis que todos nós conhecemos bem. O melhor é entrar em retiro com os seres em mente, com a aspiração de obter as ferramentas cognitivas para trazer benefícios, bem como ser eventualmente capaz de dar exemplo.

E é importante saber que o retiro acaba. Seria muito infeliz apenas apertar o botão “pause” da sua vida e não enriquecê-la de alguma forma com a experiência. Mas essa é uma possibilidade e, portanto, é importante saber praticar e ter a motivação correta desde o princípio — trazer benefício aos seres.

Em todo caso, na medida em que pudermos nos conectar — criar uma interdependência — com grandes seres tais como Mingyur Rinpoche, não devemos perder essa oportunidade. Pode ser lendo o livro que está sendo lançado (Alegre sabedoria), ou indo assistir uma palestra quando ele vier. Ou ao menos reconhecer por um momento como é bom viver um tempo em que os ensinamentos estão disponíveis, e há professores autênticos.

Enfim, aspiramos a imutabilidade dessas boas condições, porque não sabemos quando poderemos usufruir delas. Sabemos que tudo é instável, e, por isso, quando algo se mostra insistentemente valioso, é preciso regozijar.

Neste mês de julho (2016), Mingyur Rinpoche visita o Brasil mais uma vez (como fez em 2006, 2007 e 2009) para uma série de encontros e ensinamentos. Confira a agenda e como se inscrever neste link.

Você também já pode encomendar o livro Alegre sabedoria, no site da Lúcida Letra. Clique aqui e garanta seu exemplar.