O clássico cortante: Além do materialismo espiritual

O problema é que o ego pode converter qualquer coisa para seu próprio uso, até mesmo a espiritualidade. — Chögyam Trungpa

Que tipo de livro budista você encontrava em livrarias no Brasil em 1987? Algumas traduções de traduções inglesas e alemãs da década de 1930, cheias de mistificação e equívocos, e talvez uns poucos textos leves de budismo de “autoajuda”, para gente atribulada, em busca de uma nova terapia. E então, inesperadamente, eis que surge essa arma dármica de puro ferro meteórico: a sabedoria cortante de um professor autêntico e bem-educado (em Oxford!) na neurose peculiar da modernidade.

Edição dos anos 1980, que chega a ser vendida por R$150 em sebos

Além do materialismo espiritual não é feito pequeno. Temos aqui um dos poucos textos budistas que foi traduzido do original em inglês e disponibilizado em tibetano. Foi possivelmente o primeiro texto budista escrito em língua ocidental que fez o caminho oposto, e foi ensinar também os asiáticos a como lidar com os “lalos do materialismo”, cada vez mais globalizados.

Lalo, é um termo tibetano para não civilizado, bárbaro — Trungpa escolheu traduzir como “senhores”, possivelmente porque eles são vistos com respeito em nossa sociedade. Os três lalos, para Trungpa, são o materialismo em suas facetas externa, interna e sutil, isto é, materialismo ordinário, materialismo psicológico e materialismo espiritual.

Chögyam Trungpa Rinpoche é um grande professor do budismo tibetano que, após ter recebido educação tradicional tibetana, veio estudar no ocidente, enfim se estabelecendo num centro de darma na Escócia. Nesse centro ele vivia num ambiente controlado e protegido, mas aos poucos começou a sentir desconforto por ser, em certo sentido, tratado como peça de museu. Ele sentia uma verdadeira barreira entre os ocidentais que vinham para os ensinamentos e as armadilhas culturais, até mesmo sua roupa monástica.

Após um acidente de automóvel que o deixou paralisado de um lado, ele largou as vestes monásticas, casou com uma moça ocidental e literalmente fugiu do centro de darma escocês para a América. Ali, no início dos anos 70 ele encontrou o cenário do fim da era hippie, o que ele veio a chamar de “supermercado espiritual”.

Embora aquela época tivesse suas peculiaridades, o fenômeno segue forte até hoje. Trata-se da espiritualidade vista como um produto, não tanto porque custa dinheiro, mas porque é tratada como uma conveniência. Seria algo que você escolhe numa prateleira, usa, e então descarta em busca de uma nova aventura de autojustificação — e não algo que você integra como uma prioridade, ou algo com que você se compromete independentemente se seus “gostos” e “não gostos” e dos inevitáveis altos e baixos, como deveria ser. A espiritualidade, nessa perspectiva materialista, se torna apenas algo que lhe dá certo conforto psicológico — e em alguns casos, reforça sua identidade como alguém supostamente espiritualizado. Nesse sentido, as pessoas estendem o materialismo usual para as outras esferas, cooptando tudo para um aspecto degradado — imediatista e autocentrado — da perspectiva mundana.

Mas o que é materialismo?

Existem vários tipos de perspectiva mundana, ou convencional. Tradicionalmente, essas perspectivas estavam ligadas a um sentido de viver da terra, fazer seu trabalho, formar uma família, e enfim ser enterrado e virar alimento para alguns seres. Nada disso é particularmente materialista — mas é “material”: é prático, vamos dizer assim. E então a espiritualidade e as visões sutis tinham um contraponto a isso, e preenchiam, bem ou mal, certos anseios das pessoas quanto a um sentido mais profundo para a vida.

É claro que o materialismo sempre existiu, ainda que nas suas formas mais grosseiras, como hedonismo ou simples visão de curto prazo. A pessoa faz o que faz por resultados num horizonte limitado, sem realmente pensar até o final ou ignorando a comunidade em geral por motivações autocentradas. O que acontece na modernidade globalizada é que o materialismose desenvolve como ideologia hegemônica. Isso ocorre por vários motivos, entre eles a corrupção dos valores espirituais no ocidente, bem como as vitórias incontestáveis da ciência (que historicamente se submete a essa perspectiva, ainda que isso seja desnecessário).

Não é de surpreender, portanto, que as próprias estruturas da espiritualidade estejam sujeitas hoje a distorções devidas ao enfoque hegemônico.

Nas palavras de Trungpa Rinpoche:

O eu não existe, mas toma existência aparente na forma de credenciais. A existência de forma, credenciais, é o que mantém a ilusão do eu. Assim, se uma pessoa presunçosamente afirma estar praticando o Darma do Buda, se está usando sua prática como credenciais, então ela está apenas jogando o jogo do ego. Caso algumas pessoas façam isso em grupo, então apenas estarão reforçando umas às outras com o mesmo jogo. Inevitavelmente surgirá um líder. E ele então terá entre suas credenciais e o título de “líder do rebanho”. Os membros do rebanho terão credenciais de “membros da organização tal”. E então o líder e seu rebanho reforçarão suas identidades mutuamente. (…) Inevitavelmente esta organização, esse ego coletivo, buscará confirmação de sua existência e boa saúde organizacional. Isso pode até tomar forma como credenciais de transmissão da linhagem, ou de ensinamentos de grandes mestres, mas em todo caso será uma prostituição desses ensinamentos. Envolverá um jogo infindável e competitivo para aumentar a congregação. E essa competição incluirá diplomas e validações, bem como prática ambiciosa e aparente fidelidade aos ensinamentos. O grupo também verá o sucesso dos rivais como uma ameaça. O Buda disse que seus ensinamentos, como um leão, jamais seriam destruídos por forças externas; eles só podem ser destruídos por dentro, da mesma forma que o cadáver de um leão é consumido por vermes. Essa é a perversão da sanga. É o estilo da espiritualidade na era de degenerescência, a operação do materialismo espiritual. — Chögyam Trungpa, Darma de Buda Sem Credenciais

Algumas pessoas podem ler isto como uma condenação geral e direta de instituições budistas. Mas não se trata disso. Trungpa reconhece que todas as estruturas podem ser corrompidas, mas esse não é o motivo para evitar as estruturas, e sim, para permanecer vigilante quanto as possibilidades de corrupção. O próprio Trungpa estabeleceu várias organizações, centros de darma e inclusive uma universidade.

O materialismo espiritual é mesmo um tanto mais comum do que aquele presente apenas nas estruturas religiosas. De fato, o próprio individualismo e a visão niilista quanto a estruturas facilmente se tornam reforços do autocentramento, uma vez que as comunidades são ferramentas muito boas de “controle de qualidade” da prática. Mais do que na era de Trungpa, as pessoas hoje gostam de se orgulhar do quanto, supostamente, não possuem credenciais. Tudo que se ostenta de uma forma presunçosa pode se tornar uma credencial, até mesmo a ausência de credenciais.

Materialismo convencional

As três formas de materialismo não são diferentes. O materialismo convencional reforça nosso senso de identidade com mimos e conforto. Merecemos coisas boas, e usamos o conforto e os símbolos de status para nos garantirmos perante os outros e nós mesmos como alguém digno. Mas essa busca de felicidade nas coisas externas vem de uma pobreza interna que não reconhece uma dignidade inerente. E ela inevitavelmente se mostra insuficiente.

Podemos seguir nos autoenganando ao tentar obter o próximo posto ou comprando mais algumas coisas, mas se temos um mínimo de honestidade, reparamos que temos feito isso centenas de vezes, e quando obtemos o que queríamos, começa tudo de novo com alguma outra coisa. Não deu certo até agora e não vai ser aquele cargo ou mais um balde de pipoca ou aquela BMW prateada que farão a diferença.

Uma pessoa infantil pode se irritar com ou ter inveja de alguém que ostenta objetos e conquistas pessoais, porém alguém mais maduro sente pena ou compaixão. A pessoa é tão insegura e pobre interiormente que precisa atestar seu valor próprio com as vitórias mais mundanas.

Ademais, ainda que uma “mulher troféu” e esbanjamento na noite, para a maioria de nós, sejam tão evidentemente um comportamento “novo rico”, desagradável ao extremo, ao mesmo tempo não ligamos muito quando alguém tem sucesso merecido na carreira, ou vive bem. Porém, embora essas coisas sejam boas, na medida em que elas constituirem qualquer forma de valoração pessoal — de sentido de identidade e autoafirmação — elas serão fonte de sofrimento futuro. Portanto, seja uma coleção de figurinhas completa ou a Trump Tower, seja torcer para o time vitorioso ou ganhar um prêmio Nobel, caso acreditemos que nosso valor pessoal advém de objetos e conquistas, isso constituirá materialismo convencional. E nós seremos objeto de compaixão daqueles que encontraram um valor intrínseco e inalienável.

Materialismo psicológico

Então, alguma inteligência brilhante dentro de nós reconhece que objetos e posições no mundo não garantem nossos estados mentais. A partir disso compramos vários livros, contratamos os melhores terapeutas e fazemos os mais aprofundados seminários sobre nossa situação. Talvez, depois de muita oscilação entre vários métodos, descobrimos que nossa felicidade vem de sermos pessoas boas e abertas. Então criamos uma identidade boazinha, ou ao menos esclarecida, e isso funciona por um tempo.

No entanto, essas garantias conceituais e sistemas de antítodos emocionais, como drogas, tem problemas de tolerância e dependência. Acabamos numa corrida armamentista emocional e intelectual com as vicissitudes comuns da vida e nossos próprios padrões arraigados. Qualquer tentativa de erigir proteções psicológicas e estabelecer defesas e sistemas inteiros de “viver melhor” necessariamente tombarão perante a realidade natural da impermanência.

Novamente, o problema não são esses meios hábeis temporários, que até podem ser úteis, mas a confiança excessiva neles, e a conexão deles com um senso de identidade autocentrada — algumas vezes ligado a vender esses sistemas para os outros.

Outra manifestação do materialismo psicológico é a crença arraigada, comum em nossa sociedade, de que somos nada mais do que sacos determinísticos de carne. Nesse caso, o jeito de ser uma pessoa melhor se torna receber o melhor tratamento de saúde e usar as melhores drogas. A experiência e a própria vida pouco importam, desde que uma sensação de estabilidade seja artificialmente mantida de algum modo. Isso não quer dizer que não existam sofrimentos que sejam efetivamente aplacados com um tratamento — existem muitos sofrimentos desse tipo. No entanto, a perspectiva materialista e niilista leva muitas pessoas a sofrimentos artificiais que elas efetivamente buscam tratar com a mesma perspectiva que causou o problema, e isso é ainda por cima fomentado por uma indústria e pela publicidade, de forma que se estabelece um problema sistêmico. Falta de sentido na vida vende de tudo: carros, pipoca e drogas. Criar um mundo infeliz ajuda a vender remédio, há um incentivo de materialismo convencional manter as pessoas em dependência crônica, e proliferando ideais materialistas psicológicos ou psiquiátricos.

Quando reconhecemos que os resultados de nossas tentativas de maquiar o ego com estratégias psicológicas positivas ou negativas também falham —quando o materialismo psicológico mostra suas limitações — , enfim buscamos algo mais profundo: algo talvez ligado ao cerne do problema da existência e sentido. A própria espiritualidade.

Materialismo espiritual

Porém, da mesma forma que o sucesso material ou psicológico (não sendo realmente ruim por si só) não garante coisa alguma, apenas relacionar-se com valores espirituais também não é suficiente. O problema é que em todos os casos estamos carregando um macaco nas costas: nosso viés autocentrado. Com essa perspectiva permeando nossas tentativas, nada nunca realmente será o bastante.

Mesmo quando falamos em compaixão e em olhar pelos outros, gostamos de transformar isso numa exibição grandiosa. Talvez não sejamos tão estúpidos ao ponto de nos vangloriar publicamente de quão bons supostamente somos, mas implicitamente até mesmo nossa aparente humildade ou senso de ridículo (por sabermos que no fundo estamos posando de Madre Teresa) cheiram mal.

Encontraremos algumas poucas pessoas que agem de forma ruim mesmo, e sabem disso. Também encontraremos uma vasta quantidade de pessoas que opera basicamente de forma aleatória — isto é, não tem critério nenhum para fazer o que faz ou viver do modo que vive. Mas normalmente nos aproximamos de pessoas que geraram critérios — e é nessas pessoas que vamos encontrar mais claramente os obstáculos mais sutis do materialismo. Não é um problema de quem é imoral ou amoral, é um problema ligado ao sucesso material, psicológico e espiritual. É um problema a que todos estamos sujeitos, e com que inevitavelmente vamos ter que lidar.

Por exemplo, em nosso trabalho podemos ter tido alguns chefes ruins ou ignorantes, mas de forma geral ficamos mais tempo vinculados a chefes que são razoavelmente bons. Caso tenhamos a oportunidade, buscamos chefes desse tipo. Agora, se temos qualquer experiência com isso, sabemos que o chefe “iluminado” apresenta muitas vezes problemas um tanto peculiares. Pelo menos o chefe perdidaço vai nos ouvir: o chefe “iluminado” vai pregar até o fim a sua litania benévola, e estar de desacordo com ele não significa apenas abaixar a cabeça e fazer o trabalho, e sim coadunar-se explicitamente com os valores da tal “empresa iluminada”. E isso, de modo geral, é apenas um modo de ele sustentar sua liderança e se autojustificar como pessoa — um modo por vezes extremamente bem sucedido e que às vezes até mesmo nos coopta para projetos igualmente bem sucedidos mas que, no fundo, têm um vasto potencial para corrupção e abuso. E que a longo prazo não tem como se sustentar.

A mera aparência ou discurso de espiritualidade é um perigo verdadeiro. É muito mais fácil trabalhar com alguém que também está apenas fazendo seu trabalho do que com alguém em algum tipo de cruzada pessoal ou coletiva, por mais positivos que soem superficialmente os valores.

A área empresarial de fato, hoje em dia, é um ponto de confluência dos três senhores do materialismo. Dificilmente encontraremos algo realmente diferente disso em meio a esse âmbito.

E o âmbito espiritual sofre da mesma coisa, já que os centros espirituais cada vez mais são como empresas. Não porque necessariamente visem o lucro ou o sucesso material de seus participantes, embora algumas vezes isso ocorra, mas porque se organizam da mesma forma e toda sua inteligência por vezes opera no modo autocentrado (e evidentemente que ninguém coloca isso em sua missão: o materialismo é geralmente um defeito oculto).

Dou um exemplo prosaico:

Por algum tempo eu costumava receber os turistas que visitavam o centro budista, e essas pessoas tinham todo tipo de motivação para estar ali. Não é como alguém que vai ao centro porque está curioso num sentido mais profundo ou está interessado em praticar. Trata-se de pessoas que estão passando pela região e querem ver novidades ou coisas bonitas, nada nem mesmo por vezes especificamente budista. A pessoa está passando seu tempo no que, aos olhos dela é apenas um parque ou museu (e ela lhe diz isso).

Nessa situação, muitas vezes as perguntas se voltavam para o fato de se elas estariam talvez falando com alguma pessoa importante (isto é, eu mesmo). Quem sabe para poderem contar para os amigos que encontraram um grande “monge” ou algo assim. Quando eu dizia que não, eles muitas vezes me perguntavam como se fazia para subir dentro da organização. Ganhar uma faixa-preta, ou algo assim. Será que eu estava pelo menos no caminho do sucesso e daqui a uns anos me veriam na televisão?

Então, eu dizia que no budismo todo mundo busca se iluminar para ajudar os outros a obter o mesmo resultado, e que transformar a espiritualidade numa carreira seria uma forma de materialismo. Iluminar-se não implica necessariamente ser reconhecido como alguém importante. A maioria das pessoas imaginam a renúncia budista como não tomar cerveja, não dançar forró e raspar o cabelo — ou algo parecido — mas o ponto central da renúncia é o autocentramento e, em particular, a ideia de buscar parecer ser alguém melhor perante os outros. Ou até perante si mesmo.

No budismo tibetano há uma expressão “zhigpo”, que implica algo parecido com um praticante de louca sabedoria, ou talvez um certo tipo de louca sabedoria. Mais especificamente, é alguém engajado em cortar completamente o senso de auto-importância, e que para isso age como uma pessoa completamente comum — talvez até um pouco pior. Então é o caso de um grande mestre espiritual, uma pessoa extremamente reconhecida por outros mestres espirituais, mas que larga os robes monásticos, casa, abre um negócio, é visto bebendo com os amigos e discutindo a conta — e talvez ande por aí com um papel higiênico preso no sapato. “Zhigpo” também quer dizer “quebrado, bagunçado”. Como a gente sabe que essa pessoa é um grande praticante? A gente não sabe. Melhor ficar na dúvida e seguir alguém parecido com o Dalai Lama! Essa ideia só é importante porque a gente sabe que aparências são enganosas.

Nossa cultura bárbara inventou coisas como satélites, antibióticos ou a bomba atômica, mas civilidade e ápice da sofisticação é algo mais próximo do conceito de zhigpo: alguém que se esforça para não parecer importante. Uma cultura que valoriza essa ideia é uma cultura civilizada. Nossas grandes conquistas tecnológicas parecem fantásticas, e num sentido limitado, realmente são. Porém, o fato de não reconhecermos os valores que transcendem o materialismo como igualmente fantásticos, ou ainda mais que isto, vem apenas de nossa pobreza intelectual e de espírito. É por isso que louvamos — ou ocupamos tanto tempo mental — com gente como a Kim Kardashian e o Donald Trump.

E nisso pode surgir certa confusão. Ser uma pessoa melhor, ter coisas boas ou vivenciar felicidade, são sem dúvida valores positivos. As coisas a que o materialismo se fixa, geralmente são pelo menos neutras e muitas vezes até positivas. Uma pessoa ser reconhecida pelas outras e receber um título, por si só, não é materialismo espiritual. O materialismo espiritual ocorre quando isso se torna uma validação autocentrada, seja para quem tem o título, seja para quem se relaciona com quem tem o título. Sim, porque não só quem sustenta a credencial pode ter materialismo espiritual: as pessoas que se validam por estar perto de alguém que tem aquela credencial têm o mesmo defeito.

Pode parecer uma diferença sutil, mas todo mundo entende o conceito de falsa humildade. E muitas vezes a falsa humildade é extremamente evidente, enquanto que outras vezes nem mesmo o falso humilde tem muita clareza sobre o que está projetando e de onde vem a motivação para agir daquela forma.

Na cultura tibetana a humildade extrema chega a ser um jogo divertido entre lamas elevados. Ao ponto de que, se uma pessoa comum fala certas coisas humildes, isso soa extremamente afetado. É claro, um tibetano nunca fala bem da comida que ele mesmo cozinhou — ele sempre se desculpa. Mas se ele disser “ah, não sou ninguém, sou apenas um praticante”, todo mundo sabe que esse tipo de afirmação é algo que o Dalai Lama fala. Você tem que ser realmente importante para se dizer tão pouco, particularmente para alguém que ele próprio é importante, senão é altamente presunçoso. Você está pensando que é o Dalai Lama para dizer que é “um mero monge”?

E então existe na cultura tibetana certa liberação quando alguém se gaba de uma forma adorável. Se você diz que seus momos (uma comida típica) estavam realmente bons, todo mundo ri junto com você — ninguém elogia a própria comida, como algumas vezes brasileiros fazem, por exemplo. E então se você mostra alguma liberdade perante o tabu cultural, isso pode se mostrar adorável. Algumas vezes, no entanto, vi tibetanos chocados com algum ocidental escancarando o quanto era próximo de certo lama — o que é quase uma atitude de Donald Trump. Particularmente, não se gaba do darma, de que prática supostamente se faz, e de suas conexões com o darma. É muito feio. É errado, mas mais que errado, é de extremo mau gosto.

E com isso não estou implicando que a cultura tibetana seja mais iluminada. De fato, esse próprio jogo de humildade é criticado por alguns lamas. Existe muita falsa humildade entre os tibetanos, mas é uma falsa humildade extremamente inteligente e disfarçada por séculos de treinamento. Definitivamente não é o caso que não exista por lá, muito pelo contrário. A diferença é que nós, aqui no ocidente, somos tão enferrujados com a humildade (já que ela não é um valor do materialismo convencional e psicológico) que não temos a mínima sofisticação sequer ao ostentar falsa humildade: ela se mostra evidente e grosseira. E, mais do que isso, aqui a arrogância é quase regra: existe até gente que exige ser chamada de “doutor”.

Esses jogos de aparência são o tal materialismo espiritual. Não é necessariamente ostentar um mala de coral de três mil dólares, roupas tibetanas chiques ou a melhor almofada de meditação que existe. Isso é materialismo externo dentro do centro de darma e só uma pessoa muito iniciante confundirá você com um praticante por causa disso (e só um simplório o confundirá com um grande praticante!). Com o tempo, você reconhece aquela pessoa que usa um mala discreto e que tem um material de prática surrado como a que tem mais chance de ser praticante há mais tempo, o que as vezes quer dizer que ela talvez seja um bom exemplo — ou não. Existem materialismos espirituais mais sutis mesmo nesse aspecto grosseiro da forma e no valor intrínseco de “tempo de prática”.

Alguns praticantes hoje em dia também gostam de ostentar conexão com grandes professores ou ensinamentos elevados. Como se o fato da pessoa conhecer as palavras mahamudra ou dzogchen, ou receber alguns ensinamentos de fim de semana a respeito, a transformasse num praticante das mais sutis formas de meditação. De modo geral, verdadeiros praticantes de meditação não ostentam suas realizações meditativas, e não usam o nome de suas práticas como algum tipo de distintivo de honra. Por outro lado, está cheio de poseurs por aí que mal sabem amarrar o sapato, mas usam expressões como “natureza da mente” e “vacuidade” o tempo todo, até para pedir pizza tele-entrega.

Porém, o materialismo espiritual também não é, como algumas pessoas confundem, o fato das pessoas fazerem muita prática formal, muitos e longos retiros, e particularmente acumulações. Absolutamente qualquer coisa pode servir de apoio para o autocentramento, e portanto, até mesmo coisas que são verdadeiramente maravilhosas podem ser distorcidas pelo apego ao eu. Mas é importante ver que elas não implicam materialismo espiritual por si só. Nossa tarefa é entender o perigo dessa atitude e a evitar. Seria uma tragédia usar a ideia de materialismo espiritual como uma desculpa para não estudar e não praticar formalmente o darma ou para não nos envolvermos com organizações budistas. O melhor é se engajar em tudo o que é virtuoso, mas evitando a perspectiva materialista ou autocentrada. Mais que isso, reconhecendo que sempre podemos nos aprisionar nela, então desenvolvemos vigilância.

O livro “Além do materialismo espiritual”

Além do materialismo espiritual detalha em muita precisão os labirintos psicológicos de nossas tentativas de usar a espiritualidade para nos validarmos. Esse livro é obrigatório para quem pratica o budismo tibetano — contém um comentário do Sutra do Coração por Trungpa Rinpoche, e é um clássico absoluto. Todo mundo precisa ler, várias vezes. Ao longo dos anos eu mesmo comprei esse livro mais de dez vezes e o presenteei para várias pessoas. Apenas tome cuidado, já que esse presente algumas vezes pode ser uma indireta muito direta: tente não ofender o recipiente de sua generosidade! “Cara, como você é autocentrado em sua espiritualidade, leia isso!” Diga que o livro ajudou você mesmo a encontrar obstáculos secretos que todo mundo tem. O que se já não é verdade, será quando você mesmo ler.

Na verdade não conheço nenhum praticante espiritual em qualquer nível que não se beneficiou ou não se beneficiaria dessa leitura.

Embora talvez não seja o melhor livro introdutório ao budismo — por ser cortante demais, e um tanto sofisticado — ele tranquilamente pode ser um ótimo segundo ou terceiro livro.

Ele é também essencial para todo interessado em budismo de forma geral, e pode ser muito relevante para aquelas pessoas que participam de outras comunidades e outros treinamentos espirituais, tradicionais ou não. Nesse caso, se a pessoa conseguir gerar afinidade com o livro, isso será extremamente benéfico.

Para comprar o livro, acesse o site da Lúcida Letra, clicando aqui.